domingo, 19 de outubro de 2014

Eleições presidenciais 2014, esquerda, direita....

Reta final das eleições, segundo turno, dia 26 de outubro de 2014 e todos estão ligados, muito ligados nelas, ao contrário do que sempre se imaginou e não apenas nos grandes centros.

Talvez justamente nas grandes cidades as pessoas estejam mais desiludidas com a política. Dá para saber isso com precisão hoje em dia, é só cruzar os dados do TSE para a gente ter a exata noção das abstenções e votos nulos e em branco.

Chega-se à reta final com dois candidatos dos partidos responsáveis pela principal polarização dos últimos anos que são o PSDB e o PT, ambos criados após a redemocratização brasileira pós 1964.

Tanto o PSDB quanto o PT são partidos sociais-democratas e também responsáveis pelas mudanças mais significativas na economia e na política do País nesses 29 anos pós-redemocratização.

Simplificando, pode-se afirmar que: o PSDB é a esquerda da direita e o outro, o PT, é a direita da esquerda. Seus fundadores estiveram e tiveram participação fundamental na luta pela democracia e sua normalização no País lá pelos anos setenta/oitenta. Os principais líderes eram e ainda são, Fernando Henrique Cardoso e Lula.

O PT, nasceu, em fevereiro de 1980, no meio sindical das greves do ABC paulista, na época em que fazer greve significava ser preso sem direito à defesa. O outro, o PSDB, foi fundado por uma base mais elitizada da academia que flertava com o neo-liberalismo, mas que também se situava no espectro da social-democracia, colocando isso, inclusive, na sua denominação.

Ambos sairam do PMDB, partido de oposição ao regime que se consolidara durante o período da ditadura, onde o bipartidarismo entre ARENA (da situação) e MDB (de oposição) eram as únicas opções aos eleitores e às eleições que aos poucos eram reestabelecidas pela ditadura de 64.

A ARENA era constituída pelos setores mais conservadores do País: grandes empresários do setor de comunicações, industrial pesado, financeiro e grande parte da classe média(a antiga e formadora de opinião na época) anti-comunista por definição.

O MDB que se transformou em PMDB em 1979, com Ulysses Guimarães, era composto pelo que sobrou da oposição e de algumas novas lideranças surgidas pós-sessenta e quatro como Mário Covas, José Serra, Dante de Oliveira, Álvaro Dias, Pedro Simon, Roberto Freire e muitos outros.

A ARENA, também em 1979 foi rebatizada de PDS e sua composição manteve as lideranças afinadas com a direita anti-comunista e liberal basicamente. Suas lideranças surgidas da ditadura militar lá permaneceram como José Sarney, Paulo Maluf, Antonio Carlos Magalhães, Jorge Bornhousen, Francelino Pereira e outros mais.

Na década de oitenta, os partidos proliferaram e os perfis aglutinados nos então PMDB e PDS se distribuiram em várias legendas.

A multiplicação dos partidos revelou e acentuou as diferenças entre as várias correntes de pensamento de esquerda e sociais-democratas e algumas poucas à direita.

Registre-se que a direita pouco se dividiu com PFL, PL e PP, enquanto que a esquerda se fragmentou em diversos partidos como PDT, PTB, PSDB, PSB, PCdoB, PCB e PT. Entre a esquerda e a direita estava o PMDB com lideranças expressivas como Montoro, Ulysses e Pedro Simon, mas com quadros tanto à direita, quanto à esquerda, os chamados autênticos do partido e com a maioria no Congresso.

O que se viu depois da volta à democracia foi uma queda contínua das forças de direita mais radical e uma ascensão das forças de esquerda, liderada pelo PT e PDT. Nas primeiras eleições livres de 1989 tivemos na disputa direta entre, Lula, Brizola e Collor com a vitória de Collor, mas já não caracterizado como aquela direita dos tempos Lacerdistas (da UDN) de antes.

Com a criação do PSDB, em 1988, a liderança de Fernando Henrique desponta como a face mais à esquerda da social-democracia e com o crescimento do PT, aparece Lula como a contrapartida mais à direita da esquerda tradicional.

O Governo de Collor eleito na primeira elelição livre, em 1989, desaba por falta de sustentação política e se envolve em escândalos de corrupção que o levam ao impeachment e o mandato tampão de Itamar (oriundo do MDB e com passagem pelo PL), a grande interrogação naquele momento.

