sexta-feira, 29 de junho de 2012

Ah, o primeiro livro!

Sempre se ouve dizer que o livro vai acabar por causa da digitalização. Eu não acredito, o rádio, o teatro e o cinema não acabaram por causa da televisão. O jornal não acabou por causa da Internet. Há quem goste dos antigos LPs e não dos CDs, estes sim em extinção.

Como se cria o hábito de ler? Eu acredito no incentivo. Sem êle não se tem a curiosidade ou melhor, ela não é despertada.

A leitura sempre foi incentivada lá em casa e embora eu preferisse ficar na rua brincando, tinha fascínio pelo o que cada livro poderia conter.

Com nove anos decidi escrever um livro e fiquei dias com um caderno em branco na minha frente e nada, absolutamente nada saiu. Comecei a escrever sobre um passeio ao zoológico que eu jamais havia feito e ficou tão ruim, mas tão ruim que logo me desanimei a continuar. Se alguma coisa boa saiu disso foi o senso crítico de que aquilo era muito ruim.

Eu me lembro como se fosse hoje, minha mãe deitada no sofá da sala, lendo um livro intitulado “Inferno Verde”. Quase todos os dias ela lia alguns trechos daquele livro. Eu ao lado dela, ficava enfeitiçado com aquelas histórias. Eram relatos romanceados das aventuras no interior da mata amazônica.

O tal do inferno verde era a floresta amazônica. Eu, nos meus oito anos, sem saber de nada, nem onde ficava Copacabana, não podia imaginar tal lugar. A Amazônia funcionava como um lugar mágico, cheio de mistérios e tão distante de nós quanto possível. Era quase um símbolo, um marco da brasilidade longínqua.

Mais tarde fui saber que seu autor, Alberto Rangel, foi engenheiro e trabalhara na Amazônia. Quem escreveu seu prefácio foi Euclides da Cunha, que além de escritor conceituado, foi seu companheiro da Escola Militar da Praia Vermelha.

O livro é de relatos da realidade amazônica e dá uma dimensão diferente do paraíso tropical, do eldorado que tantos almejavam. Na minha inocência de criança o que me chamava atenção e creio que minha mãe selecionava os trechos que lia, eram as partes de aventura e mistério simplesmente. As disputas de terras, as condições precárias de trabalho, da saúde, dos índios e a política me passavam despercebidas.

Então, eu tinha muito medo da onça que deixava seus rastros na mata, apavorando os moradores próximos. Todos queriam caçar a onça. Isso parecia correto, porque afinal o lobo mau também era caçado naquela outra história, mas eu sentia rejeição à idéia da caça. Por que não pegá-la e devolvê-la à mata, pensava?

Já em outra narrativa eram os barulhos assustadores da floresta à noite. Aprendi palavras indígenas como Igapó(alagadiços com vegetação) e Igarapé(braço de rio, longo). Há que falar das cobras e dos mosquitos, aranhas e outros insetos peçonhentos sempre em torno daquele cenário calorento e úmido. Por muito tempo fiquei com a imagem do inferno verde de Rangel na cabeça, quando ouvia falar do Amazonas.

Depois com a idade avançando fui tomando gosto por ler os jornais também. Sou do tempo do JB – Jornal do Brasil, o melhor jornal da época. Sério, correto, ia da cultura aos esportes, passando pela economia e política, defensor da democracia, em tempos bicudos para tal, após o golpe político de 1964.

Seus jornalistas e articulistas, todos de primeiríssima categoria, nos informavam tudo e a conclusão era sua. Hoje, eu digo a quem quer fazer concurso público, por exemplo, que a melhor apostila que existe é o jornal diário.

Enfim, gosto de ler tudo, do romance à biografia. A oportunidade de entrar em mundos diversos, cheios de emoções, mistérios, novidades nas mais diferentes situações é incrível! Leio alguns clássicos também com algum sacrifício, porque clássico é pesado, é tarefa.

Ainda não sei ao certo o que é literatura. Sei se gosto ou não gosto.

O brasileiro lê um livro em média por ano, é muito pouco, não é? Leitura leva à educação, consciência ambiental e política, civilidade e à literatura e isso tudo junto forma um cidadão.

Adoro ler!

sábado, 28 de abril de 2012

Sítio de Mury, o paraíso na Terra!


Ontem, dia 25 de abril de 2012, fui ao sítio em Mury, na direção de Lumiar, na localidade do Alto Cinqüenta. Fui para colocar o sítio à venda numa imobiliária. Na realidade, desde setembro do ano passado que eu tomei essa decisão. O Sítio é muito lindo, tem dois riozinhos que passam, um ao lado da casa e outro que percorre uma área fechada por mata Atlântica.

Pela primeira vez entrei na casa já vazia, sem qualquer móvel. Engraçado, a sensação de que se passou um fase da vida, me deu um pouco de serenidade. Eu tinha um certo receio de voltar lá nesse estado de coisas, sem nada. Foram quase dez anos de uso, dez anos de felicidade. Eu nunca imaginei que um dia compartilharia um lugar assim, tão mágico. O paraíso na Terra, como dizia o Paulo a todos que iam nos visitar. Foram quase todos, famílias, amigos, amigos dos amigos.

Na verdade, a história começou muito antes, logo depois que um grupo nosso de seis pessoas amigas resolveu comprar uma área na Serra da Sibéria, em 1994, ali no meio do caminho para Lumiar, no Rio de Janeiro. Luiz, Lia, Rita e Roberto, seus filhos, Helena e Vitor, Paulo e eu, amigos de longos anos.

Chegar lá já era uma verdadeira aventura, pela estradinha íngreme de terra até uma altitude razoável de uns mil e trezentos metros. A gente podia chegar por dois caminhos: um pelo acesso de Santiago, passando pelo Le Guildin, restaurante dos franceses (Gerald e Jocelyne) que se tornariam grandes amigos nossos; e outro passando por São Pedro da Serra, lá no final, subindo, subindo até quase chegar no céu.

O nosso terreno, em plena reserva de Mata Atlântica, fica logo depois do Sufi, uma corrente filosófica Islâmica vinda da Pérsia(Iran) e Paquistão. Essa corrente, em particular, foi fundada, havia mais de vinte anos, por argentinos e seus discípulos iam todos os segundos sábados do mês, se não me engano, para meditar e rezar, voltando no mesmo dia para casa. Nesses sábados, a estradinha ficava cheia de carros quatro por quatro e outros de passeio, mas que conseguiam chegar lá. Nunca entrei nas dependências do Sufi, mas diziam que havia um grande templo com partes subterrâneas e tudo. Diziam também, que além disso, havia a parte ligada ao esoterismo e vida extra-terrena. Tudo envolto em muito mistério que eles fazem questão de manter.

Fizemos em cooperativa, uma pequena casinha, muito charmosa, com outro grande amigo nosso, arquiteto, Paulo Guilherme. Parece a casa de João e Maria da famosa história para crianças. Lá não tinha luz, o que achávamos ótimo! As luzes eram de lampião à gás de butijão. A música e as notícias, nós resolvíamos com um antigo rádio Philco Transglobe que pegava a CBN e a MPB FM, assim estava ótimo! Celular, nem pensar, não pegava mesmo, ainda bem! O banho obviamente frio, era tomado no chuveiro externo ao sol, quando tinha. Os mais corajosos tomavam banho no banheiro interno mesmo, aos pulos e aos gritos. Cansamos de ir à Sibéria sob chuva forte, nunca tivemos medo, porque lá a preservação ainda é respeitada, então o que cai é natural e não há aglomerações em áreas de risco.

