Desde que eu consegui
me firmar no emprego e financeiramente, tenho por hábito trocar de
carro de três em três ou no máximo, de cinco em cinco anos. Estou
falando de carro zero. Não dá problema de manutenção, tem maior
valor de revenda e você pode acompanhar a evolução da indústria
de uma maneira mais barata. Isso mesmo, porque quando se compra um
carro zero com o que você escolhe, sai mais em conta do que colocar
tudo depois.
Por experiência
própria, aquele equipamento ou peça que você compra ali na oficina
do seu amigo da esquina, ou do alternativo, quase sempre não
funciona direito e dá muita dor de cabeça. Enfim, eu me programo
para ter o dinheiro necessário para troca e sempre à vista, dando
meu carro usado como parte do pagamento. Aí é uma questão minha de
não ter que se preocupar datas, prazos, porque na maioria dos casos
é bom possuir um financiamento por várias razões apesar das taxas
extorsivas praticadas naquilo que a gente se acostumou a chamar de
mercado, mas que no fundo não tem concorrência e você acaba
pagando o que eles querem ou não tem negócio. Você que se vire,
não é assim?
Cada vez que eu procuro
uma concessionária penso dez vezes antes se é isso mesmo que eu
quero. O mercado de carros mudou muito nos últimos anos, a indústria
deu uma modernizada boa, as condições de financiamento foram muito
facilitadas, apesar das taxas, as opções de modelos são muitas,
até excessivas, mas a postura das revendas continua a mesma há
décadas.
Primeiro o atendimento,
em qualquer uma de qualquer marca de concessionária, não é muito
bom de início. Você entra e sempre tem alguém sentado em frente a
um micro, entretido com alguma coisa, inclusive o gerente que está
ali numa salinha de vidro ao lado, faz questão de ignorá-lo.
Quando finalmente você
é percebido como um cliente aí o tratamento muda e você passa a
ser o alvo de ofertas quase sempre com siglas incompreensíveis,
declamadas à velocidade da luz. Se você chega com sua preferência
já definida fica mais difícil ainda, porque imediatamente o
discurso do vendedor perde cinquenta por cento da validade e ele fica
meio sem saber o que dizer e impaciente ao mesmo tempo.
Se você diz que quer
vender o seu carro e pagar o restante à vista, o semblante do
vendedor vai ficando diferente, apreensivo e próximo do raivoso.
Parece que você está ocupando o lugar de alguém que ele esperava e
mesmo assim ele oferece um financiamento imperdível com taxas
exclusivas. A oferta ganha forma de quase ameaça pelo o olhar que é
lançado sobre você.
Meio sem jeito você
diz: “olha, eu prefiro à vista porque já me programei desse
modo”. Os outros cinquenta por cento do discurso de vendas vão por
água abaixo e você quase pede perdão por comprar um carro zero,
top de linha e à vista.
Mas, não desanime, o
vendedor passa a descrever os itens supérfluos do seu modelo
escolhido como se fossem essenciais à sua vida e especialmente para
sua família. Quase sempre dizem: “ a sua mulher vai adorar isso e
aquilo”. Claro, sem saber se você é casado ou se a sua mulher não
se interessa por carros.
Depois de ouvir todas
as maravilhas do veículo que você já conhecia há séculos porque
já tinha visto mil vezes na internet, o vendedor dá o preço cheio (Cheio de quê? Dá vontade de perguntar) do carro e diz na sua lata
que vai abrir mão da comissão para lhe presentear com um conjunto
de tapetes. Isso mesmo tapetes. Não dá tempo de se recuperar do
susto. Acho que o próximo passo é eles tirarem as maçanetas das
portas. Nenhum carro, nem os de penta-luxo, vem com tapetes, mas isso
é outra história.
Em seguida, ele pede os
documentos do seu carro usado e some, dizendo que vai negociar com o
gerente um preço bom para você. Passados mais ou menos vinte
minutos de relógio, nos quais você já rodou a loja toda e até se
interessou por alguns daqueles assessórios inúteis que custam os
olhos da cara, vem o vendedor, fazendo uma cara de cansaço pela
batalha da negociação e ao mesmo tempo sarcástica e diz: “ Olha,
deu pra conseguir tanto", ou seja, mais ou menos trinta ou quarenta
por cento abaixo do menor preço que você esperava.
Você tenta argumentar,
mas é inútil e ele repete que já abriu mão da comissão. Fala
sério, alguém acredita? Volta a falar do preço cheio, agora do seu
carro, da margem que a concessionária está abrindo mão. Dá
vontade de gargalhar nessa hora, mas você se contém. Até que após
uns bons minutos de conversa de surdos, você se rende à oferta e
topa vender seu carro a preço de banana e a pagar uma fortuna pelo
carro deles.
É mas não acabou, vem
a parte da documentação e por mais que você esteja aceitando os
preços deles, pagando à vista, aceitando os prazos de entrega e
toda a arrogância do gerente que não olhou na sua cara sequer, te
pedem o comprovante de residência. Isso mesmo, não adianta carteira
de identidade, CPF, cartão de crédito, carteira de motorista,
DUT(mais uma sigla), cheque com fundos, nada disso. Se não
apresentar o comprovante de residência a fatura não pode ser
emitida. E não tem Joaquim Barbosa que dê jeito, ou é comprovante
ou nada.
“Mas, onde eu moro, é
um condomínio, a água é de mina, o gás não é encanado, a luz,
bom a luz é da Ampla, mas o CEP que ela usa é genérico, vai dar
problema”. O vendedor olha para você como se fosse um vazio e diz:
“Olha, pra te facilitar, a Agência aceita qualquer conta de
consumo”.
Quase desisti, mas
mandei três contas, uma da TV a cabo, outra da luz (mesmo com o CEP
genérico) e por último, mas só a primeira página (...tem que ser
completo com tudo mesmo..., alertava ele), da fatura do meu cartão
de crédito.
A conta da TV a cabo foi rejeitada (não é consumo,
segundo eles) porque tinha que ser de luz ou gás, mas acabaram
aceitando uma das outras. Não fui informado qual, é claro.
Bem, depois de três
idas exaustivas à concessionária, pelo menos agora, eu só tenho
que esperar dez dias, a partir da data de aceitação da minha compra
para me entregarem o carro que sempre esteve lá, na Pavuna, no
estoque.
Simples assim.