sábado, 18 de fevereiro de 2012

A Ideologia acabou?

Há vários tipos de ideologias, como de religiões, por exemplo, mas desde sempre quando a gente fala em ideologia, nos referimos aos pólos formados lá pelo final do século dezoito (1789), a partir da revolução francesa, mãe de todas as revoluções modernas. Ou seja, o contra-ponto entre a direita reacionária, dona dos meios de produção, vinda das classes abastadas da nobreza e da esquerda revolucionária, vinda do povo oprimido e dos intelectuais idealistas. Dentro desse quadro, o absolutismo de Luiz XVI foi derrubado em um país central da Europa como a França, trazendo as mudanças sociais com os princípios universais que viraram história, “ liberdade, fraternidade e igualdade”. Os revolucionários tinham conseguido por fim a um período de grave injustiça social, prometendo uma verdadeira tomada do poder pelo povo oprimido.

No entanto, o que se viu em seguida, já com Napoleão em pouquíssimo espaço de tempo (mais ou menos 20 anos), foi a ascensão de um governo burguês, um período de ditadura militar e logo depois o retorno à monarquia. Claro que isso tudo se passou com muita luta política, muitas execuções sumárias de ambos os lados, mas deu origem ao que se chama até hoje de direita e esquerda. Dessa época ainda, se diz que essa denominação vinha da posição que os pobres e os ricos se sentavam nas igrejas durante as missas. Ricos à direita e pobres à esquerda da nave principal.

A Europa, líder mundial e dona da maioria da riqueza mundial, se digladiava entre uma guerra e outra, no debate acirrado com o que se chamaria mais tarde de capitalismo e socialismo científico, este último liderado por Karl Marx e Friedrich Engels. Marx, que além de exímio analista político, trafegava pela matemática com absoluta desenvoltura, pelas ciências sociais, pela economia e pela filosofia, era uma espécie de cinco em um.

Em 1917 acontece outra revolução que mudaria para sempre a feição da Europa que foi a revolução bolchevique Russa que vai configurar um pólo vigoroso de poder da esquerda no mundo. Essa hegemonia só seria abalada por outro gigante, a China que consolida a sua revolução comunista em 1949. A ideologia nesse sentido, perdurou por mais dois séculos, refletida ainda nos países periféricos da Ásia e na América Latina, sendo que a de Cuba e a última importante, ficou imortalizada como a mais romântica, com Che Guevara, " hay que endurecerse pero sin perder la ternura, jamas! ". Não dá para deixar de citar frase célebre.

Quando criei consciência política (se dizia assim naquela época), lá pelos meus vinte e dois anos, ainda em um período de exceção política, que vivemos a partir de 1964, imediatamente aderi às teses de um mundo melhor e mais igualitário. Nos chamavam de inocentes úteis. Por meu lado, eu não tinha nada de inocente e muito menos de útil, mas eu sabia onde eles queriam chegar com isso, era a desqualificação das nossas lutas, só isso. Eu não ligava e aprendi por mim mesmo a ler nas entrelinhas o limite do que era sincero e aquilo que era só figura de retórica.

As várias mudanças que aconteciam no mundo eram conhecidas mais por relatos de quem vivia muito perto das lutas de poder do que pela mídia em si, sempre comprometida com seus sistemas locais que sufocavam as oposições. As propagandas de um lado e de outro, encobriam o que realmente acontecia. Se de um lado o capitalismo usava e abusava do direito de mentir sobre apropriações indébitas, delações infames em nome dos regimes de esquerda, os socialistas se ufanavam de uma sociedade que não existia na realidade, porque não tinham conseguido erradicar a pobreza e a liberdade de expressão inexistia ou andava muito mal.

A juventude, com seu ímpeto natural, pegou a bandeira esquerdista para ela e defendeu a revolução com unhas e dentes. Muitos deram literalmente suas vidas, outros foram presos e torturados sem ter direito a qualquer processo de defesa. Quando faziam algum julgamento, geralmente era forjado, apenas para propaganda enganosa junto a opinião pública. Os militares e policiais envolvidos em torturas e prisões ilegais jamais foram punidos. Em muitos casos foram promovidos ou afastados para lugares seguros aqui ou no exterior.