Ao final de seis anos, como tudo muda, nossas histórias de vida foram se transformando também. Lia tinha ido morar numa casa no sítio dos franceses a essa altura, nossos amigos. Luiz de casamento novo, praticamente não freqüentava mais a Sibéria. Rita e Roberto, por conta de seus trabalhos, diminuiram bastante as suas idas. Helena e Vitor cresceram, viraram belos jovens e foram viver as suas vidas. Eu e Paulo continuávamos a ir junto com Lia que morava agora bem perto. Assim foi, até que um dia Lia, que caminhava frequentemente com Gerard(Gerald) e Jocelyne pelas redondezas, avistaram um sítio à venda no Alto Cinqüenta, uma espécie de bairro em Mury.

A casa vista da estrada parecia ser muito bonita, bem cuidada e grande. Brincaram comigo que tinham achado meu sítio, porque pelo lugar e pela construção parecia ser muito caro. Conversei com Paulo e decidimos ir ver, pois era nossa intenção comprar alguma coisa na região para morar na idade mais avançada. A Sibéria, conforme o combinado entre nós, ficaria com os remanescentes. Falamos com Lia também, mas ela já tinha decidido voltar para o Rio e não teve interesse na nova empreitada.

Fomos ver o sítio sem muita esperança de poder comprá-lo já que parecia ser caro. No entanto, a casa avistada da estrada não era a que estava à venda, era uma outra mais abaixo, vizinha àquela. Para nossa surpresa, o sítio ao lado além de ser bem maior, tinha uma casa do mesmo estilo da outra e o preço, outra surpresa, era bastante acessível! Bingo!

Um chalé austríaco muito bonito, projetado por uma arquiteto húngaro que ainda vivia na região aos noventa e dois anos. Vimos o sítio numa manhã ensolarada do verão de 2000, no início de dezembro e nos apaixonamos instantaneamente. Um deslumbre, com os riachos, a mata atlântica, os espaços generosos e bem cuidados. Foi tudo muito rápido e em 20 de dezembro mesmo, fechamos o negócio.

Os anos seguintes foram de muita felicidade, com as freqüentes visitas de nossos amigos mais queridos, familiares, sempre em inesquecíveis finais de semana ou períodos de férias.

A casa foi totalmente reformada, novamente com Paulo Guilherme, em 2002 e ficou mais linda ainda do que era. O projeto que tinha sido construído junto com esse sítio foi interrompido quase dez depois, por circunstâncias que talvez um dia eu consiga contar. Os amigos mais próximos e alguns familiares sabem a que estou me referindo.

As histórias de perdas são muito tristes e o sítio de Mury foi só alegria em todos os sentidos, um sonho que ao mesmo tempo era realidade, afinal era o paraíso na Terra.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

À propósito de Carlinhos Cachoeira


A propósito do Senador Carlinhos Cachoeira (a confusão não é desprovida de sentido), de Demóstenes Torres e sua turma, o tema corrupção, sempre presente em nossa sociedade, me vem à cabeça como uma bomba de retardo. A pior bomba já construída, sem precisar de nenhuma tecnologia porque é feita de pura irresponsabilidade misturada à maldade mais básica. 

A corrupção é um mal endêmico, inoculado na sociedade. Desde o tempo do descobrimento, dirão alguns, jogando toda a culpa nos portugueses, sempre com uma ponta de maldade, porque os acham inferiores aos outros europeus. Não são. Que o digam, os ingleses, os espanhóis e holandeses, de triste passado nas suas ocupações e andanças colonizadoras na nossa América Latina, África e Ásia.  

É difícil de combater a corrupção, porque é quase um mal da alma, quando instalada. Eu me lembro daquela senhora, falando da ética do mercado, nas gravações de vídeo de uma simulação de licitação mostrada no Fantástico, no mês de março deste ano, justificando sua conduta ética de fraudar licitações.  

Ela diz aquilo com uma convicção de que é assim mesmo e pronto, sem um pingo de remorso nem de escrúpulos. Já um diretor de outra empresa, nessa mesma gravação, disse que não trabalhava com qualquer vigarista, que inclusive, ensinava aos filhos o princípio da solidariedade: eu protejo você, que me protege e assim por diante, se referindo aos seus “concorrentes” na licitação. 

Falta de compromisso, desapego à coisa pública, pouca responsabilidade com a nossa própria vida!

Essa gente não enxerga, ou pior não se importa com isso, que o centavo que é roubado aqui, lá na frente vai deixar milhares sem emprego, sem perspectiva, sem saúde, sem infra-estrutura básica, ou seja, sem futuro. Ou será que alguém pensa que corrupção é uma forma de distribuição de renda?

Há quem vá dizer, mas isso é generalização maldosa, afinal tem muita gente que não é corrupta. É verdade, mas esses não causam mal e exatamente por isso estão fora de esquadro, porque a regra não é essa.

Se não vejamos: há os que marretam o imposto de renda e não se julgam corruptos. Dizem: “o Governo não me retorna quase nada, aliás eu nem preciso do INSS porque pago meu plano de saúde...” e vai por aí a sua justificativa marretosa.

Outros compram muito nos camelôs e dizem: “ é um trabalhador como qualquer outro e os preços nas lojas são abusivos e além do mais eu já sou descontado no imposto de renda...”.

Tem os que pagam as carteiras de motorista nas auto-escolas um sete um; os que dão uma cervejinha para o guarda mau caráter da rua ou da estrada para não serem multados; os que fazem um gato ou gatilho de energia, de TV, de telefone; os que dão um agrado para funcionários públicos que passam seus processos na frente; as empresas, em especial do comércio, que não dão nota fiscal; os médicos e dentistas, em especial também, que não dão recibos de consultas; os que dão uma grana para os esquemas dos aeroportos e portos, trazendo toda sorte de artigos estrangeiros taxados pela Receita e assim por diante.

São muitas as armações. Todas justificadas porque, ora os preços são absurdos, ora lá fora é muito mais barato ou os impostos já são muito altos. A Receita? Ah a Receita não serve para nada mesmo, só para encher os bolsos do Governo que rouba e não faz. Quer dizer: parece que todos estão em outro planeta e que o País em que vivem, não é também o seu lugar, que deveria ter melhores condições de vida, hospitais decentes, habitação e saúde e conseqüentemente preços melhores com maiores investimentos.

Tudo isso é passado para a responsabilidade dos Governos, como se não fosse de nossa responsabilidade a sua eleição.

Pois é, porque isso tudo está interligado. Não há separação entre o Governo, os preços, os serviços, as empresas e os votos. Se você não paga os impostos, o Governo arrecada menos, os serviços ficam mais caros, os preços idem e os investimentos somem. Os votos? Bem há quem vote por um emprego, por um parentesco, por uma garantia nas próximas licitações, por qualquer coisa que seja vantajosa para si.

A corrupção, essa sim, se aproveita de toda essa confusão e graça solene. É assim mesmo, todo mundo rouba! A máxima é dita com uma ponta de orgulho!

 que, cada marretada, cada cervejinha, cada voto errado ou mal intencionado, custa muito caro lá na frente. Quem vai viver num País pior são os seus filhos, netos e assim por diante. Porque dinheiro, mesmo roubado, um dia acaba e aí? Aí sobra o País sem nada para oferecer.
 
