quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Anitta e a Homofobia Explícita


Começo pela Anitta, uma moça do subúrbio carioca que recentemente estourou nas paradas de sucesso com uma música simples, mas de apelo popular bastante grande e de uma coreografia contagiante, principalmente para as crianças e adolescentes que adoram imitá-la.

Anitta não é loura, nem fez Tablado e não é tão bonita como a Kelly Key, outra cantora de sucessos instantâneos da faixa teen, mas caiu no gosto popular.

Eu, morador da zona sul carioca, criado à base de Tom e Vinicius e Rock inglês, onde se cunhou o termo “brega”, tirado de empregada doméstica, confesso que sofri arrepios preconceituosos quando vi a moça na internet com milhões de acessos e vendendo milhões de cds.

Falando em preconceito, o termo “paraíba” para tudo o que é de mau gosto, é usado por nós cariocas com frequência, como o fazem os paulistas com “baiano” para o mesmo fim, mas vamos ficar por aqui porque caso contrário não sobrará espaço suficiente para o que interessa no momento.

Voltando à Anitta, verifiquei para meu espanto, que sua coreografia não é sexosa como tantas outras do gênero. A batida que se optou por chamar de “funk” é pulsante, vigorosa e faz qualquer um se mexer. Sabemos o que a mídia mainstream faz com tudo o que pode virar “produto” instantâneo e logo nos lembramos de vários casos que depois de algumas décadas viraram cults e aceitos no Baixo-Leblon ou na Lapa para ser mais atual.

Até aqui se repete o preconceito e a luta de classes que jamais teve fim no Rio entre a Zona Sul e o Subúrbio (tudo o que fica depois do túnel Rebouças) ou entre favela e asfalto.

Contudo, dessa vez apareceu um novo componente de preconceito muito em moda que é da homofobia explícita gerada por um vídeo caseiro da internet, onde um menino de seus cinco ou seis anos dança a música de Anitta durante uma festa.

Logo o video se espalhou pela internet com os mais terríveis insultos ao garoto e a sua família por deixarem o menino fazer espetáculo tão degradante, segundo os comentários mais suaves.

O que me chamou a atenção de início é que os comentários mais agressivos vieram das mães jovens, na faixa dos trinta anos, que se sentiram ofendidas pelo video, dizendo que o menino sairia dali esvoaçando como uma libélula deslumbrada e que obviamente se tornaria gay e seria massacrado pelos amigos na escola. Insultos como “veadinho”, “bichinha escandalosa”, “boiolinha”(aqui se nota uma ponta de ternura de mãe) foram frequentes nos comentários mais tensos. Algumas sugeriram que uma boa surra no menino colocaria as coisas no lugar. Um horror!

Outros mais “politizados” sugeriam que essa calamidade de maus costumes era originado pela mídia, em especial a Rede Globo que sempre é culpada por tudo de mal que aparece na sociedade. Mas nesse caso, o temor de que seus filhos homens (vale o pleonasmo), tornarem-se gays, por influência da música e coreografia satânicas da Anitta foi muito mais emblemático.

A homofobia delas superou em muito a dos homens que obviamente também desceram o pau(com duplo sentido, por favor) no garoto.

Eu me lembro de algo parecido quando Ney Matogrosso surgiu no Secos e Molhados e igualmente foi um sucesso retumbante, sendo imitado por muitos meninos nos seus trejeitos rebolativos para desespero dos pais. A minha geração que se dizia libertária também emitiu comentários homofóbicos muito parecidos com esse fenômeno da Anitta atual. Eu me lembro de alguns casos de filhos de amigos meus e que por sinal não se “tornaram” gays.

Bom, eu acho que o mundo se tornou mais careta sem dúvida e o moralismo voltou com toda a força a nossa volta. A ponto de algumas pessoas mais agressivas e violentas dizerem que hoje vivemos sob uma ditadura gay. Mais nonsense impossível.

Nenhuma pessoa, afirmo com convicção, “vira” gay ou lésbica. Isso não é uma opção, nunca foi. Seria o mesmo que alguém quisesse optar por ser canhoto, ter olhos azuis. É tudo ficção, não faz sentido.

