sábado, 28 de abril de 2012

Sítio de Mury, o paraíso na Terra!


Ontem, dia 25 de abril de 2012, fui ao sítio em Mury, na direção de Lumiar, na localidade do Alto Cinqüenta. Fui para colocar o sítio à venda numa imobiliária. Na realidade, desde setembro do ano passado que eu tomei essa decisão. O Sítio é muito lindo, tem dois riozinhos que passam, um ao lado da casa e outro que percorre uma área fechada por mata Atlântica.

Pela primeira vez entrei na casa já vazia, sem qualquer móvel. Engraçado, a sensação de que se passou um fase da vida, me deu um pouco de serenidade. Eu tinha um certo receio de voltar lá nesse estado de coisas, sem nada. Foram quase dez anos de uso, dez anos de felicidade. Eu nunca imaginei que um dia compartilharia um lugar assim, tão mágico. O paraíso na Terra, como dizia o Paulo a todos que iam nos visitar. Foram quase todos, famílias, amigos, amigos dos amigos.

Na verdade, a história começou muito antes, logo depois que um grupo nosso de seis pessoas amigas resolveu comprar uma área na Serra da Sibéria, em 1994, ali no meio do caminho para Lumiar, no Rio de Janeiro. Luiz, Lia, Rita e Roberto, seus filhos, Helena e Vitor, Paulo e eu, amigos de longos anos.

Chegar lá já era uma verdadeira aventura, pela estradinha íngreme de terra até uma altitude razoável de uns mil e trezentos metros. A gente podia chegar por dois caminhos: um pelo acesso de Santiago, passando pelo Le Guildin, restaurante dos franceses (Gerald e Jocelyne) que se tornariam grandes amigos nossos; e outro passando por São Pedro da Serra, lá no final, subindo, subindo até quase chegar no céu.

O nosso terreno, em plena reserva de Mata Atlântica, fica logo depois do Sufi, uma corrente filosófica Islâmica vinda da Pérsia(Iran) e Paquistão. Essa corrente, em particular, foi fundada, havia mais de vinte anos, por argentinos e seus discípulos iam todos os segundos sábados do mês, se não me engano, para meditar e rezar, voltando no mesmo dia para casa. Nesses sábados, a estradinha ficava cheia de carros quatro por quatro e outros de passeio, mas que conseguiam chegar lá. Nunca entrei nas dependências do Sufi, mas diziam que havia um grande templo com partes subterrâneas e tudo. Diziam também, que além disso, havia a parte ligada ao esoterismo e vida extra-terrena. Tudo envolto em muito mistério que eles fazem questão de manter.

Fizemos em cooperativa, uma pequena casinha, muito charmosa, com outro grande amigo nosso, arquiteto, Paulo Guilherme. Parece a casa de João e Maria da famosa história para crianças. Lá não tinha luz, o que achávamos ótimo! As luzes eram de lampião à gás de butijão. A música e as notícias, nós resolvíamos com um antigo rádio Philco Transglobe que pegava a CBN e a MPB FM, assim estava ótimo! Celular, nem pensar, não pegava mesmo, ainda bem! O banho obviamente frio, era tomado no chuveiro externo ao sol, quando tinha. Os mais corajosos tomavam banho no banheiro interno mesmo, aos pulos e aos gritos. Cansamos de ir à Sibéria sob chuva forte, nunca tivemos medo, porque lá a preservação ainda é respeitada, então o que cai é natural e não há aglomerações em áreas de risco.

Ao final de seis anos, como tudo muda, nossas histórias de vida foram se transformando também. Lia tinha ido morar numa casa no sítio dos franceses a essa altura, nossos amigos. Luiz de casamento novo, praticamente não freqüentava mais a Sibéria. Rita e Roberto, por conta de seus trabalhos, diminuiram bastante as suas idas. Helena e Vitor cresceram, viraram belos jovens e foram viver as suas vidas. Eu e Paulo continuávamos a ir junto com Lia que morava agora bem perto. Assim foi, até que um dia Lia, que caminhava frequentemente com Gerard(Gerald) e Jocelyne pelas redondezas, avistaram um sítio à venda no Alto Cinqüenta, uma espécie de bairro em Mury.