Não há outra saída que não a mobilização e pressão junto aos Congressistas por mudança dos processos e mais fiscalização.
























quarta-feira, 18 de abril de 2012

Vamos marcar um almoço?

Mais um dia comum, nem chove nem faz sol, é comum. Acordo com o dia quase claro, vou ao canil e solto os cachorros, dou a comida. Eles como sempre estão se embolando no chão, acho que isso é porque estão felizes. O macho é mais forte, mais alto, mas a fêmea aplica-lhe uns golpes nas patas dianteiras que eu costumo chamar de MMA e êle, coitado, desaba no chão de barriga para cima. Ela cai em cima de mordidas nas orelhas e nas peles do pescoço que é a parte que ela mais gosta de morder. Êle parece não se importar se levanta e dá o troco e ficam assim até irem comer. E eu esperando, se não, eles não comem direito. Eu tenho que ficar ali até o fim.

Depois café, depois obra. É, estou no final (há três meses) de uma obra que no total já dura dez meses. Mas está ficando bom, eu gostei de tudo até agora. Dia que corre, chega alguém das poltronas, outro do jardim e material, mais material. Eu me lembro de Águas de Março, é pau, é pedra, é o fim do caminho...... .

Jà é noite e lá pelas nove entro no Facebook, porque ninguém é de ferro e eu confiro as fofuras e as maldades do FB. Pulo todas as fofuras, fico nas maldades, sempre mais divertidas. De repente alguém me chama e acho que estou tendo alucinações, mas como, se não tomei nenhuma tarja preta ainda?

Não, era um amigo meu de muitos anos que me chama: “Eduardo, você está aí?”. Estou, respondi. A conversa que era para durar dois minutos, durou quase três horas de muitas gargalhadas e histórias rememoradas com direito a imagem no Skype e tudo. Nunca vi o Mário de mau humor, êle continua assim, é vacinado contra isso. Foram repassadas algumas mortes, alguns desencontros, alguns encontros, doenças, curas, cachorros, filhos, trabalho, tudo.

No final, o óbvio, vamos nos encontrar? Claro, amanhã? Amanhã não posso, estou enrolado. Eu também não posso, mas e na próxima semana? Tranqüilo, vamos chamar todo mundo? Todo mundo não dá, mas alguns, pode ser. Então tá marcado, quem avisa aos outros? Os dois. Tá bom.

Olha aqui, o Othon está on line vamos falar com êle? Vamos, manda um recado malcriado, hahahahha! Já mandei. Êle mandou a gente se f...., hahaha. Mas e aí, êle vai? É, confirmou. Tá bom!

No dia seguinte, já estão todos confirmados, não é muita gente, só oito pessoas. Alguns sempre que me viam diziam: “ pôxa, você só almoça com o mesmo pessoal, me convida que eu vou!”. O amigo das três horas de FB era o que nós não víamos há mais tempo, uns dez anos talvez. A gente até se fala, mas é de vez em quando. E quando se fala é como se tivesse se encontrado ontem. Vai ver que é assim mesmo com quem a gente gosta.

Chegou a semana em questão, mais uma vez entrei em contato com o Mário, para ser mais exato, na véspera do encontro. Êle me disse que sim, estava certíssimo. Eu perguntei, onde você sugere? Êle me respondeu, "no restaurant", assim mesmo, em francês(é uma babaquice antiga sem maiores explicações)! Sem tomar conhecimento da “piada?!” repassei a confirmação para os demais que me perguntavam, mas onde vai ser? Acabamos por combinar na Majórica.

Desci a serra de Petrópolis de ônibus. Engarrafamento na baixada, Linha Vermelha, engarrafamento, descida de São Cristóvão e finalmente Rodoviária. Táxi, que eu pego na chegada da Rodoviária, porque no desembarque tem sempre uma máfia e dá muito trabalho para se desvencilhar dela. Enfim, túnel, Laranjeiras e o Flamengo. Valeu o esforço, não durou mais que duas horas.

Cheguei e já estavam lá, Betina, Othon e Janon, tinham reservado uma mesa grande que seguravam sob os olhares furibundos do garçon. Cláudio não vem, desceu conosco e tomou outro rumo, disseram. Jacques ninguém sabe, nem eu que o convidei, pensei. Em seguida chegaram Paulinho e Sonia, aquele pessoal que eu sempre almoço. Aí aguardamos nosso esperado Mário.

Deu meia hora e alguém disse, liga para êle. Eu havia ligado, mas não chamou. Enfim, lá pelas quinze para as duas eis que liga o Mário e diz: Ôi, é o Eduardo ou o Oitão (apelido do Othon, meio óbvio, mas válido para nós há trinta anos)? Sou eu Mário, o pessoal está aqui te esperando e aí? Eu estou indo ao cartório e vai ficar tarde pra caramba! Como assim cartório? E o almoço com o pessoal? É que não deu para adiar e eu tenho que ir. Mas você não avisou... ah deixa pra lá! O detalhe mortal é que êle mora em Niterói, naquele dia não tinha ido trabalhar por causa de uma greve de ônibus e se fosse chegaria para o jantar. É verdade, fica para outra vez! Todos se entreolharam, riram e lamentaram, falando mal é claro! Afinal, o almoço tinha sido iniciativa dele!

Liberamos parte da mesa para o garçon que quase vertia lágrimas de ansiedade. Depois desse episódio caímos dentro do almoço propriamente. Pusemos a conversa em dia, foi ótimo! O Mário(é, aquele que te comeu no armário, diria êle às gargalhadas)? Um dia a gente marca de novo e êle não aparece "no restaurant".

domingo, 8 de abril de 2012

Em dia de malhação de Judas

Nesses tempos de páscoa, não tem como se abstrair e não pensar  o mundo na época de Jesus, sua geopolítica, o poder romano total do ocidente sobre a religiosa região da Palestina.

No entanto, uma das histórias, dentro dessa história que sempre me chamou muito a atenção foi a de Judas Iscariotes. Na realidade, ela possui algumas versões, onde a mais interessante é que o próprio Jesus teria sugerido a êle a sua denúncia aos romanos e que Judas teria  sido o discípulo mais fiel a Jesus.

Foi encontrado um suposto “Evangelho de Judas”, escrito em grego, entre os anos de 150 e 180 DC que o National Geographic  adquiriu por um milhão de dólares do Antiquário Tchacos da Suíça em 2000. O evangelho é apócrifo e não consta da Bíblia, nem é reconhecido pela Igreja, mas fala sobre o encontro da revelação entre Jesus e Judas pouco antes de sua morte.

Ocorre que a história de Judas mais conhecida é da traição pura e simples, por dinheiro e por inveja, talvez. Pode-se ainda descrevê-la como uma das muitas traições que acontecem em política e poder ao longo da história da humanidade. Se bem que essa foi uma das traições que ficaram eternizadas no imaginário da população, como uma das mais graves e terríveis.

Na minha opinião penso que qualquer traição é grave e terrível, mas em se tratando de Jesus, vamos a essa.