O governo de Itamar revelou-se, no entanto, nacionalista com tintas à esquerda da onde surge com destaque o seu então Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso por conta do desenvolvimento do exitoso Plano Real. FHC é eleito presidente em 1994, na sucessão de Itamar e conta com seu principal cabo eleitoral, o Plano Real.

O interessante nessa época é que ainda muito recente, a democracia já enfrentara bem um impeachment, e tinha passado por um mandato tampão nacionalista conservador.

Com a eleição de FHC, um sociólogo de esquerda que foi obrigado a abandonar o País pra viver primeiro no Chile e depois na França, ficou uma questão no ar que preocupava a todos: qual seria a reação dos setores militares e da direita ainda com muita força e muito presente na administração central?

É verdade que FHC tinha dito que esquecessem tudo o que ele tinha escrito e que agora era um social-democrata. Isso soava mais como um habeas corpus ideológico e só quem viveu a época do golpe militar entende a situação com clareza.

Lula que jamais foi da esquerda tradicional se aproveitava disso no meio sindical, seu braço principal e faz uma oposição cerrada ao PSDB.

No entanto, o Plano Real caiu como um raio que de cara acabou com a hiper-inflação. A inflação até dezembro de 1993 que era de 916% a.a. no final de 1994, após a implantação do Plano Real em jul/94, já era de 22 % a.a. Na sequência e já no governo de FHC, em 1998, a inflação anual foi de inacreditáveis 1,66% a.a. . Por conta do sucesso do Plano Real, FHC é reeleito nesse mesmo ano.

A partir do segundo mandato de FHC a economia desanda, com taxas de juros muito elevadas, pouco investimento em infra-estrutura, redução do emprego e programa de privatizações discutíveis em algumas decisões e com denúncias de corrupção de compra de votos para a aprovar a reeleição. O governo FHC entra em declínio.

Lula, que tinha sido contra o Plano Real, alegando que viriam o arrocho salarial e o desemprego, argumentos muito utilizados pela oposição de esquerda, cresce na disputa eleitoral e pela quarta vez concorrendo à Presidência se elege em 2002, batendo José Serra, candidato de FHC.

Lula, no entanto, um pouco antes de sua eleição, em 22.06.2002, escreve a Carta ao Povo Brasileiro (http://www.iisg.nl/collections/carta_ao_povo_brasileiro.pdf) com o intuito de tranquilizar a opinião pública internacional em especial e sem dizer isso, adere ao Plano Real, incorporando os programas sociais desenvolvidos por Ruth Cardoso no Comunidade Solidária e a Rede de Proteção Social com doze programas de assistência à população carente, rebatizados de Fome Zero no seu governo.

O Governo Lula foi o segundo governo social-democrata eleito em 2002 e reeleito em 2004. O seu primeiro mandato foi festejado praticamente por todos, incluindo a oposição que preferiu silenciar.

Ajudado pelo Plano Real e pelo crescimento mundial muito positivo, o primeiro governo Lula obteve bastante sucesso interno e externo com direito a discursos elogiados na ONU e a aprovação de ninguém menos que Obama, recém-eleito nos Estados Unidos.

O governo Lula que já era intimamente ligado a José Sarney pelo PMDB e amigo pessoal de Lula nessa altura, termina com fortes denúncias de corrupção para obtenção de apoios da sua base aliada (o Mensalão) e de aparelhamento do Estado com aumento de ministérios e cargos públicos para atender a todos que antes eram oposição ao governo como Collor, Moreira Franco e Maluf.

Mesmo assim, em 2008 a eleição de Dilma Roussef, Chefe da Casa Civil de Lula, até pouco antes no PDT e desconhecida do povo brasileiro por conta da sua carreira técnica nos governos do RGS, é uma vitória pessoal de Lula que contra todos no partido, aposta em Dilma. Em sua competência para governar.

No meio da gestão Dilma, os principais acusados e condenados no processo do Mensalão de Lula (José Dirceu, Genoíno, Marcos Valério, Delúbio Soares, Roberto Jefferson etc..) estão presos por decisão do STF, comandado pelo seu presidente, Ministro Joaquim Barbosa indicado por Lula ao STF anteriormente.

As obras de infra-estrutura enfrentam atrasos monumentais e a Copa do Mundo é realizada num clima de manifestações reivindicatórias de melhor qualidade na saúde, educação, segurança, infraestrutura e reformas política e tributária, a partir de junho de 2013, nunca vistas antes no Brasil, porque expontâneas e sem lideranças conhecidas.