O auge do regime autoritário brasileiro é atingido no período entre 1968, pós Ato Institucional nº 5 e o ano de 1973, do Governo do General Médici. Com a distensão proposta pelo General Golbery, no governo do General Geisel, o País começa a voltar para os eixos, para em 1979 decretar a anistia política, permitindo o retorno dos exilados. Esse processo se estendeu por mais 5 anos, já no Governo do General Figueiredo, terminando nas eleições ainda indiretas, em 1985, mas com grande participação popular pelas eleições diretas em 1984 e que para imensa frustração geral, acabaram não ocorrendo.

Em 1979, ocorre a primeira grande greve geral, no ABC paulista. Até então as greves eram proibidas e violentamente reprimidas. Essa também o foi, mas um líder metalúrgico, Lula, surgia com grande força e carisma e a greve marcou o início do desmonte da repressão como se conhecia desde 1964. A população apoiou, os intelectuais e políticos tiraram as mordaças e se posicionaram. O País começou a mudar.

Durante a década de oitenta, o País passou pelo que se chamou de uma ressaca democrática, com o restabelecimento das eleições diretas em todos os níveis, dos partidos políticos, a participação de todos e os matizes ideológicos começaram também a aparecer e se diferenciar. Acabou aquela solidariedade contra a ditadura. De lá para cá, é cada um no seu quadrado.

Esse processo de algum modo parecido se passa no resto do mundo, enquanto nós saíamos de um período de ditadura de mais de vinte anos, a Europa experimentava o fim real do período da segunda guerra mundial, passando por mudanças de orientação política, onde se viu a alternância ente direita e esquerda em vários governos de países importantes como França, Inglaterra, Alemanha, Itália, Espanha e Portugal.

A África, com um atraso secular imposto pelos países centrais da Europa, começa um processo radical e nem sempre ideal de libertação e de governos próprios. O Japão se transforma no grande líder capitalista da Ásia e a China começa a redesenhar seu projeto de poder e liderança mundial, sem mudar o seu regime político centralizador, ajudando a derrubar ditaduras, como a do Camboja, antes aliadas.

Depois da queda do muro de Berlim, em 1989, até meados dos anos noventa, bem como o fim da toda poderosa União Soviética em 1991, todo esse universo ainda se equilibrava entre esquerda e direita. Entre capitalismo e socialismo. É claro que as condições objetivas, como se dizia nos movimentos de esquerda, continuavam e continuam dadas. As questões antes tidas como dadas eram a miséria das massas e a dominação capitalista, o que tem mudado muito nos últimos vinte anos.

O capitalismo mudou, não porque seja bonzinho, mas sim porque os movimentos sociais cresceram imensamente e êle teve que se curvar aos novos dias por pura sobrevivência. As recentes crises financeiras estão aí para provar a sua fragilidade e necessidade de maiores e mais austeros controles por parte dos Estados e da sociedade. No entanto, hoje as questões centrais, queiram ou não direita e a esquerda, são o meio ambiente e os direitos humanos. De outro lado, as questões mais básicas da ideologia tradicional não sobreviveram. Nem Chaves com seu tardio socialismo moreno, que Brizola e Darcy Ribeiro tentaram pilotar com muito mais talento, conseguiu empolgar o mundo. Nem os rompantes das ameaças direitistas a reboque das crises econômicas, conseguiram contagiar os descontentes, como na Segunda Guerra. O populismo de direita perdeu espaço, ainda bem! Algumas vezes a direita ganha eleições, mas tem que se controlar, como estamos vendo Sarkozy (sempre a França em cartaz).

