Começo
pela Anitta, uma moça do subúrbio carioca que recentemente estourou
nas paradas de sucesso com uma música simples, mas de apelo popular
bastante grande e de uma coreografia contagiante, principalmente para
as crianças e adolescentes que adoram imitá-la.
Anitta
não é loura, nem fez Tablado e não é tão bonita como a Kelly
Key, outra cantora de sucessos instantâneos da faixa teen, mas caiu
no gosto popular.
Eu,
morador da zona sul carioca, criado à base de Tom e Vinicius e Rock
inglês, onde se cunhou o termo “brega”, tirado de empregada
doméstica, confesso que sofri arrepios preconceituosos quando vi a
moça na internet com milhões de acessos e vendendo milhões de cds.
Falando
em preconceito, o termo “paraíba” para tudo o que é de mau
gosto, é usado por nós cariocas com frequência, como o fazem os
paulistas com “baiano” para o mesmo fim, mas vamos ficar por aqui
porque caso contrário não sobrará espaço suficiente para o que interessa no momento.
Voltando
à Anitta, verifiquei para meu espanto, que sua coreografia não é
sexosa como tantas outras do gênero. A batida que se optou por
chamar de “funk” é pulsante, vigorosa e faz qualquer um se
mexer. Sabemos o que a mídia mainstream faz com tudo o que pode
virar “produto” instantâneo e logo nos lembramos de vários
casos que depois de algumas décadas viraram cults e aceitos no
Baixo-Leblon ou na Lapa para ser mais atual.
Até aqui
se repete o preconceito e a luta de classes que jamais teve fim no
Rio entre a Zona Sul e o Subúrbio (tudo o que fica depois do túnel
Rebouças) ou entre favela e asfalto.
Contudo,
dessa vez apareceu um novo componente de preconceito muito em moda
que é da homofobia explícita gerada por um vídeo caseiro da
internet, onde um menino de seus cinco ou seis anos dança a música
de Anitta durante uma festa.
Logo o
video se espalhou pela internet com os mais terríveis insultos ao
garoto e a sua família por deixarem o menino fazer espetáculo tão
degradante, segundo os comentários mais suaves.
O que me
chamou a atenção de início é que os comentários mais agressivos
vieram das mães jovens, na faixa dos trinta anos, que se sentiram
ofendidas pelo video, dizendo que o menino sairia dali esvoaçando
como uma libélula deslumbrada e que obviamente se tornaria gay e
seria massacrado pelos amigos na escola. Insultos como “veadinho”,
“bichinha escandalosa”, “boiolinha”(aqui se nota uma ponta de ternura
de mãe) foram frequentes nos comentários mais tensos. Algumas
sugeriram que uma boa surra no menino colocaria as coisas no lugar.
Um horror!
Outros
mais “politizados” sugeriam que essa calamidade de maus costumes
era originado pela mídia, em especial a Rede Globo que sempre é
culpada por tudo de mal que aparece na sociedade. Mas nesse caso, o
temor de que seus filhos homens (vale o pleonasmo), tornarem-se
gays, por influência da música e coreografia satânicas da Anitta
foi muito mais emblemático.
A
homofobia delas superou em muito a dos homens que obviamente também
desceram o pau(com duplo sentido, por favor) no garoto.
Eu me
lembro de algo parecido quando Ney Matogrosso surgiu no Secos e
Molhados e igualmente foi um sucesso retumbante, sendo imitado por
muitos meninos nos seus trejeitos rebolativos para desespero dos
pais. A minha geração que se dizia libertária também emitiu
comentários homofóbicos muito parecidos com esse fenômeno da
Anitta atual. Eu me lembro de alguns casos de filhos de amigos meus e
que por sinal não se “tornaram” gays.
Bom, eu
acho que o mundo se tornou mais careta sem dúvida e o moralismo
voltou com toda a força a nossa volta. A ponto de algumas pessoas
mais agressivas e violentas dizerem que hoje vivemos sob uma ditadura
gay. Mais nonsense impossível.
Nenhuma
pessoa, afirmo com convicção, “vira” gay ou lésbica. Isso não
é uma opção, nunca foi. Seria o mesmo que alguém quisesse optar
por ser canhoto, ter olhos azuis. É tudo ficção, não faz sentido.
Então
não é uma música, uma dança, uma coreografia ou uma roupa que vai
determinar a orientação sexual de ninguém. Até porque sabemos que
inúmeras pessoas de aparência dita normal são gays ou lésbicas e
mantém uma vida dupla perante a sociedade sem jamais serem
“descobertos”.
Enfim, é
de criança que se aprende a respeitar os outros, então as mamães
tão zelosas com a sexualidade dos filhos tem que, ao contrário da
repressão e humilhação explícitas, procurar serem verdadeiras e
apoiar seus filhos caso eles efetivamente se revelem gays ou lésbicas
ou qualquer outra categoria sexual, porque também sabemos que a
diversidade sexual não acaba aí, são muitas formas de expressão e
todas, eu disse todas, válidas, humanas.