Jesus reapareceu, pregando a palavra de Deus, segundo êle, em Jerusalém, depois de mais de vinte anos sumido, desde o seu nascimento e perseguido por Herodes, imperador judeu/árabe que tinha mandado matar todos os meninos com dois anos de idade na época, por conta de um boato sobre o nascimento de um messias.

Depois que Herodes morreu, José, pai de Jesus e toda a família, se mudaram para Nazaré, onde se estabeleceram e logo depois que José morreu, Jesus, já com doze anos começou as suas pregações e feitos, segundo os evangelhos.

Ao longo de sua trajetória Jesus foi constituindo um ministério de doze apóstolos, entre os quais, Judas, um dos seus amigos mais próximos.

As coisas com o Governo Romano, na época de Tibério César, andavam mal para o lado de Jesus, que com suas pregações tornara-se uma ameaça ao império com suas reivindicações igualitárias e pacifistas, além  de falar em nome de Deus e de se dizer filho direto dele, é claro.

Segundo ainda, relatos dos evangelhos, a retórica e a comunicação de Jesus, arrastavam multidões, o que preocupava cada vez mais o Governo. Como é natural ser, os levantes e conspirações eram clandestinos e Jesus e seus discípulos também o eram e porquanto perseguidos pelo Governo Romano.

A certa altura dos acontecimentos e isso está meio que relatado rapidamente nos evangelhos, Judas resolve de uma hora para outra indicar aos governantes o esconderijo de Jesus em troca de dinheiro que dava para comprar um escravo apenas, 30 moedas de prata. Pouco para quem está até o pescoço em uma conspiração tão importante.

Jesus é preso e julgado como agitador e falso profeta. Sua sentença, como ditava a justiça romana era a crucificação e o ultraje público para efeito de demonstração ao povo. Pôncio Pilatos, governante local, sanciona a sentença no célebre ato de lavar as mãos porque não o julga tão perigoso assim e Jesus é crucificado.

Isso tudo é história, sagrada para alguns milhões. O fato é que até hoje se cultua um ódio transferido a Judas que parece que incorpora todos os pecados do mundo no ato da sua malhação.

É um ritual tenebroso, muito comum aqui no Brasil, a malhação do Judas. Acho que tem esse nome para encobrir o verdadeiro nome que é o linchamento a pauladas e pedradas. Aliás como se faz hoje ainda em alguns países mulçumanos, em caso de adultérios por exemplo, mas isso é outra história.

Ah, mas aí temos um culpado, dizem todos! Será? O pior é que esse ritual é praticado por crianças de todas a idades que aprendem a odiar, nem que seja ali naqueles segundos de destruição alucinada e ofegante dos bonecos ou dos representantes que encarnam Judas.

Eu mesmo me vi envolvido nisso aos nove anos de idade e esse ato me causou repulsa e eu nunca mais o pratiquei, mesmo quando era convocado pelos meus melhores amiguinhos a assassinar Judas.

Acho que isso não é tudo, lógico, mas explica um pouco essas brigas de torcidas organizadas, as milícias fascistas, a lei do tráfico de drogas e armas, os regimes totalitários, os massacres étnicos e tantas outras barbaridades.

Se existe um culpado, vamos lá exterminá-lo com as nossas próprias mãos. É olho por olho, dente por dente!

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Obrigado e "desculpa qualquer coisa", tá?

Antigamente, para comemorar alguma coisa, eu juntava as pessoas nos bares da vida. Muito mais tranquilo, afinal, o pessoal chega vai sentando, todo mundo que se conhece já senta perto e as coisas meio que funcionam, com você no papel de peão que vai rodando a mesa e acaba falando com todo mundo.

A saída também é tranquila, porque cada um vai levantando e carrega a sua comanda (isso já é mais moderninho), mas eu sempre preferi pagar a conta toda. Claro, evita confusão, por causa da diferença dos pratos, dos whiskies do fulano ou das caipirinhas da fulana, então pago e pronto, não me aporrinho.

De um tempo para cá resolvi mudar o esquema e chamar todo mundo para um jantar em casa. Amigos do trabalho, amigos da vida toda, amigos da música e a família, é claro!

Tudo ia bem, comida, bebida, música e a conversa. Falamos de tudo e de todos, sempre com muita maldade, imitando os trejeitos e sotaques das pessoas não presentes é lógico, mas com muitas risadas também, ou seja, o que qualquer grupo de amigos e principalmente familiares fazem.

O churrasco, é tinha churrasco, fazer o quê? Apesar do calor infernal que reinava e da fumaça que transformava todos os seres humanos presentes em picanhas mal passadas. Se não tem churrasco você parece um ET que não sabe receber.

Como eu dizia, o churrasco saia bem, todo mundo elogiando. A casa, recém-saída de uma obra, estava ótima, bom astral. Tinha ficado exatamente como eu queria, aconchegante num espaço generoso.

De repente, alguém começou a falar em política, aí o tempo esquentou. Tem sempre gente contra e gente a favor, mas havia ainda havia nível para conversa. Não chegamos nem ao puta que o pariu!

É óbvio que outra parte expressiva dos convivas falava, ou melhor berrava algo sobre times de futebol, todos presentes, Fluminense, Flamengo, Vasco e Botafogo. O campeonato que estava na fase final embalava os gritos de guerra que começaram a ser ensaiados nas torcidas já doidas por uma encrenca. Por uma sorte imensa não havia jogo decisivo naquele dia, quase um milagre!

Mas, Deus é Pai e logo veio em socorro dos mais aflitos, a música ao vivo, é isso mesmo, o velho violão e toca de “Espanhola” pra cá, “Andança” pra lá e “Tempo Perdido”. Engraçado que “Tempo Perdido”, do Renato Russo, tem o dom de igualar as idades, eu percebo isso. Não sinto isso nem no Raul Seixas. Alguns engraçadinhos pediam, “Minha avó tá maluca” e “Ái se eu te pego”, figindo ser piada, mas doidos para cantarem essas coisas. Graças a não sei o quê, ninguém deu ouvidos a isso, nos dois sentidos.

Nem a pregação de um pastor e as imprecações dos fiéis, numa igreja nem tão próxima, mas audível como um baile funk, conseguiu atrapalhar a agitação reinante, ainda bem! Temos que agradecer porque quase nunca passam da dez horas da noite.

Ao longo da feixxsta, como diz minha sobrinha predileta, houve de tudo um pouco, ou de um tudo, como dizem alguns. Tinha um grupo de três (atenção não estavam em três, isso é fundamental, mas seguindo em frente), um rapaz arquiteto, uma moça bailarina e um funcionário público, para os quais nada tinha importância, pois continuavam discutindo Bauhaus, Art Deco, Deleuze, Semiótica e o escambau!

E claro, percebia-se alguma traição conjugal no ar entre certos pares, improváveis!

Atingido o grau alcoólico maior, tinha gente bêbada declarando amor e amizade eternos e recíprocos, para no momento seguinte, desabarem em choro compulsivo, gente se esgoelando para cantar o mais alto possível, crianças (sempre elas) que só vão dormir, quando o último pai ou mãe exausto, está caído no sofá.

Os cachorros, estes, ficaram no canil, não porque sejam bravos, mas porque são amorosos demais e grandes, então para que todos não ficassem rasgados e imundos, eles têm que olhar a festa dali mesmo, não tem jeito.