O governo Dilma que tinha ido bem em seu primeiro ano, enfrenta novos escândalos, de propinas dadas agentes do governo pelas empresas que vai num crescendo até estourar no mais danoso e recente escândalo envolvendo nada mais do que a Petrobrás, a jóia da República.

Para competir com Dilma na sua tentativa de reeleição aparecem, com força, dois candidatos importantes por diferentes motivos.

Marina Silva, já no PSB como vice de Eduardo Campos, é guindada à candidata na disputa presidencial após o trágico acidente aéreo que mata o neto de Arraes. 

Marina é dissidente do PT, ex-ministra de Lula e ambientalista de renome internacional. Ela tentou legalizar a Rede, como partido próprio, mas não conseguiu, segundo alguns dizem, por manobras de bastidores da base aliada do PT que impediram seu registro.

O PSDB vem com Aécio Neves - político de experiência no legislativo (deputado, senador) e excutivo de sucesso como Governador de Minas Gerais por duas vezes e ainda por cima preparado pelo seu avô Tancredo Neves (o último presidente indireto que jamais tomou posse porque faleceu antes) para a presidência de república desde a década de setenta.

A candidatura de Luciana Genro, ex-PT e agora no recém-criado PSOL(2004), disputa a presidência com pouquíssimas chances eleitorais, mas com um discurso de esquerda que pela primeira vez soa moderno, desenvolvimentista e sem os cacoetes do século dezenove da esquerda tradicional.

Luciana saiu do PT junto com vários outros integrantes do partido, como Ivan Valente, Chico Alencar, Heloísa Helena, Plínio de Arruda Sampaio entre outros, por não concordar com o Mensalão e outras posturas consideradas conservadoras de direita do PT.

Depois dessa participação nas eleições Luciana ganhou visibilidade e a simpatia do público mais jovem e idealista, bem como daqueles que não concordam com a guinada do PT para a política anti-ética, fisiologismo e complacente com a corrupção.

O socialismo defendido por Luciana com a cara inclusiva da democracia ganha muitos adeptos na juventude e surge com força para um disputa mais adiante com chances de crescimento real na sociedade como uma alternativa nova e antenada com a realidade mundial.

Marina, considerada favorita para o segundo turno, perde para Aécio que ganha o posto de adversário de Dilma e se alia a ela pela presidência.

As pesquisas indicam um empate técnico entre Dilma e Aécio e a campanha fica com um tom ruim de troca de acusações mútuas de um considerar o outro como exterminadores do Brasil, o que tira a direita mais reacionária do armário, durante a campanha, ganhando força com um discurso moralista e excludente muito parecido com aquela velha direita conhecida do golpe de Estado de 1964.

O que se observa nisso tudo é que apesar do Congresso nacional espelhar uma face ainda muito conservadora, com fundamentalistas religiosos, corruptos explícitos e com muito a avançar, do ponto de vista nacional não se tem um político de direita radical ou mesmo de direita mais light com reais chances de vitória, ao contrário, o País está optando por candidaturas sociais-democratas e mantém-se numa zona confortável de estabilidade.

Por mais que se diga que o PSDB seja neo-liberal e que o PT queira implantar um sistema bolivariano socialista no Brasil, nem uma das duas afirmativas é verdadeira. Os programas sociais com Aécio ou com Dilma irão continuar e a política econômica não muda nada, inclusive os ajustes necessários.

Apenas o jeito de governar é diferente, sendo um, o PT, mais fisiológico e o outro, o PSDB, mais técnico e pragmático.


segunda-feira, 14 de abril de 2014

Nebraska


Engraçado, o primeiro texto deste blog, em 2010, diz que sou louco por cinema. Hoje revendo algumas publicações vi que o assunto cinema ficou em segundo plano. E como tenho assistido a vários filmes recentes e interessantes, fiquei com vontade de escrever sobre um deles que me impressionou bastante que foi Nebraska.

Poucas vezes vi uma história tão densa sobre as relações pais e filhos como em Nebraska, filme de Alexander Payne, indicado ao Oscar de 2014, em seis categorias, sem ser premiado em nenhuma delas.

O preto e branco do filme chama a atenção, nesse nosso mundo onde 3D já é coisa do passado, porque imprime um clima de vazio das pessoas, dos lugares, do tema, além de ser uma opção estética bonita quando se sabe lidar com ela e que é o caso. Aliás, a fotografia preto e branco dá esse toque de magia que leva a gente para o passado, mesmo que a história seja passada no presente.

