Ontem,
dia 25 de abril de 2012, fui ao sítio em Mury, na direção de Lumiar, na
localidade do Alto Cinqüenta. Fui para colocar o sítio à venda numa imobiliária.
Na realidade, desde setembro do ano passado que eu tomei essa decisão. O Sítio
é muito lindo, tem dois riozinhos que passam, um ao lado da casa e outro que
percorre uma área fechada por mata Atlântica.
Pela
primeira vez entrei na casa já vazia, sem qualquer móvel. Engraçado, a sensação
de que se passou um fase da vida, me deu um pouco de serenidade. Eu tinha um
certo receio de voltar lá nesse estado de coisas, sem nada. Foram quase dez
anos de uso, dez anos de felicidade. Eu nunca imaginei que um dia compartilharia um
lugar assim, tão mágico. O paraíso na Terra, como dizia o Paulo a todos que
iam nos visitar. Foram quase todos, famílias, amigos, amigos dos amigos.
Na
verdade, a história começou muito antes, logo depois que um grupo nosso de seis
pessoas amigas resolveu comprar uma área na Serra da Sibéria, em 1994, ali no
meio do caminho para Lumiar, no Rio de Janeiro. Luiz, Lia, Rita e Roberto, seus
filhos, Helena e Vitor, Paulo e eu, amigos de longos anos.
Chegar lá já era uma
verdadeira aventura, pela estradinha íngreme de terra até uma altitude razoável
de uns mil e trezentos metros. A gente podia chegar por dois caminhos: um
pelo acesso de Santiago, passando pelo Le Guildin, restaurante dos franceses (Gerald e Jocelyne)
que se tornariam grandes amigos nossos; e outro passando por São Pedro da
Serra, lá no final, subindo, subindo até quase chegar no céu.
O
nosso terreno, em plena reserva de Mata Atlântica, fica logo depois do Sufi,
uma corrente filosófica Islâmica vinda da Pérsia(Iran) e Paquistão. Essa
corrente, em particular, foi fundada, havia mais de vinte anos, por argentinos
e seus discípulos iam todos os segundos sábados do mês, se não me engano, para
meditar e rezar, voltando no mesmo dia para casa. Nesses sábados, a estradinha
ficava cheia de carros quatro por quatro e outros de passeio, mas que conseguiam chegar
lá. Nunca entrei nas dependências do Sufi, mas diziam que havia um grande
templo com partes subterrâneas e tudo. Diziam também, que além disso, havia a
parte ligada ao esoterismo e vida extra-terrena. Tudo envolto em muito mistério
que eles fazem questão de manter.
Fizemos
em cooperativa, uma pequena casinha, muito charmosa, com outro grande amigo nosso,
arquiteto, Paulo Guilherme. Parece a casa de João e Maria da famosa história para
crianças. Lá não tinha luz, o que achávamos ótimo! As luzes eram de lampião à
gás de butijão. A música e as notícias, nós resolvíamos com um antigo rádio
Philco Transglobe que pegava a CBN e a MPB FM, assim estava ótimo! Celular, nem
pensar, não pegava mesmo, ainda bem! O banho obviamente frio, era tomado no
chuveiro externo ao sol, quando tinha. Os mais corajosos tomavam banho no
banheiro interno mesmo, aos pulos e aos gritos. Cansamos de ir à Sibéria sob
chuva forte, nunca tivemos medo, porque lá a preservação ainda é respeitada, então o
que cai é natural e não há aglomerações em áreas de risco.
Ao
final de seis anos, como tudo muda, nossas histórias de vida foram se
transformando também. Lia tinha ido morar numa casa no sítio dos franceses a
essa altura, nossos amigos. Luiz de casamento novo, praticamente não
freqüentava mais a Sibéria. Rita e Roberto, por conta de seus trabalhos,
diminuiram bastante as suas idas. Helena e Vitor cresceram, viraram belos
jovens e foram viver as suas vidas. Eu e Paulo continuávamos a ir junto com Lia
que morava agora bem perto. Assim foi, até que um dia Lia, que caminhava
frequentemente com Gerard(Gerald) e Jocelyne pelas redondezas, avistaram um sítio à
venda no Alto Cinqüenta, uma espécie de bairro em Mury.
A
casa vista da estrada parecia ser muito bonita, bem cuidada e grande. Brincaram
comigo que tinham achado meu sítio, porque pelo lugar e pela construção parecia ser muito
caro. Conversei com Paulo e decidimos ir ver, pois era nossa intenção comprar
alguma coisa na região para morar na idade mais avançada. A Sibéria, conforme o combinado entre nós,
ficaria com os remanescentes. Falamos com Lia também, mas ela já tinha decidido
voltar para o Rio e não teve interesse na nova empreitada.
Fomos
ver o sítio sem muita esperança de poder comprá-lo já que parecia ser caro. No
entanto, a casa avistada da estrada não era a que estava à venda, era uma outra
mais abaixo, vizinha àquela. Para nossa surpresa, o sítio ao lado além de ser
bem maior, tinha uma casa do mesmo estilo da outra e o preço, outra surpresa, era bastante acessível! Bingo!
Um chalé austríaco muito
bonito, projetado por uma arquiteto húngaro que ainda vivia na região aos
noventa e dois anos. Vimos o sítio numa manhã ensolarada do verão de 2000, no
início de dezembro e nos apaixonamos instantaneamente. Um deslumbre, com os
riachos, a mata atlântica, os espaços generosos e bem cuidados. Foi tudo muito
rápido e em 20 de dezembro mesmo, fechamos o negócio.
Os
anos seguintes foram de muita felicidade, com as freqüentes visitas de nossos
amigos mais queridos, familiares, sempre em inesquecíveis finais de semana ou
períodos de férias.
A casa foi totalmente reformada, novamente com Paulo Guilherme, em 2002 e ficou mais linda
ainda do que era. O projeto que tinha sido construído junto com esse sítio foi
interrompido quase dez depois, por circunstâncias que talvez um dia eu consiga
contar. Os amigos mais próximos e alguns familiares sabem a que estou me
referindo.
As histórias de perdas são muito tristes e o sítio de Mury foi só
alegria em todos os sentidos, um sonho que ao mesmo tempo era realidade, afinal
era o paraíso na Terra.