Então não é uma música, uma dança, uma coreografia ou uma roupa que vai determinar a orientação sexual de ninguém. Até porque sabemos que inúmeras pessoas de aparência dita normal são gays ou lésbicas e mantém uma vida dupla perante a sociedade sem jamais serem “descobertos”.

Enfim, é de criança que se aprende a respeitar os outros, então as mamães tão zelosas com a sexualidade dos filhos tem que, ao contrário da repressão e humilhação explícitas, procurar serem verdadeiras e apoiar seus filhos caso eles efetivamente se revelem gays ou lésbicas ou qualquer outra categoria sexual, porque também sabemos que a diversidade sexual não acaba aí, são muitas formas de expressão e todas, eu disse todas, válidas, humanas.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Quem tem medo de ser negro?


É impressionante e chega a ser patético, como a sociedade brasileira acha que ser negro ou ter ascendência negra é desqualificante.

Reparem nas conversas de bares ou de famílias, como todos se dizem brancos ou que são remotamente descendentes de alemães ou italianos. Negros nunca, talvez índios, mas para por aí.

O Brasil é um país formado por mestiços na sua maioria, de árabes, asiáticos, europeus, africanos e índios. Com base nisso deveria ser mais tolerante, mais igualitário, mas não é.

Durante muito tempo e até bem pouco, já na década de setenta, costumava-se declarar que um casamento bom era aquele que clareava a raça. Parece piada de mau gosto, mas não é, trata-se da mais pura realidade.

O preconceito é tão enraizado que grande parte dos pardos se declara branca com medo de ser discriminada. Os próprios negros discriminam os negros mais pobres. Isso é muito evidente nas PMs, onde a maioria é negra, mas que age de modos diferentes para brancos, pardos e negros.

Alguns dizem que a pobreza é que determina a discriminação e que a cor da pele não. Então vamos contar quantos pardos e negros existem entre médicos e engenheiros, diplomatas, juízes e profissões mais exclusivas. Nas favelas e comunidades desassistidas, quem é a maioria da população?

As estatísticas de viciados em crack revelam que mais de oitenta por cento é de pardos e negros. Isso vale igualmente para os presídios. Por que é assim?

Pelas costas, sem serem notados, todos fazem aquele gesto de passar o dedo indicador por cima do braço quando querem desqualificar alguém pela sua cor, justificando um mal comportamento ou falta de educação.

A sociedade é muito hipócrita e quando é quase branca já se sente melhor que os outros.

Não tenho clareza quanto ao sistema de cotas, não sei se corrigirá isso, mas para mim o fundamental é a educação.

É de criança que se aprende a respeitar os outros, quem é diferente na cor ou qualquer outra coisa. O que diferencia as pessoas é seu caráter, isso sim é essencial no ser humano.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Carro Novo


Desde que eu consegui me firmar no emprego e financeiramente, tenho por hábito trocar de carro de três em três ou no máximo, de cinco em cinco anos. Estou falando de carro zero. Não dá problema de manutenção, tem maior valor de revenda e você pode acompanhar a evolução da indústria de uma maneira mais barata. Isso mesmo, porque quando se compra um carro zero com o que você escolhe, sai mais em conta do que colocar tudo depois.

Por experiência própria, aquele equipamento ou peça que você compra ali na oficina do seu amigo da esquina, ou do alternativo, quase sempre não funciona direito e dá muita dor de cabeça. Enfim, eu me programo para ter o dinheiro necessário para troca e sempre à vista, dando meu carro usado como parte do pagamento. Aí é uma questão minha de não ter que se preocupar datas, prazos, porque na maioria dos casos é bom possuir um financiamento por várias razões apesar das taxas extorsivas praticadas naquilo que a gente se acostumou a chamar de mercado, mas que no fundo não tem concorrência e você acaba pagando o que eles querem ou não tem negócio. Você que se vire, não é assim?

Cada vez que eu procuro uma concessionária penso dez vezes antes se é isso mesmo que eu quero. O mercado de carros mudou muito nos últimos anos, a indústria deu uma modernizada boa, as condições de financiamento foram muito facilitadas, apesar das taxas, as opções de modelos são muitas, até excessivas, mas a postura das revendas continua a mesma há décadas.