A casa vista da estrada parecia ser muito bonita, bem cuidada e grande. Brincaram comigo que tinham achado meu sítio, porque pelo lugar e pela construção parecia ser muito caro. Conversei com Paulo e decidimos ir ver, pois era nossa intenção comprar alguma coisa na região para morar na idade mais avançada. A Sibéria, conforme o combinado entre nós, ficaria com os remanescentes. Falamos com Lia também, mas ela já tinha decidido voltar para o Rio e não teve interesse na nova empreitada.

Fomos ver o sítio sem muita esperança de poder comprá-lo já que parecia ser caro. No entanto, a casa avistada da estrada não era a que estava à venda, era uma outra mais abaixo, vizinha àquela. Para nossa surpresa, o sítio ao lado além de ser bem maior, tinha uma casa do mesmo estilo da outra e o preço, outra surpresa, era bastante acessível! Bingo!

Um chalé austríaco muito bonito, projetado por uma arquiteto húngaro que ainda vivia na região aos noventa e dois anos. Vimos o sítio numa manhã ensolarada do verão de 2000, no início de dezembro e nos apaixonamos instantaneamente. Um deslumbre, com os riachos, a mata atlântica, os espaços generosos e bem cuidados. Foi tudo muito rápido e em 20 de dezembro mesmo, fechamos o negócio.

Os anos seguintes foram de muita felicidade, com as freqüentes visitas de nossos amigos mais queridos, familiares, sempre em inesquecíveis finais de semana ou períodos de férias.

A casa foi totalmente reformada, novamente com Paulo Guilherme, em 2002 e ficou mais linda ainda do que era. O projeto que tinha sido construído junto com esse sítio foi interrompido quase dez depois, por circunstâncias que talvez um dia eu consiga contar. Os amigos mais próximos e alguns familiares sabem a que estou me referindo.

As histórias de perdas são muito tristes e o sítio de Mury foi só alegria em todos os sentidos, um sonho que ao mesmo tempo era realidade, afinal era o paraíso na Terra.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

À propósito de Carlinhos Cachoeira


A propósito do Senador Carlinhos Cachoeira (a confusão não é desprovida de sentido), de Demóstenes Torres e sua turma, o tema corrupção, sempre presente em nossa sociedade, me vem à cabeça como uma bomba de retardo. A pior bomba já construída, sem precisar de nenhuma tecnologia porque é feita de pura irresponsabilidade misturada à maldade mais básica. 

A corrupção é um mal endêmico, inoculado na sociedade. Desde o tempo do descobrimento, dirão alguns, jogando toda a culpa nos portugueses, sempre com uma ponta de maldade, porque os acham inferiores aos outros europeus. Não são. Que o digam, os ingleses, os espanhóis e holandeses, de triste passado nas suas ocupações e andanças colonizadoras na nossa América Latina, África e Ásia.  

É difícil de combater a corrupção, porque é quase um mal da alma, quando instalada. Eu me lembro daquela senhora, falando da ética do mercado, nas gravações de vídeo de uma simulação de licitação mostrada no Fantástico, no mês de março deste ano, justificando sua conduta ética de fraudar licitações.  

Ela diz aquilo com uma convicção de que é assim mesmo e pronto, sem um pingo de remorso nem de escrúpulos. Já um diretor de outra empresa, nessa mesma gravação, disse que não trabalhava com qualquer vigarista, que inclusive, ensinava aos filhos o princípio da solidariedade: eu protejo você, que me protege e assim por diante, se referindo aos seus “concorrentes” na licitação. 

Falta de compromisso, desapego à coisa pública, pouca responsabilidade com a nossa própria vida!

Essa gente não enxerga, ou pior não se importa com isso, que o centavo que é roubado aqui, lá na frente vai deixar milhares sem emprego, sem perspectiva, sem saúde, sem infra-estrutura básica, ou seja, sem futuro. Ou será que alguém pensa que corrupção é uma forma de distribuição de renda?

Há quem vá dizer, mas isso é generalização maldosa, afinal tem muita gente que não é corrupta. É verdade, mas esses não causam mal e exatamente por isso estão fora de esquadro, porque a regra não é essa.

Se não vejamos: há os que marretam o imposto de renda e não se julgam corruptos. Dizem: “o Governo não me retorna quase nada, aliás eu nem preciso do INSS porque pago meu plano de saúde...” e vai por aí a sua justificativa marretosa.

Outros compram muito nos camelôs e dizem: “ é um trabalhador como qualquer outro e os preços nas lojas são abusivos e além do mais eu já sou descontado no imposto de renda...”.