Engraçado, juntar todas essas tribos num mesmo espaço é interessante e perigoso também, vai de intrigas homéricas entre outrora amigos inseparáveis, fofocas de emprego a ódios familiares inexplicáveis.

Isso tudo não teria nenhum problema, se não fosse, já lá pelas três da madrugada, quando todos começam a debandar ao mesmo tempo, você com vontade de morrer ali mesmo em pé e com a casa transfigurada, ouvir a seguinte pérola: olha estava tudo muito bom, muito obrigado e “desculpa qualquer coisa” tá? Fica com Deus! Dá vontade de fazer um haraquiri e sumir!

Tá bom, por mais um aniversário, desculpa qualquer coisa. Deus, você vai ficar mesmo? Então vem me ajudar, tchau!

sexta-feira, 30 de março de 2012

Petrópolis, 16 de março!

Ontem foi dia 16 de março e essa data passaria despercebida por mim se não fosse a fundação da cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro, cidade para onde me mudei recentemente. Quer dizer, vivi mais de 50 anos no Rio de Janeiro e não tinha maiores informações sobre Petrópolis que somente conhecia de passagem em viagens turísticas rápidas. E mais, não tinha sentido a importância da cidade, não tinha vivido sua realidade agora.

Decidi morar aqui em fins de 2009, já aposentado do meu trabalho na FINEP em 2008. Os motivos são parecidos com os de tantos outros, que procuram tranqüilidade, qualidade de vida e privacidade. Embora o motivo mais forte tenha sido compensar uma grande perda pessoal e encerrar um ciclo da vida, em outras palavras.

Finalmente em maio de 2010, mudei para Petrópolis para o bairro do Bingen. Aluguei uma casa em uma rua muito bonita chamada Major Alberto silva. Essa rua me lembrou as ruas do alto Leblon do tempo em que só havia casas por lá. Na realidade, o que me conquistou nessa casa foi o jardim, amplo e bonito, com árvores frutíferas e flores bem cuidadas. A idéia era, primeiro alugar algo e dependendo da aclimatação à cidade, quem sabe comprar alguma coisa por aqui.

Depois de quase um ano, decidi morar aqui de vez e levei a cabo a venda do meu apartamento no Bairro Peixoto em Copacabana, comprando uma casa no bairro da Taquara, ao lado do Cremerie e do Quitandinha. Acho que tenho conseguido tudo o que esperava da cidade. Gosto do frio não muito rigoroso e de sua neblina densa em alguns momentos.

A primeira visão que tenho lembrança de Petrópolis, desde que vim por aqui como turista, é do Palácio do Quitandinha.  O prédio imponente e belíssimo em estilo normando-francês, abrigou um dos maiores e mais belos cassinos da América Latina.

Por ali passaram artistas famosos no mundo inteiro como Greta Garbor, Maurice Chevalier, Carmen Miranda, Walt Disney, presidentes de vários países, políticos e intelectuais, cientistas, além de ser cenário para várias produções do nosso cinema ainda nascente. A assinatura de declaração de guerra das Américas aos países do Eixo, durante a II Guerra Mundial, também se deu lá.

No entanto, este hotel e cassino tradicional, comparável a qualquer outro no mundo, foi condenado à falência após uma decisão estupidamente conservadora, na época do presidente Dutra, que proibiu o jogo em todo o território nacional.

São muitas histórias. Este é apenas um dos lugares de grandes lembranças de Petrópolis, há inúmeros prédios históricos do tempo do Império e da República e outros nem tão históricos, mas que emprestam a sua beleza art deco à cidade.

Petrópolis é uma cidade de quase trezentos mil habitantes, média para os padrões do Estado do Rio e foi a jóia da casa Real de Portugal, quando da passagem do Império Português pelo Brasil. É o lugar do Palácio de Verão como era chamado, quando construído para dom Pedro II e inaugurado em 1847.

O projeto original da cidade, fundada em 16 de março de 1843, foi idealizado pelo major Julio Frederico Koeler com Centro Administrativo, Comércio e Serviços. Foi a segunda cidade planejada do país com suas ruas arborizadas e jardins floridos. Pela sua colonização passaram os alemães, italianos e açorianos.

Um de seus habitantes ilustres, Santos Dumont, ficou conhecido mundialmente como inventor do avião. A sua casa na cidade, virou um ponto de atração turística pela sua excentricidade arquitetônica.

A Petrópolis atual, contudo, não faz jus à sua história, suas tradições e seus projetos. O que transparece ao observador mais atento é uma sensação de abandono. Abandono sobretudo dos setores públicos, em especial, mas também de seus próprios moradores, de certo desiludidos e levados pela inércia dos acontecimentos.

Não digo que Petrópolis seja uma espécie de Viena tropical, por que seria um exagero, mas o cuidado e conservação que os europeus devotam àquela cidade lindíssima, poderiam nos contaminar de algum modo.

De passado tão rico em todos os sentidos, Petrópolis vem decaindo a olhos vistos, com as ocupações desordenadas de habitações, transporte público precário, má conservação e a falta de controle ambiental do seu entorno, outrora belíssimo,  porquanto é todo constituído de montanhas cobertas de Mata Atlântica, mas que volta e meia se transforma em palco de tragédias climáticas, como a de janeiro de 2011, a mais recente.

Do ponto de vista econômico, a única atividade que tem destaque no município, além do turismo, é seu centro de moda íntima, que atrai milhares de sacoleiros à Rua Teresa, aquela mesma que foi Imperatriz um dia. A partir da década de setenta, as principais indústrias de Petrópolis como fábricas de cerveja, têxteis, de malhas, de móveis, equipamentos e atividades agrícolas foram fechando, tanto por falta de interesse dos investidores no Estado, quanto por projetos inadequados à geografia e às necessidades da região.

Dizem agora que Petrópolis vai dar uma virada na sua história para voltar a ter o charme que já possuiu um dia. Os investimentos estão retornando e a atividade turística começa a recuperar o fôlego.Tomara que seja verdade! A Cidade Imperial que deveria ser o maior ponto de atração turística do Brasil fez 169 anos.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A Ideologia acabou?

Há vários tipos de ideologias, como de religiões, por exemplo, mas desde sempre quando a gente fala em ideologia, nos referimos aos pólos formados lá pelo final do século dezoito (1789), a partir da revolução francesa, mãe de todas as revoluções modernas. Ou seja, o contra-ponto entre a direita reacionária, dona dos meios de produção, vinda das classes abastadas da nobreza e da esquerda revolucionária, vinda do povo oprimido e dos intelectuais idealistas. Dentro desse quadro, o absolutismo de Luiz XVI foi derrubado em um país central da Europa como a França, trazendo as mudanças sociais com os princípios universais que viraram história, “ liberdade, fraternidade e igualdade”. Os revolucionários tinham conseguido por fim a um período de grave injustiça social, prometendo uma verdadeira tomada do poder pelo povo oprimido.

No entanto, o que se viu em seguida, já com Napoleão em pouquíssimo espaço de tempo (mais ou menos 20 anos), foi a ascensão de um governo burguês, um período de ditadura militar e logo depois o retorno à monarquia. Claro que isso tudo se passou com muita luta política, muitas execuções sumárias de ambos os lados, mas deu origem ao que se chama até hoje de direita e esquerda. Dessa época ainda, se diz que essa denominação vinha da posição que os pobres e os ricos se sentavam nas igrejas durante as missas. Ricos à direita e pobres à esquerda da nave principal.