Eu me lembro dos meus tempos de PT, (foram 21 anos ao todo) em que eu costumava dizer aos meus adversários políticos que a minha crítica em relação ao Lula era pela esquerda e ninguém entendia muito, mas é que esse conceito era sério para a gente. É óbvio que eu não queria que o socialismo fosse implantado de uma hora para outra e ponto. Essa forma de falar "pela esquerda" queria dizer que o compromisso com a ética, contra o fisiologismo, contra a velha política era inegociável, por exemplo.Uma coisa curiosa aconteceu de uns tempos para cá. Gente que votava na direita sempre passou a gostar do Lula e eu passei a não votar mais no Lula. Na última votação para presidente fui de Marina no primeiro turno e de Serra no segundo turno. O mundo dá voltas e como dá!

As novas gerações do mundo ocidental não estão mais preocupadas com as revoluções, ao contrário elas são refratárias a isso. O que não quer dizer que se alienaram completamente com pensam alguns, mas que enxergam o mundo de uma maneira diferente,  bem diferente e não por isso menor ou pior que a nossa. O debate ideológico mudou de foco, para dizer uma palavra que eles usam e gostam muito. O individualismo e não a individualidade, talvez tenha chegado a patamares extremos, é verdade, mas isso já, já, vai se acomodar também, porque o espaço físico não mudou e esse é de todos queiram ou não. Há quem diga que a ideologia acabou. Ou será que ela apenas mudou de nome? Se tem uma coisa que eu aprendi, é que nada é imutável ou para sempre, as idéias e os ideais mudam, ainda bem!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Ficha Limpa no Supremo

Ninguém tem dúvida que em uma sociedade democrática qualquer pessoa só pode ser considerada culpada de algum delito se isto for comprovado e julgado, a Constituição garante esse direito. É bom que se diga que isso não é nenhum exagero, pelo contrário é a garantia do direito de defesa do cidadão. Até aí estamos de pleno acordo com essa prerrogativa, só que os processos e prazos do judiciário precisam ser revistos e aperfeiçoados, não há dúvida também.

Todos os, dias assistimos à postergação indefinida de processos os mais absurdos, onde praticamente se tem a certeza da culpa dos acusados, mas que por conta de intermináveis recursos não chegam ao final ou prescrevem, perdem a validade, por assim dizer.

Por vezes a Justiça se prende aos aspectos estritamente técnicos das matérias, à letra da lei como se costuma dizer, esquecendo do seu sentido prático e ético e contraditoriamente acaba protegendo o ilícito. Contudo, antes de qualquer lei está a evolução da sociedade e o seu julgamento. As leis são feitas para ela e não ao contrário.

Quando a sociedade, cansada de ser enganada e passada para trás, vem exigir a ficha limpa dos candidatos a cargos eletivos, está exercendo um direito igualmente importante. É óbvio que esse atestado de boa conduta não garante o bom comportamento permanente do aspirante ao cargo, por exemplo, de deputado ou senador, mas dá uma sensação de segurança que ainda é necessária para uma sociedade, que continua muito fragilizada diante do número assustador de casos de fraudes e corrupção na sua administração e vida pública.

Portanto, hoje, dia 15 de fevereiro de 2012, é importante, que o Supremo Tribunal entenda esse momento e que tenha sensibilidade ao julgar a matéria que a princípio parece excessiva, mas que vem ao encontro do cidadão. Quer ter cargo público? A ficha corrida tem que estar limpa, sempre!

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Viajar sim, comprar não!