Primeiro o atendimento, em qualquer uma de qualquer marca de concessionária, não é muito bom de início. Você entra e sempre tem alguém sentado em frente a um micro, entretido com alguma coisa, inclusive o gerente que está ali numa salinha de vidro ao lado, faz questão de ignorá-lo.

Quando finalmente você é percebido como um cliente aí o tratamento muda e você passa a ser o alvo de ofertas quase sempre com siglas incompreensíveis, declamadas à velocidade da luz. Se você chega com sua preferência já definida fica mais difícil ainda, porque imediatamente o discurso do vendedor perde cinquenta por cento da validade e ele fica meio sem saber o que dizer e impaciente ao mesmo tempo.

Se você diz que quer vender o seu carro e pagar o restante à vista, o semblante do vendedor vai ficando diferente, apreensivo e próximo do raivoso. Parece que você está ocupando o lugar de alguém que ele esperava e mesmo assim ele oferece um financiamento imperdível com taxas exclusivas. A oferta ganha forma de quase ameaça pelo o olhar que é lançado sobre você.

Meio sem jeito você diz: “olha, eu prefiro à vista porque já me programei desse modo”. Os outros cinquenta por cento do discurso de vendas vão por água abaixo e você quase pede perdão por comprar um carro zero, top de linha e à vista.

Mas, não desanime, o vendedor passa a descrever os itens supérfluos do seu modelo escolhido como se fossem essenciais à sua vida e especialmente para sua família. Quase sempre dizem: “ a sua mulher vai adorar isso e aquilo”. Claro, sem saber se você é casado ou se a sua mulher não se interessa por carros.

Depois de ouvir todas as maravilhas do veículo que você já conhecia há séculos porque já tinha visto mil vezes na internet, o vendedor dá o preço cheio (Cheio de quê? Dá vontade de perguntar) do carro e diz na sua lata que vai abrir mão da comissão para lhe presentear com um conjunto de tapetes. Isso mesmo tapetes. Não dá tempo de se recuperar do susto. Acho que o próximo passo é eles tirarem as maçanetas das portas. Nenhum carro, nem os de penta-luxo, vem com tapetes, mas isso é outra história.

Em seguida, ele pede os documentos do seu carro usado e some, dizendo que vai negociar com o gerente um preço bom para você. Passados mais ou menos vinte minutos de relógio, nos quais você já rodou a loja toda e até se interessou por alguns daqueles assessórios inúteis que custam os olhos da cara, vem o vendedor, fazendo uma cara de cansaço pela batalha da negociação e ao mesmo tempo sarcástica e diz: “ Olha, deu pra conseguir tanto", ou seja, mais ou menos trinta ou quarenta por cento abaixo do menor preço que você esperava.

Você tenta argumentar, mas é inútil e ele repete que já abriu mão da comissão. Fala sério, alguém acredita? Volta a falar do preço cheio, agora do seu carro, da margem que a concessionária está abrindo mão. Dá vontade de gargalhar nessa hora, mas você se contém. Até que após uns bons minutos de conversa de surdos, você se rende à oferta e topa vender seu carro a preço de banana e a pagar uma fortuna pelo carro deles.

É mas não acabou, vem a parte da documentação e por mais que você esteja aceitando os preços deles, pagando à vista, aceitando os prazos de entrega e toda a arrogância do gerente que não olhou na sua cara sequer, te pedem o comprovante de residência. Isso mesmo, não adianta carteira de identidade, CPF, cartão de crédito, carteira de motorista, DUT(mais uma sigla), cheque com fundos, nada disso. Se não apresentar o comprovante de residência a fatura não pode ser emitida. E não tem Joaquim Barbosa que dê jeito, ou é comprovante ou nada.

“Mas, onde eu moro, é um condomínio, a água é de mina, o gás não é encanado, a luz, bom a luz é da Ampla, mas o CEP que ela usa é genérico, vai dar problema”. O vendedor olha para você como se fosse um vazio e diz: “Olha, pra te facilitar, a Agência aceita qualquer conta de consumo”.

Quase desisti, mas mandei três contas, uma da TV a cabo, outra da luz (mesmo com o CEP genérico) e por último, mas só a primeira página (...tem que ser completo com tudo mesmo..., alertava ele), da fatura do meu cartão de crédito. 