A Europa, líder mundial e dona da maioria da riqueza mundial, se digladiava entre uma guerra e outra, no debate acirrado com o que se chamaria mais tarde de capitalismo e socialismo científico, este último liderado por Karl Marx e Friedrich Engels. Marx, que além de exímio analista político, trafegava pela matemática com absoluta desenvoltura, pelas ciências sociais, pela economia e pela filosofia, era uma espécie de cinco em um.

Em 1917 acontece outra revolução que mudaria para sempre a feição da Europa que foi a revolução bolchevique Russa que vai configurar um pólo vigoroso de poder da esquerda no mundo. Essa hegemonia só seria abalada por outro gigante, a China que consolida a sua revolução comunista em 1949. A ideologia nesse sentido, perdurou por mais dois séculos, refletida ainda nos países periféricos da Ásia e na América Latina, sendo que a de Cuba e a última importante, ficou imortalizada como a mais romântica, com Che Guevara, " hay que endurecerse pero sin perder la ternura, jamas! ". Não dá para deixar de citar frase célebre.

Quando criei consciência política (se dizia assim naquela época), lá pelos meus vinte e dois anos, ainda em um período de exceção política, que vivemos a partir de 1964, imediatamente aderi às teses de um mundo melhor e mais igualitário. Nos chamavam de inocentes úteis. Por meu lado, eu não tinha nada de inocente e muito menos de útil, mas eu sabia onde eles queriam chegar com isso, era a desqualificação das nossas lutas, só isso. Eu não ligava e aprendi por mim mesmo a ler nas entrelinhas o limite do que era sincero e aquilo que era só figura de retórica.

As várias mudanças que aconteciam no mundo eram conhecidas mais por relatos de quem vivia muito perto das lutas de poder do que pela mídia em si, sempre comprometida com seus sistemas locais que sufocavam as oposições. As propagandas de um lado e de outro, encobriam o que realmente acontecia. Se de um lado o capitalismo usava e abusava do direito de mentir sobre apropriações indébitas, delações infames em nome dos regimes de esquerda, os socialistas se ufanavam de uma sociedade que não existia na realidade, porque não tinham conseguido erradicar a pobreza e a liberdade de expressão inexistia ou andava muito mal.

A juventude, com seu ímpeto natural, pegou a bandeira esquerdista para ela e defendeu a revolução com unhas e dentes. Muitos deram literalmente suas vidas, outros foram presos e torturados sem ter direito a qualquer processo de defesa. Quando faziam algum julgamento, geralmente era forjado, apenas para propaganda enganosa junto a opinião pública. Os militares e policiais envolvidos em torturas e prisões ilegais jamais foram punidos. Em muitos casos foram promovidos ou afastados para lugares seguros aqui ou no exterior.

O auge do regime autoritário brasileiro é atingido no período entre 1968, pós Ato Institucional nº 5 e o ano de 1973, do Governo do General Médici. Com a distensão proposta pelo General Golbery, no governo do General Geisel, o País começa a voltar para os eixos, para em 1979 decretar a anistia política, permitindo o retorno dos exilados. Esse processo se estendeu por mais 5 anos, já no Governo do General Figueiredo, terminando nas eleições ainda indiretas, em 1985, mas com grande participação popular pelas eleições diretas em 1984 e que para imensa frustração geral, acabaram não ocorrendo.

Em 1979, ocorre a primeira grande greve geral, no ABC paulista. Até então as greves eram proibidas e violentamente reprimidas. Essa também o foi, mas um líder metalúrgico, Lula, surgia com grande força e carisma e a greve marcou o início do desmonte da repressão como se conhecia desde 1964. A população apoiou, os intelectuais e políticos tiraram as mordaças e se posicionaram. O País começou a mudar.

Durante a década de oitenta, o País passou pelo que se chamou de uma ressaca democrática, com o restabelecimento das eleições diretas em todos os níveis, dos partidos políticos, a participação de todos e os matizes ideológicos começaram também a aparecer e se diferenciar. Acabou aquela solidariedade contra a ditadura. De lá para cá, é cada um no seu quadrado.

Esse processo de algum modo parecido se passa no resto do mundo, enquanto nós saíamos de um período de ditadura de mais de vinte anos, a Europa experimentava o fim real do período da segunda guerra mundial, passando por mudanças de orientação política, onde se viu a alternância ente direita e esquerda em vários governos de países importantes como França, Inglaterra, Alemanha, Itália, Espanha e Portugal.

A África, com um atraso secular imposto pelos países centrais da Europa, começa um processo radical e nem sempre ideal de libertação e de governos próprios. O Japão se transforma no grande líder capitalista da Ásia e a China começa a redesenhar seu projeto de poder e liderança mundial, sem mudar o seu regime político centralizador, ajudando a derrubar ditaduras, como a do Camboja, antes aliadas.

Depois da queda do muro de Berlim, em 1989, até meados dos anos noventa, bem como o fim da toda poderosa União Soviética em 1991, todo esse universo ainda se equilibrava entre esquerda e direita. Entre capitalismo e socialismo. É claro que as condições objetivas, como se dizia nos movimentos de esquerda, continuavam e continuam dadas. As questões antes tidas como dadas eram a miséria das massas e a dominação capitalista, o que tem mudado muito nos últimos vinte anos.

O capitalismo mudou, não porque seja bonzinho, mas sim porque os movimentos sociais cresceram imensamente e êle teve que se curvar aos novos dias por pura sobrevivência. As recentes crises financeiras estão aí para provar a sua fragilidade e necessidade de maiores e mais austeros controles por parte dos Estados e da sociedade. No entanto, hoje as questões centrais, queiram ou não direita e a esquerda, são o meio ambiente e os direitos humanos. De outro lado, as questões mais básicas da ideologia tradicional não sobreviveram. Nem Chaves com seu tardio socialismo moreno, que Brizola e Darcy Ribeiro tentaram pilotar com muito mais talento, conseguiu empolgar o mundo. Nem os rompantes das ameaças direitistas a reboque das crises econômicas, conseguiram contagiar os descontentes, como na Segunda Guerra. O populismo de direita perdeu espaço, ainda bem! Algumas vezes a direita ganha eleições, mas tem que se controlar, como estamos vendo Sarkozy (sempre a França em cartaz).

Eu me lembro dos meus tempos de PT, (foram 21 anos ao todo) em que eu costumava dizer aos meus adversários políticos que a minha crítica em relação ao Lula era pela esquerda e ninguém entendia muito, mas é que esse conceito era sério para a gente. É óbvio que eu não queria que o socialismo fosse implantado de uma hora para outra e ponto. Essa forma de falar "pela esquerda" queria dizer que o compromisso com a ética, contra o fisiologismo, contra a velha política era inegociável, por exemplo.Uma coisa curiosa aconteceu de uns tempos para cá. Gente que votava na direita sempre passou a gostar do Lula e eu passei a não votar mais no Lula. Na última votação para presidente fui de Marina no primeiro turno e de Serra no segundo turno. O mundo dá voltas e como dá!