Viajar para mim foi sempre sinônimo de conhecimento e liberdade para aprender outras culturas. Assim, a primeira coisa que vem à cabeça é que lugar é este, o que tem para oferecer que eu não vi ainda? Muitas vezes é a comida local que é especial e que você nunca comeu. Vale experimentar tudo e do jeito que as pessoas estão acostumadas a fazer. Não adianta nada a gente ir para Indonésia e frequentar restaurantes de comida francesa, é perda de tempo. Eu me lembro que lá pelos idos de 1992, mais ou menos, fui à Porto de Galinhas perto uma hora e meia de Recife, onde há um litoral maravilhoso de longas praias de águas claras quase sempre a uma temperatura ideal, nem frio, nem quente. Fiquei num resort desses que não me lembro o nome, mas no final dessa longa praia havia, não sei ainda existe, o restaurante da Dete, onde a fritada da Dete era a indicação imperdível.Pois olha, realmente era, simplicidade e perfeição, nada além disso. Uma comida absolutamente generosa e inesquecível. A fritada era feita com o peixe dali mesmo da orla e do dia mesmo que a gente comia. Os acompanhamentos todos feitos na hora também, com farofa e saladinhas maravilhosas, além de um arroz branco e macaxeira esplêndidos.Isso tudo diante de uma vista deslumbrante, de um mar azul e limpo. Bom, na época que eu estive lá, a própria Dete ia de mesa em mesa conferir o seu contentamento e atendimento com uma delicadeza e satisfação a cada elogio, que devia ser a sua melhor recompensa. Passando de comida à bebida, nada como você, em Havana, tomar um Mojito na Bodeguita, ou um Daiquiri no Floridita de Hemmingway, ao som de uma original rumba, ou da canção Hasta Siempre, em homenagem ao Comandante Tchê Guevara, cantada em qualquer lugar em que você esteja e que é sempre emocionante, sin perder la ternura, jamas! Ir à Nova Iorque e não visitar o MOMA, não dá! É sempre fantástico poder ver obras de arte que a gente até desconfia que não vai gostar, mas que na hora dá aquele frisson. Contemplar Van Gogh, Dali, Frida Kahlo, Picasso, Warhol, Mondrian, Rousseau etc... são momentos únicos, profundamente mágicos mesmo. E os shows do Radio City Music Hall, imperdíveis. Fui ainda ao CBGB, na Bleecker Street, clube underground, onde tocaram ícones do rock e do punk mundiais, como Ramones, Patti Smith, Talking Heads etc... .O que dirá de se ir à Londres e não passar pela Abbey Road, em frente à Apple dos Beatles? Até mesmo ver a rainha Elizabeth, por acaso, como foi o meu, na hora da troca de guarda foi interessante. Indo para Oxford, na Inglaterra, foi marcante ver o teatro de madeira, onde Lewis Caroll, escritor de Alice no País das Maravilhas, deu aulas de teatro, isso não tem preço. Em Paris, o museu do Louvre todo vale pela Monalisa! Exageros à parte, ver a pintura do Da Vinci, do século catorze, ali, a poucos metros de você é uma experiência fantástica, emocionante. Conheci poucos lugares no Brasil e no exterior, até então, mas tudo foi devidamente esquadrinhado, vivido intensamente. Viagem para mim é isso, comida e bebida, arte, diversão e lugares! Compras, encomendas e outras tarefas desagradáveis são mais que dispensáveis, ainda mais depois da globalização que você encontra o mesmo celular 4g ou sandália havaiana, na Tailândia, na Bósnia ou no Congo.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Caetano Veloso sobre Lurdinha

Há muita gente que antipatiza com Caetano Veloso. Suas posturas pessoais avançadas, suas opiniões políticas polêmicas, seus pitis públicos e até sua arrogância leonina assumida, talvez expliquem essa antipatia. Eu, ao contrário, sempre gostei dele e sempre tentei tirar das suas declarações polêmicas, algo que estivesse nas entrelinhas, como a ânsia de ver mudar as coisas, progredir, fazer bem, tão evidente no seu trabalho musical. Enfim, me identifico cada vez mais com êle.

Quando ouvi o disco Caetano Veloso 1969, álbum branco, lembro-me do grito de Gil, saudando Marighella, ao fundo de Alfômega. A menção a Marighella, uma das personalidades mais perseguidas pelos militares, era para mim e para meus amigos de engajamento na esquerda, quase a revolução em pessoa.