A velhice de Woody (Bruce Dern), em atuação magnífica, não podia ser mais melancólica, sem perspectiva e só, apesar da mulher estar viva e ter dois filhos adultos. Ele é idoso e não se preocupa com a aparência, mas resiste ao envelhecimento inexorável, levando uma vida própria e absolutamente só.

A partir de uma carta propaganda, como uma espécie de fuga da realidade dura, ele se apega a um prêmio de loteria que bem no fundo sabe não ser verdadeiro, mas que faz questão de acreditar. Se sentir milionário por alguns momentos o torna feliz como nunca o fora antes.

Com o seu filho mais novo, David (Will Forte), empreende uma viagem obstinada à Lincoln, capital de Nebraska, onde fica a sede da tal loteria que promete o prêmio de um milhão de dólares ao número sorteado. Sabemos que essa história de número sorteado é a enganação mais primária no mundo das falsas propagandas, mas Woody insiste em ver para crer.

David, nem tão jovem assim poque já é um adulto “looser” (perdedor) como eles adoram definir quem tem uma vida comum, é vendedor de loja de som , está recém-separado e se apega à ideia de levar o pai ao destino do suposto premio.

O outro filho, mais velho, Ross (Bob Odenkirk) é casado com duas filhas, bem sucedido e trabalha como âncora de jornal televisivo na cidade onde moram. É muito distante e não gosta do pai porque o acha excessivamente egoísta.

Woody é uma pessoa que não fala, todos dizem isso dele, não tem gosto pela vida e nem dos filhos ele quis saber. Bebe muito e é taxado de alcoólatra pelos conservadores protestantes.

Sua mulher, Kate (June Squibb), em atuação esplêndida, é católica e faz disso uma guerra particular com a família protestante do marido. A todos ela difama e em especial as mulheres que são descritas como vadias e piranhas por ela. Ela também deprecia o marido que apesar de ter aprendido mecânica de aviões na guerra, passou a vida inteira enfiado numa oficina de carros, vagabunda.

O filho, David, luta contra a contrariedade que o pai lhe dá desde pequeno pela bebida excessiva e pelo desapego com a família. Ele tenta se aproximar, entender, mas também com poucas palavras e atitudes contidas. Ele se rende a simplesmente segui-lo e deixar que ele fizesse o que bem entendesse. Deixem ele fazer o que quiser, dizia para a mãe e o irmão mais velho, enquanto ele está entre nós.

É interessante notar como os filhos em geral se sentem melhores e mais espertos do que seus pais. Isso é frequente, em qualquer classe social, qualquer país. Não poucos são os casos em que filhos sentem vergonha de seus pais, sejam eles inteligentes, intelectuais, bem sucedidos ou não, não importa. Talvez a exposição, a intimidade invadida resulte numa vontade de enfrentamento. Afinal, quase sempre não resulta em nada e sempre estão juntos mesmo a contragosto.

O filho de Woody, David, foi uma criança bonita e todos confirmam isso. Ainda guarda um certa beleza nos traços de homem maduro, mas é desprovido de motivação para a vida e de sonhos como a maioria dos habitantes de Hawthorne, cidade onde a família de seu pai viveu grande parte da sua juventude.

Seus primos Cole e Bart (Devin Ratray e Tim Driscoll), parecem uma caricatura de quadrinhos. São adultos corpulentos, desocupados, brigões e infantilizados pelos pais.

A cena de todos assistindo televisão na casa do irmão de Woody é antológica e nos faz lembrar de nós mesmos e de nossas famílias. O ar sem expressão dos rostos e a falta absoluta de assunto entre aqueles que se julgam uma família unida é emblemática de uma convivência forçada e insossa.

O antigo sócio de Woody e melhor amigo, Ed Pegram (Stacy Keach) revela-se uma pessoa de caráter duvidoso, aproveitador quando pensa que o amigo ficou rico. Essa mesma ambição toma conta da cidade e todos tentam por meios torpes, extorquir Woody.

Ao perceber que tudo não passava de fantasia, as pessoas o desprezam como sempre o fizeram a vida inteira.

Entretanto, a obstinação de Woody em receber seu prêmio faz com que David decida levá-lo até Lincoln de qualquer jeito.

Ao chegar à loteria, Woody encara a realidade e vê que seu sonho milionário era apenas propaganda enganosa, essa mesma que nos cerca cada vez mais no dia-a-dia.