Tem os que pagam as carteiras de motorista nas auto-escolas um sete um; os que dão uma cervejinha para o guarda mau caráter da rua ou da estrada para não serem multados; os que fazem um gato ou gatilho de energia, de TV, de telefone; os que dão um agrado para funcionários públicos que passam seus processos na frente; as empresas, em especial do comércio, que não dão nota fiscal; os médicos e dentistas, em especial também, que não dão recibos de consultas; os que dão uma grana para os esquemas dos aeroportos e portos, trazendo toda sorte de artigos estrangeiros taxados pela Receita e assim por diante.

São muitas as armações. Todas justificadas porque, ora os preços são absurdos, ora lá fora é muito mais barato ou os impostos já são muito altos. A Receita? Ah a Receita não serve para nada mesmo, só para encher os bolsos do Governo que rouba e não faz. Quer dizer: parece que todos estão em outro planeta e que o País em que vivem, não é também o seu lugar, que deveria ter melhores condições de vida, hospitais decentes, habitação e saúde e conseqüentemente preços melhores com maiores investimentos.

Tudo isso é passado para a responsabilidade dos Governos, como se não fosse de nossa responsabilidade a sua eleição.

Pois é, porque isso tudo está interligado. Não há separação entre o Governo, os preços, os serviços, as empresas e os votos. Se você não paga os impostos, o Governo arrecada menos, os serviços ficam mais caros, os preços idem e os investimentos somem. Os votos? Bem há quem vote por um emprego, por um parentesco, por uma garantia nas próximas licitações, por qualquer coisa que seja vantajosa para si.

A corrupção, essa sim, se aproveita de toda essa confusão e graça solene. É assim mesmo, todo mundo rouba! A máxima é dita com uma ponta de orgulho!

 que, cada marretada, cada cervejinha, cada voto errado ou mal intencionado, custa muito caro lá na frente. Quem vai viver num País pior são os seus filhos, netos e assim por diante. Porque dinheiro, mesmo roubado, um dia acaba e aí? Aí sobra o País sem nada para oferecer.
 
Não há outra saída que não a mobilização e pressão junto aos Congressistas por mudança dos processos e mais fiscalização.
























quarta-feira, 18 de abril de 2012

Vamos marcar um almoço?

Mais um dia comum, nem chove nem faz sol, é comum. Acordo com o dia quase claro, vou ao canil e solto os cachorros, dou a comida. Eles como sempre estão se embolando no chão, acho que isso é porque estão felizes. O macho é mais forte, mais alto, mas a fêmea aplica-lhe uns golpes nas patas dianteiras que eu costumo chamar de MMA e êle, coitado, desaba no chão de barriga para cima. Ela cai em cima de mordidas nas orelhas e nas peles do pescoço que é a parte que ela mais gosta de morder. Êle parece não se importar se levanta e dá o troco e ficam assim até irem comer. E eu esperando, se não, eles não comem direito. Eu tenho que ficar ali até o fim.

Depois café, depois obra. É, estou no final (há três meses) de uma obra que no total já dura dez meses. Mas está ficando bom, eu gostei de tudo até agora. Dia que corre, chega alguém das poltronas, outro do jardim e material, mais material. Eu me lembro de Águas de Março, é pau, é pedra, é o fim do caminho...... .

Jà é noite e lá pelas nove entro no Facebook, porque ninguém é de ferro e eu confiro as fofuras e as maldades do FB. Pulo todas as fofuras, fico nas maldades, sempre mais divertidas. De repente alguém me chama e acho que estou tendo alucinações, mas como, se não tomei nenhuma tarja preta ainda?

Não, era um amigo meu de muitos anos que me chama: “Eduardo, você está aí?”. Estou, respondi. A conversa que era para durar dois minutos, durou quase três horas de muitas gargalhadas e histórias rememoradas com direito a imagem no Skype e tudo. Nunca vi o Mário de mau humor, êle continua assim, é vacinado contra isso. Foram repassadas algumas mortes, alguns desencontros, alguns encontros, doenças, curas, cachorros, filhos, trabalho, tudo.

No final, o óbvio, vamos nos encontrar? Claro, amanhã? Amanhã não posso, estou enrolado. Eu também não posso, mas e na próxima semana? Tranqüilo, vamos chamar todo mundo? Todo mundo não dá, mas alguns, pode ser. Então tá marcado, quem avisa aos outros? Os dois. Tá bom.