Já a esquerda, por seu lado, menosprezava os baianos, quase os hostilizava, mas eu sabia que êles, para mim, garoto de vinte e poucos anos, traduziam com paixão a revolução dentro da revolução.

Gil e Caetano principalmente, por terem uma postura avant garde, com a aproximação e entendimento com o Rock, que vivia seu auge, junto com o declarado amor incondicional por João Gilberto e ainda com o resgate de canções brasileiras antigas com nova roupagem, conquistavam definitivamente a juventude para o lado deles. Uma juventude libertária se formaria a partir de então.

Durante muitos anos, Caetano meio que omitia a sua convivência e simpatia pela esquerda dos tempos estudantis da Universidade Federal da Bahia, onde cursava filosofia. Por vezes, com motivação de sobra para tanto, disse que não se interessava por política. Nada como o tempo para amenizar o que a gente achou definitivo um dia.  Enfim, após Verdade Tropical, seu livro de depoimentos reveladores e muito verdadeiros, Caetano começa a liberar suas histórias de um período ainda longe dos holofotes da mídia, nos contando histórias de pura emoção.

O recente depoimento de Caetano sobre Lurdinha, publicado na sua coluna dominical de O Globo, é tão bonito, devotado, profundo, que imagino que ela tenha ficado muito feliz. O seu texto, como sempre bem escrito, com detalhes bem escolhidos como só a boa prosa pode produzir, está anexado abaixo para a conferência e apreciação dos leitores.

Não conheço Lurdinha, é claro, mas como tantos outros, tive amigos ligados aos movimentos de resistência à ditadura militar de 1964, que desapareceram, foram torturados ou foram presos. Recentemente, perdi a minha grande paixão da vida toda que participou de um desses movimentos "armados" que eu diria "amados" posto que se tratava de verdadeira doação da sua juventude a um projeto de solidariedade com um futuro pleno de esperança, de igualdades de oportunidades para todos. Logo um turbilhão de imagens e pensamentos tomou conta da minha cabeça e uma saudade boa me aqueceu o coração. Obrigado Caetano.


CAETANO VELOSO - Lurdinha – publicado pelo O Globo - 11/09/11

Paulinha Lavigne, que foi minha mulher e é minha empresária (portanto tem de me conhecer um bocado), riu muito ao me ler aqui contando que quase colaborei com a luta armada. Mesmo Dedé, que era minha mulher no tempo em que essas coisas se deram (e que é minha amiga queridíssima), poderá ter se surpreendido: não me lembro de ter dito a ela sobre o esboço de combinação que fiz com Lurdinha de dar apoio logístico à guerrilha. Ambas devem estranhar que um banana de pijama como eu, que, como disse o brilhante Lobão numa pocket-palestra, toca violão como quem está tomando um cafezinho (embora eu não tome cafezinho), pudesse estar ligado, ainda que remotamente, a atos de violenta bravura.

Lurdinha era minha colega de sala na faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia. A turma era muito pequena. Os professores não despertavam entusiasmo. O interesse em ir à faculdade se centrava nos encontros com Wladimir Carvalho e Fernando Kraichete e nas conversas com Rose Foly no Diretório Acadêmico. Lurdinha, no entanto, com sua genuína vocação para a disciplina, assistia às aulas e executava as tarefas curriculares com pontualidade. Várias vezes ela foi me buscar em casa, fazendo arrancarem-me da cama às pressas, para que eu não perdesse uma prova. Ela era comunista e olhava com benevolência meu jeito boêmio.