Sabedor que o pai tinha um pequeno sonho de ter uma picape nova e recuperar um compressor que Ed Pegram havia confiscado dele em pagamento por dívida antiga, ele resolve satisfazer os desejos do pai. Os dois voltam na picape nova já com uma cumplicidade que o pai finalmente reconhece e aceita dividir.

Na volta para casa, Woody passa propositalmente em câmara lenta pelas ruas de Hawthorne, encarando um a um dos seus amigos e parentes para que todos vejam a sua picape nova e pensem que ele efetivamente tinha ganhado o prêmio da loteria.

A beleza do filme está nos seus silêncios, na falta de respostas às poucas perguntas que David faz ao pai na tentativa de encontrar algum sentimento amoroso dentro dele. Por seu lado, ele desenvolve a afeição que julgava perdida, mesmo contra toda a secura e frieza com que seu pai encara a vida.

Payne consegue passar a atmosfera da ausência de compaixão, das amarguras contidas e explicitadas na fragilidade alheia quando podem e convém. É perfeitamente humano e isso é que dá a dimensão de uma obra-prima do cinema como Felini em Noites de Cabíria ou Rocco e Seus Irmãos de Visconti, por exemplo.


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Bateu Um Desânimo

Não tenho publicado nada sobre os acontecimentos recentes de manifestações, porque me desanimei com os resultados daquelas de junho de 2013.

As reivindicações que não tinham eixo central, nem eram organizadas, ficaram pelo caminho. Alguma coisa foi adiante, como o fim do voto secreto no Congresso, mas ainda assim é quase nada perto daquilo pelo que se protestou. Mais uma vez o sistema deu a volta na voz das ruas, como se diz.

Contudo, esse último episódio ocorrido no aumento (novamente) de passagens de ônibus, onde houve confronto (novamente) entre manifestantes e polícia se encerrou de modo trágico com a morte do cinegrafista da BAND, Santiago Andrade.

Fiquei meio paralisado com essa notícia e com medo de emitir opinião sem antes saber muito bem do que estávamos tratando e lidando.

No meio da confusão, nas imediações da Central do Brasil, alguém detonou um rojão que atingiu a cabeça do cinegrafista sem chance de defesa. Ele morreria no quatro dias depois no hospital, causando grande consternação em todo o País.

Os manifestantes que manipulavam o rojão foram identificados (Caio e Fabio) e presos, num processo confuso de denúncias de aliciamento de manifestantes por políticos e movimentos independentes e com o advogado de defesa dos réus, Jonas Tadeu, um ex-defensor de milicianos da zona oeste do Rio de Janeiro.

Tudo parece sem rumo e estamos em pleno ano eleitoral com uma Copa do Mundo no meio. Os interesses que sempre são grandes, neste contexto são maiores ainda.

Assim chegamos a uma situação muito confusa, quando lá pela metade de junho de 2013, pipocaram as manifestações populares pelas principais cidades do Brasil: Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador e Porto Alegre. 

Dizia-se que os movimentos eclodiram pelo aumento de passagens dos ônibus urbanos. De fato o que inicialmente puxou a ida da população para as ruas foi isso.

Contudo, a insatisfação com os serviços públicos básicos de saúde, educação e transporte urbano , há tempos vinha ocupando nossas cabeças e entra ano e sai ano, entra governo e sai governo nada é resolvido. Junte-se a isso a revolta com os escândalos de corrupção que só fazerm crescer em número e valores envolvidos.

O contingente que foi à rua era visivelmente de classe média e não tinha partidos ou sindicatos puxando as manifestações, apenas gente, muita gente gritando os mais diferentes slogans. O que chamava a atenção era a ausência de lideranças, o que sempre puxou esse tipo de coisas.

Um grupo até então desconhecido da maioria chamado Movimento Passe Livre ou MPL apareceu como cabeça da reivindicação contra os aumentos abusivos, mas se absteve de responder pela organização das manifestações como um todo.

Lá pelo terceiro dia de manifestações em São Paulo, a polícia militar resolveu que iria acabar com os protestos na marra e desceu o cacete nos manifestantes, utilizando de violência que lembrava o pior dos anos de chumbo.

Aquilo que tinha sido inicialmente uma corrente meio desordenada de pessoas com muitas facetas tomou uma forma mais definida em face da violência policial. Os políticos até então calados, começaram a sair da toca e a defender os manifestantes. As pessoas até então sem saber do que se tratava direito também começaram a apoiar os protestos, seguidos pela imprensa, televisões e jornais. A repercussão é imediata e em pouquíssimo tempo atinge o noticiário internacional.