Olha aqui, o Othon está on line vamos falar com êle? Vamos, manda um recado malcriado, hahahahha! Já mandei. Êle mandou a gente se f...., hahaha. Mas e aí, êle vai? É, confirmou. Tá bom!

No dia seguinte, já estão todos confirmados, não é muita gente, só oito pessoas. Alguns sempre que me viam diziam: “ pôxa, você só almoça com o mesmo pessoal, me convida que eu vou!”. O amigo das três horas de FB era o que nós não víamos há mais tempo, uns dez anos talvez. A gente até se fala, mas é de vez em quando. E quando se fala é como se tivesse se encontrado ontem. Vai ver que é assim mesmo com quem a gente gosta.

Chegou a semana em questão, mais uma vez entrei em contato com o Mário, para ser mais exato, na véspera do encontro. Êle me disse que sim, estava certíssimo. Eu perguntei, onde você sugere? Êle me respondeu, "no restaurant", assim mesmo, em francês(é uma babaquice antiga sem maiores explicações)! Sem tomar conhecimento da “piada?!” repassei a confirmação para os demais que me perguntavam, mas onde vai ser? Acabamos por combinar na Majórica.

Desci a serra de Petrópolis de ônibus. Engarrafamento na baixada, Linha Vermelha, engarrafamento, descida de São Cristóvão e finalmente Rodoviária. Táxi, que eu pego na chegada da Rodoviária, porque no desembarque tem sempre uma máfia e dá muito trabalho para se desvencilhar dela. Enfim, túnel, Laranjeiras e o Flamengo. Valeu o esforço, não durou mais que duas horas.

Cheguei e já estavam lá, Betina, Othon e Janon, tinham reservado uma mesa grande que seguravam sob os olhares furibundos do garçon. Cláudio não vem, desceu conosco e tomou outro rumo, disseram. Jacques ninguém sabe, nem eu que o convidei, pensei. Em seguida chegaram Paulinho e Sonia, aquele pessoal que eu sempre almoço. Aí aguardamos nosso esperado Mário.

Deu meia hora e alguém disse, liga para êle. Eu havia ligado, mas não chamou. Enfim, lá pelas quinze para as duas eis que liga o Mário e diz: Ôi, é o Eduardo ou o Oitão (apelido do Othon, meio óbvio, mas válido para nós há trinta anos)? Sou eu Mário, o pessoal está aqui te esperando e aí? Eu estou indo ao cartório e vai ficar tarde pra caramba! Como assim cartório? E o almoço com o pessoal? É que não deu para adiar e eu tenho que ir. Mas você não avisou... ah deixa pra lá! O detalhe mortal é que êle mora em Niterói, naquele dia não tinha ido trabalhar por causa de uma greve de ônibus e se fosse chegaria para o jantar. É verdade, fica para outra vez! Todos se entreolharam, riram e lamentaram, falando mal é claro! Afinal, o almoço tinha sido iniciativa dele!

Liberamos parte da mesa para o garçon que quase vertia lágrimas de ansiedade. Depois desse episódio caímos dentro do almoço propriamente. Pusemos a conversa em dia, foi ótimo! O Mário(é, aquele que te comeu no armário, diria êle às gargalhadas)? Um dia a gente marca de novo e êle não aparece "no restaurant".

domingo, 8 de abril de 2012

Em dia de malhação de Judas

Nesses tempos de páscoa, não tem como se abstrair e não pensar  o mundo na época de Jesus, sua geopolítica, o poder romano total do ocidente sobre a religiosa região da Palestina.

No entanto, uma das histórias, dentro dessa história que sempre me chamou muito a atenção foi a de Judas Iscariotes. Na realidade, ela possui algumas versões, onde a mais interessante é que o próprio Jesus teria sugerido a êle a sua denúncia aos romanos e que Judas teria  sido o discípulo mais fiel a Jesus.

Foi encontrado um suposto “Evangelho de Judas”, escrito em grego, entre os anos de 150 e 180 DC que o National Geographic  adquiriu por um milhão de dólares do Antiquário Tchacos da Suíça em 2000. O evangelho é apócrifo e não consta da Bíblia, nem é reconhecido pela Igreja, mas fala sobre o encontro da revelação entre Jesus e Judas pouco antes de sua morte.