A conta da TV a cabo foi rejeitada (não é consumo, segundo eles) porque tinha que ser de luz ou gás, mas acabaram aceitando uma das outras. Não fui informado qual, é claro.

Bem, depois de três idas exaustivas à concessionária, pelo menos agora, eu só tenho que esperar dez dias, a partir da data de aceitação da minha compra para me entregarem o carro que sempre esteve lá, na Pavuna, no estoque.

Simples assim.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Porque voto!



Época de eleições é sempre a mesma coisa. Todo mundo finge que não se interessa, mas tá lá - com um olho no peixe e o outro no gato. Tem gente que vota por um emprego ou porque talvez seja bom para a sua família ou a de um amigo.

Programa de partido é quase um documento de ficção, ou uma formalidade burocrática para o partido ter acesso à eleição. A torcida por partidos tem ficado muito parecida com a torcida de futebol só que sem a vibração do gol. Não tem muita elaboração é só competição e paixão, mais no caso do futebol, é claro.

Enquanto que no futebol existe a técnica, a estrela e a competência do craque, na política as torcidas se agarram muito a imagem de pessoas quase sempre carismáticas, às vezes caricatas ou os dois ao mesmo tempo. Os exemplos são muitos, mas todo mundo sabe quem são, está no inconsciente coletivo.

Na prática são os interesses oportunistas que contam decisivamente para a consolidação de carreiras brilhantes como temos visto por décadas e décadas. Tem sempre um pai dos pobres, mas que de pobre mesmo só quer os votos.

Afinal, êle ou ela, deu um duro danado para chegar até ali e não vai ficar só se ocupando com desgraça e carência. Isso, o pessoal da militância trata, quando trata.

Essa gente tem que se ocupar com coisas mais nobres, como as alianças para as novas eleições e, claro, pensar no futuro da política, colocando seus filhos e filhas, amantes e amigos no poder.

Vou ficando por aqui nessa ladainha desesperançada porque não gosto de chover no molhado e afinal sou otimista, acredito na política.

O discurso pessimista me parece uma desistência da vida, afinal vivemos nesse país e fazemos parte do mundo real e o mundo real é a política queiramos ou não.

Não me passa pela cabeça considerar o fechamento do Congresso, como muitos revoltados com a política proclamam, por exemplo. Aliás, fechar o Congresso e colocar o que exatamente no lugar?

Aí vem alguém mais reacionário e diz, "ora, chama os militares para colocarem ordem". Não entendi! Não foram êles que ocuparam o poder de sessenta e quatro a oitenta e cinco? Ao contrário, foi justo por isso que ficamos com trinta anos de atraso acumulado. E olha que para nos livrarmos disso demora mais trinta anos. Não, não queremos isso definitivamente!

Quando jovem, era simpatizante da esquerda, em especial dos trotskistas, um grupo inspirado no russo Leon Trotski, comunista e revolucionário. A proposta era espraiar a revolução socialista pelo mundo todo, enquanto que havia outra corrente na esquerda, dos partidos comunistas oficiais que era mais conservadora e se opunha a isso.

Não quero comentar dos descaminhos que sofremos pela esquerda porque não tenho mais paciência, isso é uma tarefa para os jovens, mas de qualquer forma chegamos ao poder, poder central, não é pouca coisa não. Afinal, Fernando Henrique, Lula e Dilma foram oposição, amargaram prisões e exílios e combateram o regime ditatorial militar. Só que depois de tanta história, tanto sacrifício de muitos, a gente tem a sensação que muito pouca coisa mudou.

A maneira de fazer política continua muito igual ao que foi há sessenta, oitenta anos. Mudaram os atores, os cenários econômicos, as certezas ideológicas à esquerda e à direita, mas a essência continua muito parecida.

Os candidatos mais bem intencionados e que não fazem aliança com bandidos acabam marginalizados da grande imprensa, dos debates e não chegam ao Zé da padaria, à Marta de Bentinho, ao Maicon da oficina e por aí vai. Mas é exatamente esse pessoal que elege de vereador a presidente.
 
No entanto, votar ainda é um instrumento muito bom, na minha opinião. Eu tenho a sensação que estou colaborando efetivamente com a história. Digo isso, em função dos últimos trinta anos. Viver muito é bom porque você conta com as condições objetivas que te possibilitam avaliar resultados.