As novas gerações do mundo ocidental não estão mais preocupadas com as revoluções, ao contrário elas são refratárias a isso. O que não quer dizer que se alienaram completamente com pensam alguns, mas que enxergam o mundo de uma maneira diferente,  bem diferente e não por isso menor ou pior que a nossa. O debate ideológico mudou de foco, para dizer uma palavra que eles usam e gostam muito. O individualismo e não a individualidade, talvez tenha chegado a patamares extremos, é verdade, mas isso já, já, vai se acomodar também, porque o espaço físico não mudou e esse é de todos queiram ou não. Há quem diga que a ideologia acabou. Ou será que ela apenas mudou de nome? Se tem uma coisa que eu aprendi, é que nada é imutável ou para sempre, as idéias e os ideais mudam, ainda bem!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Ficha Limpa no Supremo

Ninguém tem dúvida que em uma sociedade democrática qualquer pessoa só pode ser considerada culpada de algum delito se isto for comprovado e julgado, a Constituição garante esse direito. É bom que se diga que isso não é nenhum exagero, pelo contrário é a garantia do direito de defesa do cidadão. Até aí estamos de pleno acordo com essa prerrogativa, só que os processos e prazos do judiciário precisam ser revistos e aperfeiçoados, não há dúvida também.

Todos os, dias assistimos à postergação indefinida de processos os mais absurdos, onde praticamente se tem a certeza da culpa dos acusados, mas que por conta de intermináveis recursos não chegam ao final ou prescrevem, perdem a validade, por assim dizer.

Por vezes a Justiça se prende aos aspectos estritamente técnicos das matérias, à letra da lei como se costuma dizer, esquecendo do seu sentido prático e ético e contraditoriamente acaba protegendo o ilícito. Contudo, antes de qualquer lei está a evolução da sociedade e o seu julgamento. As leis são feitas para ela e não ao contrário.

Quando a sociedade, cansada de ser enganada e passada para trás, vem exigir a ficha limpa dos candidatos a cargos eletivos, está exercendo um direito igualmente importante. É óbvio que esse atestado de boa conduta não garante o bom comportamento permanente do aspirante ao cargo, por exemplo, de deputado ou senador, mas dá uma sensação de segurança que ainda é necessária para uma sociedade, que continua muito fragilizada diante do número assustador de casos de fraudes e corrupção na sua administração e vida pública.

Portanto, hoje, dia 15 de fevereiro de 2012, é importante, que o Supremo Tribunal entenda esse momento e que tenha sensibilidade ao julgar a matéria que a princípio parece excessiva, mas que vem ao encontro do cidadão. Quer ter cargo público? A ficha corrida tem que estar limpa, sempre!

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Viajar sim, comprar não!

Viajar para mim foi sempre sinônimo de conhecimento e liberdade para aprender outras culturas. Assim, a primeira coisa que vem à cabeça é que lugar é este, o que tem para oferecer que eu não vi ainda? Muitas vezes é a comida local que é especial e que você nunca comeu. Vale experimentar tudo e do jeito que as pessoas estão acostumadas a fazer. Não adianta nada a gente ir para Indonésia e frequentar restaurantes de comida francesa, é perda de tempo. Eu me lembro que lá pelos idos de 1992, mais ou menos, fui à Porto de Galinhas perto uma hora e meia de Recife, onde há um litoral maravilhoso de longas praias de águas claras quase sempre a uma temperatura ideal, nem frio, nem quente. Fiquei num resort desses que não me lembro o nome, mas no final dessa longa praia havia, não sei ainda existe, o restaurante da Dete, onde a fritada da Dete era a indicação imperdível.Pois olha, realmente era, simplicidade e perfeição, nada além disso. Uma comida absolutamente generosa e inesquecível. A fritada era feita com o peixe dali mesmo da orla e do dia mesmo que a gente comia. Os acompanhamentos todos feitos na hora também, com farofa e saladinhas maravilhosas, além de um arroz branco e macaxeira esplêndidos.Isso tudo diante de uma vista deslumbrante, de um mar azul e limpo. Bom, na época que eu estive lá, a própria Dete ia de mesa em mesa conferir o seu contentamento e atendimento com uma delicadeza e satisfação a cada elogio, que devia ser a sua melhor recompensa. Passando de comida à bebida, nada como você, em Havana, tomar um Mojito na Bodeguita, ou um Daiquiri no Floridita de Hemmingway, ao som de uma original rumba, ou da canção Hasta Siempre, em homenagem ao Comandante Tchê Guevara, cantada em qualquer lugar em que você esteja e que é sempre emocionante, sin perder la ternura, jamas! Ir à Nova Iorque e não visitar o MOMA, não dá! É sempre fantástico poder ver obras de arte que a gente até desconfia que não vai gostar, mas que na hora dá aquele frisson. Contemplar Van Gogh, Dali, Frida Kahlo, Picasso, Warhol, Mondrian, Rousseau etc... são momentos únicos, profundamente mágicos mesmo. E os shows do Radio City Music Hall, imperdíveis. Fui ainda ao CBGB, na Bleecker Street, clube underground, onde tocaram ícones do rock e do punk mundiais, como Ramones, Patti Smith, Talking Heads etc... .O que dirá de se ir à Londres e não passar pela Abbey Road, em frente à Apple dos Beatles? Até mesmo ver a rainha Elizabeth, por acaso, como foi o meu, na hora da troca de guarda foi interessante. Indo para Oxford, na Inglaterra, foi marcante ver o teatro de madeira, onde Lewis Caroll, escritor de Alice no País das Maravilhas, deu aulas de teatro, isso não tem preço. Em Paris, o museu do Louvre todo vale pela Monalisa! Exageros à parte, ver a pintura do Da Vinci, do século catorze, ali, a poucos metros de você é uma experiência fantástica, emocionante. Conheci poucos lugares no Brasil e no exterior, até então, mas tudo foi devidamente esquadrinhado, vivido intensamente. Viagem para mim é isso, comida e bebida, arte, diversão e lugares! Compras, encomendas e outras tarefas desagradáveis são mais que dispensáveis, ainda mais depois da globalização que você encontra o mesmo celular 4g ou sandália havaiana, na Tailândia, na Bósnia ou no Congo.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Caetano Veloso sobre Lurdinha

Há muita gente que antipatiza com Caetano Veloso. Suas posturas pessoais avançadas, suas opiniões políticas polêmicas, seus pitis públicos e até sua arrogância leonina assumida, talvez expliquem essa antipatia. Eu, ao contrário, sempre gostei dele e sempre tentei tirar das suas declarações polêmicas, algo que estivesse nas entrelinhas, como a ânsia de ver mudar as coisas, progredir, fazer bem, tão evidente no seu trabalho musical. Enfim, me identifico cada vez mais com êle.

Quando ouvi o disco Caetano Veloso 1969, álbum branco, lembro-me do grito de Gil, saudando Marighella, ao fundo de Alfômega. A menção a Marighella, uma das personalidades mais perseguidas pelos militares, era para mim e para meus amigos de engajamento na esquerda, quase a revolução em pessoa.

Já a esquerda, por seu lado, menosprezava os baianos, quase os hostilizava, mas eu sabia que êles, para mim, garoto de vinte e poucos anos, traduziam com paixão a revolução dentro da revolução.

Gil e Caetano principalmente, por terem uma postura avant garde, com a aproximação e entendimento com o Rock, que vivia seu auge, junto com o declarado amor incondicional por João Gilberto e ainda com o resgate de canções brasileiras antigas com nova roupagem, conquistavam definitivamente a juventude para o lado deles. Uma juventude libertária se formaria a partir de então.