Ocorre que a história de Judas mais conhecida é da traição pura e simples, por dinheiro e por inveja, talvez. Pode-se ainda descrevê-la como uma das muitas traições que acontecem em política e poder ao longo da história da humanidade. Se bem que essa foi uma das traições que ficaram eternizadas no imaginário da população, como uma das mais graves e terríveis.

Na minha opinião penso que qualquer traição é grave e terrível, mas em se tratando de Jesus, vamos a essa.

Jesus reapareceu, pregando a palavra de Deus, segundo êle, em Jerusalém, depois de mais de vinte anos sumido, desde o seu nascimento e perseguido por Herodes, imperador judeu/árabe que tinha mandado matar todos os meninos com dois anos de idade na época, por conta de um boato sobre o nascimento de um messias.

Depois que Herodes morreu, José, pai de Jesus e toda a família, se mudaram para Nazaré, onde se estabeleceram e logo depois que José morreu, Jesus, já com doze anos começou as suas pregações e feitos, segundo os evangelhos.

Ao longo de sua trajetória Jesus foi constituindo um ministério de doze apóstolos, entre os quais, Judas, um dos seus amigos mais próximos.

As coisas com o Governo Romano, na época de Tibério César, andavam mal para o lado de Jesus, que com suas pregações tornara-se uma ameaça ao império com suas reivindicações igualitárias e pacifistas, além  de falar em nome de Deus e de se dizer filho direto dele, é claro.

Segundo ainda, relatos dos evangelhos, a retórica e a comunicação de Jesus, arrastavam multidões, o que preocupava cada vez mais o Governo. Como é natural ser, os levantes e conspirações eram clandestinos e Jesus e seus discípulos também o eram e porquanto perseguidos pelo Governo Romano.

A certa altura dos acontecimentos e isso está meio que relatado rapidamente nos evangelhos, Judas resolve de uma hora para outra indicar aos governantes o esconderijo de Jesus em troca de dinheiro que dava para comprar um escravo apenas, 30 moedas de prata. Pouco para quem está até o pescoço em uma conspiração tão importante.

Jesus é preso e julgado como agitador e falso profeta. Sua sentença, como ditava a justiça romana era a crucificação e o ultraje público para efeito de demonstração ao povo. Pôncio Pilatos, governante local, sanciona a sentença no célebre ato de lavar as mãos porque não o julga tão perigoso assim e Jesus é crucificado.

Isso tudo é história, sagrada para alguns milhões. O fato é que até hoje se cultua um ódio transferido a Judas que parece que incorpora todos os pecados do mundo no ato da sua malhação.

É um ritual tenebroso, muito comum aqui no Brasil, a malhação do Judas. Acho que tem esse nome para encobrir o verdadeiro nome que é o linchamento a pauladas e pedradas. Aliás como se faz hoje ainda em alguns países mulçumanos, em caso de adultérios por exemplo, mas isso é outra história.

Ah, mas aí temos um culpado, dizem todos! Será? O pior é que esse ritual é praticado por crianças de todas a idades que aprendem a odiar, nem que seja ali naqueles segundos de destruição alucinada e ofegante dos bonecos ou dos representantes que encarnam Judas.

Eu mesmo me vi envolvido nisso aos nove anos de idade e esse ato me causou repulsa e eu nunca mais o pratiquei, mesmo quando era convocado pelos meus melhores amiguinhos a assassinar Judas.

Acho que isso não é tudo, lógico, mas explica um pouco essas brigas de torcidas organizadas, as milícias fascistas, a lei do tráfico de drogas e armas, os regimes totalitários, os massacres étnicos e tantas outras barbaridades.

Se existe um culpado, vamos lá exterminá-lo com as nossas próprias mãos. É olho por olho, dente por dente!

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Obrigado e "desculpa qualquer coisa", tá?

Antigamente, para comemorar alguma coisa, eu juntava as pessoas nos bares da vida. Muito mais tranquilo, afinal, o pessoal chega vai sentando, todo mundo que se conhece já senta perto e as coisas meio que funcionam, com você no papel de peão que vai rodando a mesa e acaba falando com todo mundo.

A saída também é tranquila, porque cada um vai levantando e carrega a sua comanda (isso já é mais moderninho), mas eu sempre preferi pagar a conta toda. Claro, evita confusão, por causa da diferença dos pratos, dos whiskies do fulano ou das caipirinhas da fulana, então pago e pronto, não me aporrinho.