Lá pelos idos dos anos oitenta, o PT despontou como a novidade que a gente chamaria de terceira via. Não era o socialismo disruptivo e já marcado por revoluções nem sempre vitoriosas como as da Russia, Leste Europeu em geral e China. Era um trabalhismo com cara nova, calcado muito no Estado ainda, mas sem os vícios do Getulismo ou do Peronismo, para situar os mais próximos de nós.

A independência dos movimentos sindicais em relação ao Estado era a grande novidade. Isso evitaria o clientelismo, o aparelhamento e principalmente o que chamamos de peleguismo, o servilismo ao poder.

A liderança de Lula foi tão avassaladora que contribuiu e muito para a derrocada da ditadura militar, o que até pouco tempo, a esquerda intelectual e organizada não tinha conseguido apesar de sua luta por anos a fio.

A sua maneira nova de fazer política sem as travas das ideologias ou das manobras partidárias dava outra feição ao cenário político e isso de uma certa forma balançou a sustentação da ditadura. Estava inaugurada uma nova forma de contestação ao regime.

O que se viu em seguida foi a adesão da igreja católica progressista e a agregação de intelectuais e antigos ideólogos de esquerda a Lula e sua nova proposta ou o que êle representava.

Daí para a formação de um novo partido foi um pulo. O nascimento do PT praticamente se fundiu à ansiedade por liberdade de expressão, reestabelecimento de eleições diretas e volta à vontade de fazer política, rompendo com muito tempo de medo de manifestação e de repressão policial.

A totalidade da juventude mais esclarecida da época aderiu integralmente às proposta revigoradas de ética e transparência, parecia que o mundo tinha mudado de vez.

Passei a votar no PT compulsivamente mesmo com as pesquisas indicando quase sempre dez por cento de preferência até que a continuidade da estabilidade democrática nos permitiu, depois do sucesso de Fernando Henrique, logo após o fracasso de Collor e a transição de Itamar, eleger Lula.

Em pouco tempo nós passamos por situações que testaram o sistema nos seus aspectos mais perigosos, inclusive o risco de termos um novo golpe militar.

Primeiro com o impeachment de Collor que resistiu à transição de Itamar sem grandes atropelos e logo depois com a ascenção de FH, antigo inimigo do poder, visto ainda com alguma desconfiança pelas elites, mas salvo pelo Plano Real que possibilitou ao país a tão desejada estabilidade econômica.

O passo seguinte e com o País já amadurecido politicamente foi a vitória de Lula com todas as preocupações subjacentes de uma possível mudança para a esquerda mais radical, mas amparada agora por uma democracia consolidada.

Continuamos com nossa trajetória democrática, agora com Dilma, vista por muitos com a desconfiança de uma continuidade subalterna a Lula, mas que vem surpreendendo positivamente a todos, inclusive a mim, refratário a ela no início.

Costumo dizer que apesar de tudo, tivemos, já no período democrático três presidentes da república, FH, Lula e Dilma, que são um verdadeiro luxo para nossa história republicana.

Se olharmos em volta, em especial para a América Latina, vamos nos deparar com um avanço sem igual, talvez só comparado ao do Chile que de Pinochet chegou a Michelle Bachelet e aos Estados Unidos da América com Obama.

É por essa e outras que eu voto, vou continuar votando até onde eu puder.




































terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Convivência, como é difícil!

Os ditados populares são a melhor tradução para tudo, já dizia o Paulo com a sabedoria de sempre. Então "no início tudo são flores" quando se trata de conhecer alguém que se ama de paixão à primeira vista. Agora, conviver são outros quinhentos, sem designação de moeda, atemporal e atual portanto.

O que nos aproxima são os interesses, não importa se comportamentais, políticos, sexuais, estéticos, de origem, de time de futebol, de classe ou tudo isso junto. O certo é que queremos estar mais próximo do nosso espelho.

Alguns dizem que o ideal é gostar de pessoas de temperamento oposto, mas até que ponto isso é verdade? Porque por mais que julguemos assim, no fundo, no fundo, nós perseguimos a nossa própria imagem.