Wladimir também era comunista. Todos os meus amigos na faculdade — e fora dela — eram de esquerda. Nenhum iria ao Cine Roma assistir a um show de rock de Raulzito e os Panteras. Íamos ao clube de cinema, ao MAM, ao Teatro dos Novos, aos concertos da Reitoria, ouvíamos João Gilberto e Thelonious Monk. Rock era lixo e anátema. Carlos Nelson Coutinho era nosso contemporâneo na faculdade e já escrevia artigos sérios: era o lado teórico do movimento que crescia no período pós-Jânio e pré-ditadura . Quando surgia uma discussão sobre se Luís Carlos Maciel escrever um livro sobre Kafka e Beckett representava alienação, eu sempre me posicionava do lado dos malucos: embora só tivesse lido “A metamorfose” e os contos “Na colônia penal” e “O faquir” (estes, na revista “Senhor”) — e nada de Beckett — eu tendia a gostar dos artistas insubmissos a programas que deveriam servir a alguma “ditadura do proletariado”. Apesar da minha teimosia em não entrar em grupo nenhum, eu era tratado com simpatia. O Centro Popular de Cultura da UNE local me pediu que escrevesse um samba para um bloco de carnaval engajado. Fiz “Samba em paz” — que veio a ser gravado, anos depois, por Elis.

O que mais impressionava em Lurdinha era sua sobriedade. Ela não exibia retoricamente a força de suas convicções: seu despojamento pessoal, sua lealdade inabalável, sua decisão de não perder tempo com discussões decorativas é que mostravam a firmeza de sua orientação política.

Quando nos jogamos no tropicalismo, Lurdinha tinha se casado com o pintor Humberto Vellame e se mudado para São Paulo. Entre móveis de plástico transparente e manequins de fibra de vidro, tínhamos, Dedé e eu, em nossa sala, um quadro de Vellame. O casal nos visitava de vez em quando. O tropicalismo tinha uma fome estética de violência que se traduzia em imagens fortes nas letras, sons elétricos e distorcidos nas bases, aproximação com a vanguarda radical da música clássica, contraste gritante com a bossa nova. Isso correspondia a uma impaciência com a inatividade dos comunistas sob ordens de Moscou e a uma identificação com a nascente dissidência liderada por Marighella. Faz pouco Juca Ferreira me alertou para o fato de que não toda a esquerda era hostil ao tropicalismo: dentre a turma da Libelu (Liberdade e Luta) havia quem gostasse do nosso estilo. Lurdinha — que nunca fez coro às reações antipáticas ao nosso trabalho por parte da esquerda — sentia a mesma impaciência que eu. Só que ela nunca fora nem boêmia nem retórica: seu sentimento tinha de se expressar em ação. Quando ela me pediu um eventual apoio logístico, acedi de imediato.

Em "Verdade Tropical" digo que se a nossa revolução de esquerda tivesse vencido talvez daí saísse apenas mais um gigante com câimbras. Mas Marighella foi morto numa rua de São Paulo antes que isso se tornasse ao menos provável. E pela mão de Sérgio Fleury, o truculento policial que, em entrevista à revista“Realidade”
nos anos 70, disse da “Baixinha” que estivera sob tortura: “Maria de Lourdes do Rego Mello: Está aí uma das moças mais corajosas que vi na minha vida. De uma lealdade e segurança impressionantes. Nunca se deixou trair nos interrogatórios, nunca arrancamos dela uma palavra que levasse ao ‘Velho’ (Joaquim Câmara Ferreira, o ‘Toledo’). Foi seguida durante 60 dias, filmada, fotografada, até que foi presa. Essa moça recusou ir para o Chile, na troca com um embaixador. Quando soube disso, eu a chamei até minha sala. Disse: ‘Olha aqui, Baixinha, você mentiu para mim o tempo todo. De tudo quanto disse, 99% era mentira. Mas gostei de sua atitude. Aceito as suas mentiras. Agora deixo você em paz.’”

Desde que fui preso e exilado, eu não tinha notícias de Lurdinha. Temia que ela não estivesse viva. Foi o blog “Obra em progresso”, da feitura do Zii e Zie, quem a trouxe de volta. Um dos comentaristas, Julio, tinha o sobrenome Vellame. Perguntei se ele era parente de Humberto. Ele respondeu: “Sou filho de Lurdinha, Caetano.” Assim, a internet de Hermano Vianna me reaproximou da Maria Quitéria da guerrilha urbana.”