sexta-feira, 30 de março de 2012

Petrópolis, 16 de março!

Ontem foi dia 16 de março e essa data passaria despercebida por mim se não fosse a fundação da cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro, cidade para onde me mudei recentemente. Quer dizer, vivi mais de 50 anos no Rio de Janeiro e não tinha maiores informações sobre Petrópolis que somente conhecia de passagem em viagens turísticas rápidas. E mais, não tinha sentido a importância da cidade, não tinha vivido sua realidade agora.

Decidi morar aqui em fins de 2009, já aposentado do meu trabalho na FINEP em 2008. Os motivos são parecidos com os de tantos outros, que procuram tranqüilidade, qualidade de vida e privacidade. Embora o motivo mais forte tenha sido compensar uma grande perda pessoal e encerrar um ciclo da vida, em outras palavras.

Finalmente em maio de 2010, mudei para Petrópolis para o bairro do Bingen. Aluguei uma casa em uma rua muito bonita chamada Major Alberto silva. Essa rua me lembrou as ruas do alto Leblon do tempo em que só havia casas por lá. Na realidade, o que me conquistou nessa casa foi o jardim, amplo e bonito, com árvores frutíferas e flores bem cuidadas. A idéia era, primeiro alugar algo e dependendo da aclimatação à cidade, quem sabe comprar alguma coisa por aqui.

Depois de quase um ano, decidi morar aqui de vez e levei a cabo a venda do meu apartamento no Bairro Peixoto em Copacabana, comprando uma casa no bairro da Taquara, ao lado do Cremerie e do Quitandinha. Acho que tenho conseguido tudo o que esperava da cidade. Gosto do frio não muito rigoroso e de sua neblina densa em alguns momentos.

A primeira visão que tenho lembrança de Petrópolis, desde que vim por aqui como turista, é do Palácio do Quitandinha.  O prédio imponente e belíssimo em estilo normando-francês, abrigou um dos maiores e mais belos cassinos da América Latina.

Por ali passaram artistas famosos no mundo inteiro como Greta Garbor, Maurice Chevalier, Carmen Miranda, Walt Disney, presidentes de vários países, políticos e intelectuais, cientistas, além de ser cenário para várias produções do nosso cinema ainda nascente. A assinatura de declaração de guerra das Américas aos países do Eixo, durante a II Guerra Mundial, também se deu lá.

No entanto, este hotel e cassino tradicional, comparável a qualquer outro no mundo, foi condenado à falência após uma decisão estupidamente conservadora, na época do presidente Dutra, que proibiu o jogo em todo o território nacional.

São muitas histórias. Este é apenas um dos lugares de grandes lembranças de Petrópolis, há inúmeros prédios históricos do tempo do Império e da República e outros nem tão históricos, mas que emprestam a sua beleza art deco à cidade.

Petrópolis é uma cidade de quase trezentos mil habitantes, média para os padrões do Estado do Rio e foi a jóia da casa Real de Portugal, quando da passagem do Império Português pelo Brasil. É o lugar do Palácio de Verão como era chamado, quando construído para dom Pedro II e inaugurado em 1847.

O projeto original da cidade, fundada em 16 de março de 1843, foi idealizado pelo major Julio Frederico Koeler com Centro Administrativo, Comércio e Serviços. Foi a segunda cidade planejada do país com suas ruas arborizadas e jardins floridos. Pela sua colonização passaram os alemães, italianos e açorianos.

Um de seus habitantes ilustres, Santos Dumont, ficou conhecido mundialmente como inventor do avião. A sua casa na cidade, virou um ponto de atração turística pela sua excentricidade arquitetônica.

A Petrópolis atual, contudo, não faz jus à sua história, suas tradições e seus projetos. O que transparece ao observador mais atento é uma sensação de abandono. Abandono sobretudo dos setores públicos, em especial, mas também de seus próprios moradores, de certo desiludidos e levados pela inércia dos acontecimentos.

Não digo que Petrópolis seja uma espécie de Viena tropical, por que seria um exagero, mas o cuidado e conservação que os europeus devotam àquela cidade lindíssima, poderiam nos contaminar de algum modo.

De passado tão rico em todos os sentidos, Petrópolis vem decaindo a olhos vistos, com as ocupações desordenadas de habitações, transporte público precário, má conservação e a falta de controle ambiental do seu entorno, outrora belíssimo,  porquanto é todo constituído de montanhas cobertas de Mata Atlântica, mas que volta e meia se transforma em palco de tragédias climáticas, como a de janeiro de 2011, a mais recente.

Do ponto de vista econômico, a única atividade que tem destaque no município, além do turismo, é seu centro de moda íntima, que atrai milhares de sacoleiros à Rua Teresa, aquela mesma que foi Imperatriz um dia. A partir da década de setenta, as principais indústrias de Petrópolis como fábricas de cerveja, têxteis, de malhas, de móveis, equipamentos e atividades agrícolas foram fechando, tanto por falta de interesse dos investidores no Estado, quanto por projetos inadequados à geografia e às necessidades da região.

Dizem agora que Petrópolis vai dar uma virada na sua história para voltar a ter o charme que já possuiu um dia. Os investimentos estão retornando e a atividade turística começa a recuperar o fôlego.Tomara que seja verdade! A Cidade Imperial que deveria ser o maior ponto de atração turística do Brasil fez 169 anos.