Aquele amigo, parceiro ou parente vai guardar algum tipo de semelhança conosco queiramos ou não. Eu tenho uma amiga muito querida que quando estamos conversando sobre a vida e as coisas do dia-a-dia e eu fico me queixando disso ou daquilo em relação a um caso qualquer, ela se vira e diz: mas é isso o que temos, não é? 

É assim mesmo, o resto é idealização romântica, contos de fadas. No mundo real as pessoas têm defeitos, são grosseiras às vezes, não têm os mesmos interesses, mas gostam de você assim mesmo e vice-versa.

Uma das situações que resume muito bem isso tudo é a viagem em grupo. 

Quando a gente é novo, geralmente na adolescência, tudo é festa. Geralmente ninguém tem compromisso, os pais resolvem tudo. Então você não arruma nada, não faz comida, não limpa nada. No dia seguinte os empregados fazem tudo e você nem vê, acha normal aquilo acontecer, afinal você nunca fez nada. 

Você acha o máximo dormir embolado com os outros, não ter o mínimo de privacidade, não ter que preparar café ou comida para os outros. Não pode faltar água ou luz e se faltar todo mudo vai embora e pronto, o resto que se dane não é problema meu, foda-se!

Geralmente amigos que se dão muito bem nos bares, no trabalho, marcam viagens em conjunto nos finais de semana ou por tempo maior de férias. Aí é que mora o perigo. Bares, trabalho e restaurantes são episódicos, não são convivência real por mais tempo que gastemos nisso.

Grandes amizades acabam a partir de um simples final de semana. Presenciar as discussões de um casal quase sempre é desagradável, aturar o filho pequeno, ou adolescente deles, pior ainda. Aliás, quem pariu Matheus que o embale, não é assim? Bom, quando a gente está casado, se atura, a regra tem sido assim, mas os outros não têm que aturar, claro!

E as escolhas de passeios, programas noturnos e restaurantes? Se ninguém cede e é o que acontece na maioria das vezes, o clima vai ficando insuportável e você passa a odiar a sua melhor amiga, o seu maior amigão.

Nem o indefectível jogo de cartas serve para apaziguar os ânimos, ao contrário, pode desencadear uma onda de desaforos sem fim e acabar na pior briga do mundo. 

Ver um filme então, é bom? Não, não há consenso quase nunca e você acaba vendo o que não gosta e dorme no meio ou se irrita para o resto da noite.

Mas o bom mesmo é ficar à vontade, bebendo, comendo uns petiscos em frente à piscina ou praia, será? Se alguém não ficar bêbado e colocar tudo a perder pode ser ou se algum filho não passar mal porque comeu demais ou tomou sol demais. Falar de política ou futebol não dá certo nunca porque o álcool liberou a língua e ninguém segura mais nada.

Tem pessoas que se orgulham de proclamar em alto e bom som que são assim e pronto, que são autênticos. Ora, isso é ser intransigente e mal educado. Ninguém é obrigado a tolerar alguém "autêntico", nada pior, nada mais desagradável.

Quer dizer que o ser humano é anti-social por natureza? Quase isso, a gente não está acostumado a ceder em nada, é assim desde sempre. Na minha opinião o que funciona é a cerimônia. Nada como uma boa dose de cerimônia, já dizia minha mãe que sabia viver como ninguém.

É claro que cerimônia em excesso gera desconforto, mas deixar o outro existir sem interferir muito no ambiente geral é uma arte.












quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Sou ateu, graças a mim!



Discutir sobre Deus é difícil quando a gente vive cercado de religiosos por todos os lados. Alguns nem tão fervorosos assim, mas com muito medo de que algo venha lhes acontecer e quando se fala alguma coisa sobre o assunto, a pessoa logo diz: “mas em Deus você acredita, não é?” Se a resposta é não, o mundo literalmente desaba sobre a sua cabeça e uma enxurrada de dogmas, afirmações e “provas” da existência de Deus são bradadas a plenos pulmões.

Como eu sou ateu praticante saio sempre chamuscado dessas discussões, mas em verdade não travo uma discussão dessas há muito tempo. Houve uma época em que eu, impulsionado pelo meu socialismo científico, tentava que as pessoas pelo menos ouvissem os argumentos, mas nunca tive êxito.