De um tempo para cá resolvi mudar o esquema e chamar todo mundo para um jantar em casa. Amigos do trabalho, amigos da vida toda, amigos da música e a família, é claro!

Tudo ia bem, comida, bebida, música e a conversa. Falamos de tudo e de todos, sempre com muita maldade, imitando os trejeitos e sotaques das pessoas não presentes é lógico, mas com muitas risadas também, ou seja, o que qualquer grupo de amigos e principalmente familiares fazem.

O churrasco, é tinha churrasco, fazer o quê? Apesar do calor infernal que reinava e da fumaça que transformava todos os seres humanos presentes em picanhas mal passadas. Se não tem churrasco você parece um ET que não sabe receber.

Como eu dizia, o churrasco saia bem, todo mundo elogiando. A casa, recém-saída de uma obra, estava ótima, bom astral. Tinha ficado exatamente como eu queria, aconchegante num espaço generoso.

De repente, alguém começou a falar em política, aí o tempo esquentou. Tem sempre gente contra e gente a favor, mas havia ainda havia nível para conversa. Não chegamos nem ao puta que o pariu!

É óbvio que outra parte expressiva dos convivas falava, ou melhor berrava algo sobre times de futebol, todos presentes, Fluminense, Flamengo, Vasco e Botafogo. O campeonato que estava na fase final embalava os gritos de guerra que começaram a ser ensaiados nas torcidas já doidas por uma encrenca. Por uma sorte imensa não havia jogo decisivo naquele dia, quase um milagre!

Mas, Deus é Pai e logo veio em socorro dos mais aflitos, a música ao vivo, é isso mesmo, o velho violão e toca de “Espanhola” pra cá, “Andança” pra lá e “Tempo Perdido”. Engraçado que “Tempo Perdido”, do Renato Russo, tem o dom de igualar as idades, eu percebo isso. Não sinto isso nem no Raul Seixas. Alguns engraçadinhos pediam, “Minha avó tá maluca” e “Ái se eu te pego”, figindo ser piada, mas doidos para cantarem essas coisas. Graças a não sei o quê, ninguém deu ouvidos a isso, nos dois sentidos.

Nem a pregação de um pastor e as imprecações dos fiéis, numa igreja nem tão próxima, mas audível como um baile funk, conseguiu atrapalhar a agitação reinante, ainda bem! Temos que agradecer porque quase nunca passam da dez horas da noite.

Ao longo da feixxsta, como diz minha sobrinha predileta, houve de tudo um pouco, ou de um tudo, como dizem alguns. Tinha um grupo de três (atenção não estavam em três, isso é fundamental, mas seguindo em frente), um rapaz arquiteto, uma moça bailarina e um funcionário público, para os quais nada tinha importância, pois continuavam discutindo Bauhaus, Art Deco, Deleuze, Semiótica e o escambau!

E claro, percebia-se alguma traição conjugal no ar entre certos pares, improváveis!

Atingido o grau alcoólico maior, tinha gente bêbada declarando amor e amizade eternos e recíprocos, para no momento seguinte, desabarem em choro compulsivo, gente se esgoelando para cantar o mais alto possível, crianças (sempre elas) que só vão dormir, quando o último pai ou mãe exausto, está caído no sofá.

Os cachorros, estes, ficaram no canil, não porque sejam bravos, mas porque são amorosos demais e grandes, então para que todos não ficassem rasgados e imundos, eles têm que olhar a festa dali mesmo, não tem jeito.

Engraçado, juntar todas essas tribos num mesmo espaço é interessante e perigoso também, vai de intrigas homéricas entre outrora amigos inseparáveis, fofocas de emprego a ódios familiares inexplicáveis.

Isso tudo não teria nenhum problema, se não fosse, já lá pelas três da madrugada, quando todos começam a debandar ao mesmo tempo, você com vontade de morrer ali mesmo em pé e com a casa transfigurada, ouvir a seguinte pérola: olha estava tudo muito bom, muito obrigado e “desculpa qualquer coisa” tá? Fica com Deus! Dá vontade de fazer um haraquiri e sumir!

Tá bom, por mais um aniversário, desculpa qualquer coisa. Deus, você vai ficar mesmo? Então vem me ajudar, tchau!