Durante muitos anos, Caetano meio que omitia a sua convivência e simpatia pela esquerda dos tempos estudantis da Universidade Federal da Bahia, onde cursava filosofia. Por vezes, com motivação de sobra para tanto, disse que não se interessava por política. Nada como o tempo para amenizar o que a gente achou definitivo um dia.  Enfim, após Verdade Tropical, seu livro de depoimentos reveladores e muito verdadeiros, Caetano começa a liberar suas histórias de um período ainda longe dos holofotes da mídia, nos contando histórias de pura emoção.

O recente depoimento de Caetano sobre Lurdinha, publicado na sua coluna dominical de O Globo, é tão bonito, devotado, profundo, que imagino que ela tenha ficado muito feliz. O seu texto, como sempre bem escrito, com detalhes bem escolhidos como só a boa prosa pode produzir, está anexado abaixo para a conferência e apreciação dos leitores.

Não conheço Lurdinha, é claro, mas como tantos outros, tive amigos ligados aos movimentos de resistência à ditadura militar de 1964, que desapareceram, foram torturados ou foram presos. Recentemente, perdi a minha grande paixão da vida toda que participou de um desses movimentos "armados" que eu diria "amados" posto que se tratava de verdadeira doação da sua juventude a um projeto de solidariedade com um futuro pleno de esperança, de igualdades de oportunidades para todos. Logo um turbilhão de imagens e pensamentos tomou conta da minha cabeça e uma saudade boa me aqueceu o coração. Obrigado Caetano.


CAETANO VELOSO - Lurdinha – publicado pelo O Globo - 11/09/11

Paulinha Lavigne, que foi minha mulher e é minha empresária (portanto tem de me conhecer um bocado), riu muito ao me ler aqui contando que quase colaborei com a luta armada. Mesmo Dedé, que era minha mulher no tempo em que essas coisas se deram (e que é minha amiga queridíssima), poderá ter se surpreendido: não me lembro de ter dito a ela sobre o esboço de combinação que fiz com Lurdinha de dar apoio logístico à guerrilha. Ambas devem estranhar que um banana de pijama como eu, que, como disse o brilhante Lobão numa pocket-palestra, toca violão como quem está tomando um cafezinho (embora eu não tome cafezinho), pudesse estar ligado, ainda que remotamente, a atos de violenta bravura.

Lurdinha era minha colega de sala na faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia. A turma era muito pequena. Os professores não despertavam entusiasmo. O interesse em ir à faculdade se centrava nos encontros com Wladimir Carvalho e Fernando Kraichete e nas conversas com Rose Foly no Diretório Acadêmico. Lurdinha, no entanto, com sua genuína vocação para a disciplina, assistia às aulas e executava as tarefas curriculares com pontualidade. Várias vezes ela foi me buscar em casa, fazendo arrancarem-me da cama às pressas, para que eu não perdesse uma prova. Ela era comunista e olhava com benevolência meu jeito boêmio.

Wladimir também era comunista. Todos os meus amigos na faculdade — e fora dela — eram de esquerda. Nenhum iria ao Cine Roma assistir a um show de rock de Raulzito e os Panteras. Íamos ao clube de cinema, ao MAM, ao Teatro dos Novos, aos concertos da Reitoria, ouvíamos João Gilberto e Thelonious Monk. Rock era lixo e anátema. Carlos Nelson Coutinho era nosso contemporâneo na faculdade e já escrevia artigos sérios: era o lado teórico do movimento que crescia no período pós-Jânio e pré-ditadura . Quando surgia uma discussão sobre se Luís Carlos Maciel escrever um livro sobre Kafka e Beckett representava alienação, eu sempre me posicionava do lado dos malucos: embora só tivesse lido “A metamorfose” e os contos “Na colônia penal” e “O faquir” (estes, na revista “Senhor”) — e nada de Beckett — eu tendia a gostar dos artistas insubmissos a programas que deveriam servir a alguma “ditadura do proletariado”. Apesar da minha teimosia em não entrar em grupo nenhum, eu era tratado com simpatia. O Centro Popular de Cultura da UNE local me pediu que escrevesse um samba para um bloco de carnaval engajado. Fiz “Samba em paz” — que veio a ser gravado, anos depois, por Elis.

O que mais impressionava em Lurdinha era sua sobriedade. Ela não exibia retoricamente a força de suas convicções: seu despojamento pessoal, sua lealdade inabalável, sua decisão de não perder tempo com discussões decorativas é que mostravam a firmeza de sua orientação política.

Quando nos jogamos no tropicalismo, Lurdinha tinha se casado com o pintor Humberto Vellame e se mudado para São Paulo. Entre móveis de plástico transparente e manequins de fibra de vidro, tínhamos, Dedé e eu, em nossa sala, um quadro de Vellame. O casal nos visitava de vez em quando. O tropicalismo tinha uma fome estética de violência que se traduzia em imagens fortes nas letras, sons elétricos e distorcidos nas bases, aproximação com a vanguarda radical da música clássica, contraste gritante com a bossa nova. Isso correspondia a uma impaciência com a inatividade dos comunistas sob ordens de Moscou e a uma identificação com a nascente dissidência liderada por Marighella. Faz pouco Juca Ferreira me alertou para o fato de que não toda a esquerda era hostil ao tropicalismo: dentre a turma da Libelu (Liberdade e Luta) havia quem gostasse do nosso estilo. Lurdinha — que nunca fez coro às reações antipáticas ao nosso trabalho por parte da esquerda — sentia a mesma impaciência que eu. Só que ela nunca fora nem boêmia nem retórica: seu sentimento tinha de se expressar em ação. Quando ela me pediu um eventual apoio logístico, acedi de imediato.

Em "Verdade Tropical" digo que se a nossa revolução de esquerda tivesse vencido talvez daí saísse apenas mais um gigante com câimbras. Mas Marighella foi morto numa rua de São Paulo antes que isso se tornasse ao menos provável. E pela mão de Sérgio Fleury, o truculento policial que, em entrevista à revista“Realidade”
nos anos 70, disse da “Baixinha” que estivera sob tortura: “Maria de Lourdes do Rego Mello: Está aí uma das moças mais corajosas que vi na minha vida. De uma lealdade e segurança impressionantes. Nunca se deixou trair nos interrogatórios, nunca arrancamos dela uma palavra que levasse ao ‘Velho’ (Joaquim Câmara Ferreira, o ‘Toledo’). Foi seguida durante 60 dias, filmada, fotografada, até que foi presa. Essa moça recusou ir para o Chile, na troca com um embaixador. Quando soube disso, eu a chamei até minha sala. Disse: ‘Olha aqui, Baixinha, você mentiu para mim o tempo todo. De tudo quanto disse, 99% era mentira. Mas gostei de sua atitude. Aceito as suas mentiras. Agora deixo você em paz.’”

Desde que fui preso e exilado, eu não tinha notícias de Lurdinha. Temia que ela não estivesse viva. Foi o blog “Obra em progresso”, da feitura do Zii e Zie, quem a trouxe de volta. Um dos comentaristas, Julio, tinha o sobrenome Vellame. Perguntei se ele era parente de Humberto. Ele respondeu: “Sou filho de Lurdinha, Caetano.” Assim, a internet de Hermano Vianna me reaproximou da Maria Quitéria da guerrilha urbana.”