Contudo, meu ateísmo não advem da política ou por um mundo romanticamente melhor, vem da minha infância mesmo. Criado em uma família católica-apostólica-romana, como minha mãe se definia, eu fui até a crisma, sacramento de confirmação do batismo. Eu tinha que ir à missa quase sempre, isso dos sete aos doze anos que eu me lembre.

Peguei a missa em latim, é claro, e ficava simplesmente boiando nos significados daquela cantilena, apesar dos roteiros impressos e das explicações carolas da minha mãe. O momento mais tenso para mim era a hora da comunhão em que todos se ajoelhavam e o padre levantava o cálice de vinho e a hóstia que era servida em seguida a quem tinha se confessado. Era uma vontade quase incontrolável de rir naquele momento mais sagrado.

Eu sempre imaginava que o inferno estava garantido, reservado para mim, só por aquele comportamento ímpio.

Ah, mas tinha uma coisa que eu adorava nas missas que eram as músicas, quase sempre de Bach e o órgão de tubos. Isso para mim foi definitivo e eu me dediquei à música a vida toda. Taí, música, para mim é sagrada!

No entanto, o que mais me marcou e talvez tenha sido responsável tão cedo pela minha descrença na religião e seus rituais foram as comemorações da Semana Santa. Não sei se isso é feito ainda hoje, mas quando eu era criança e ia, ora na Igreja do Outeiro da Glória, linda e ora, na Igreja de Nossa Senhora da Glória no Largo do Machado, em ambas havia a visitação ao Senhor Morto, na sexta-feira santa.

Formava-se uma fila para a contemplação do corpo de Cristo morto após a crucificação. Uma imagem de tamanho natural deitada, coberta por um fino lençol que estrategicamente deixava ver as marcas da tortura no corpo. Se aquilo era para causar algum tipo de pânico, medo, êles conseguiram. Depois que eu cresci, percebi que era apenas um espetáculo mórbido e de extremo mau gosto.

A ideia de pecado e o ato da confissão associados à culpa mais ancestral, quase sempre relativos a sexo ou mesmo pensamentos sobre sexo era recorrente. Isso como forma de castigo e culpa quando se está em plena adolescência chega a ser criminoso.

As perguntas eram muitas: Como alguém podia ressuscitar e subir aos céus? Que céus?; Como alguém se declara filho de Deus e todos acreditam? Cristo não foi gerado como todo mundo, mas surgiu assim do nada? Maria era virgem? José não era seu pai de fato? As explicações, como não existem no mundo real, vinham do dogmas, das crenças. Bom, por aí só resta mesmo crer em Deus e que tudo pode acontecer se Ele assim o desejar, não é? Repararam no "ele"? É mais fácil, não tem explicação e pronto.

Em qualquer situação essas explicações se aplicam. A pessoa sofre de um câncer e faz sessões de quimio-terapia, cirurgias e toma remédios. Aí vem alguém e diz, “foi um milagre, graças a Deus você está bem. Ora, e a quimio, os remédios, os médicos e as cirurgias? Nada disso conta? Um dia eu ouvi de um médico a seguinte frase ao ouvir da mãe do paciente dizer que "graças a Deus seu filho tinha melhorado". Ele disse: “ bom, eu acho que tive alguma responsabilidade aí, não é não? A mãe do paciente sorriu amarelo, mas continuou com a sua convicção de fé inabalável. Fazer o quê?

E se a pessoa morre, logo se diz: “Foi Deus que assim quis”. Então está certo, se está bom foi Deus, se não está, foi Deus também. É fácil não é? Poxa, você é um homem de pouca fé, um incrédulo! Não, é que não dá para discutir sem o mínimo de lógica.

Ainda tem aquela piada que diz que se Deus existisse, campeonato baiano terminava empatado.

Para piorar a história para nossas cores, todo mundo pensa que um ateu é uma pessoa empedernida, sem sensibilidade, voltada ao materialismo, sem fé portanto. Nada disso é verdade! Esse negócio de ter fé a qualquer custo não dá. Bom, aí estão os discípulos do Islã que acreditam que sejamos todos, inclusive os de outras crenças, uns infiéis. Vai dizer que não!

Mas tudo bem, cada um acredita no que quiser e eu não acredito em nada, fica melhor assim e ninguém briga.