No meio disso tudo apareceram outros tipos de grupos, um chamado de Midia Ninja, uma espécie de jornalismo em tempo real e participativo, cobrindo as manifestações no momento exato da sua ocorrência transmitida pela internet.

Outro grupo que apareceu protagonizando enfrentamento direto com a polícia foi o Black Bloc, descendente direto de manifestantes europeus com tintas de anarquismo. Esse grupo usa máscaras para dificultar a ação de identificação da polícia e dar uma não-cara aos seus manifestantes.

A ação é direta de impacto, onde são escolhidos alvos representantes do capitalismo como agências bancárias, empresas de sucesso como MacDonalds e patrimônio público como pontos de ônibus e lixeiras, além de invasões a órgãos públicos.

No Rio de Janeiro as manifestações foram igualmente reprimidas e a reação do governo a pior possível porque também se utilizou da força da polícia indiscriminadamente.

A primeira entrevista do governador Sérgio Cabral acerca das manifestações foi desanimadora. Em cada frase que ele pronunciava, três ou quatro vezes usava as palavras democracia ou democrata na tentativa de arrefecer os ânimos contra o comportamento inadequado e violento da PM do Estado. E quando as perguntas se relacionavam ao sistema de segurança, era evasivo.

Ao ser questionado se o Governo pensava rever os métodos de repressão da PM e utilizar a inteligência ao invés da força ou se os próprios manifestantes teriam que coibir os depredadores. Ele não respondeu, disse que se houvesse vandalismo que a polícia iria agir da mesma forma e que não cabia a ele falar pelos manifestantes.

Perguntado ainda sobre as pouquíssimas pessoas que haviam sido detidas por atos de vandalismo e que ainda não tinham sido identificadas para se fazer a separação dos manifestantes pacíficos com clareza, ele não respondeu e disse que a polícia estava trabalhando nisso. 

Havia e ainda há fortes suspeitas que agentes das próprias polícias se infiltravam nas manifestações para provocar os quebra-quebra. Em várias ocasiões, quando o movimento começava a ser agitado em direção às depredações, a polícia se ausentava e deixava as ruas transformarem-se em praças de guerra.

Percebe-se com clareza que o Governador está apostando no acirramento das ações e no confronto direto com o movimento de manifestações para esvaziá-lo.

O que se viu em seguida foi, Sérgio Cabral se afundar politicamente com a série de escândalos que vieram à tona, envolvendo seu governo, culminando com um “Occupy” em frente à sua casa no Leblon que durou um mês inteiro.

Este ano temos eleições presidenciais e Dilma, apesar de tudo segue em vantagem nas pesquisas de opinião. A população voltou para casa e está descrente das melhorias.

Em Julho a Copa, em outubro as eleições. Vamos ver onde isso acaba!

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Papo Furado

Eu sou velho já, então agora é que começou a cair a ficha da utilização das redes sociais.

MySpace, Orkut, Facebook, Tumblr, Twitter, Instagram, Linkedin, Google+ e tantas outras que existem e estão sendo criadas a cada minuto.

Uma constante no uso das redes é que quase ninguém se preocupa em ler o que o outro escreveu e pensa um pouco antes de rebater e ignorar os argumentos daquele outro.

Outra coisa interessante, é que isso não é privilégio dos jovens, pessoas de todas as idades e perfis aderiram rapidamente ao novo comportamento e quando se trata de algum tema polêmico então, sai de baixo!

Desse modo, o Facebook começa a não satisfazer mais, aí sim, aos mais jovens e o problema se agrava porque no Twitter, são resumos-resumidos, highlights de notícias, de blogs, com apenas opiniões. A tal da hashtag (#) basta, diz tudo.

Argumentar pra quê? Não precisa, todo mundo entendeu.

Não, não entendeu, porque nada é simplista assim.

Não vou falar da escrita resumida e cifrada porque aí vão me botar nas cavernas.

- u q q esse velho tá rclmando?naum intdeu nd krlho!sifude!

O Instagram também não tem argumento (não foi feito para), claro as imagens já dizem tudo, então tá!

A urgência, a ânsia de dar a última palavra em tudo, não permitem raciocínio.

- Ah, mas agora a comunicação é assim, instantânea, papo furado já era!

Pois eu sou do tempo do papo furado. As vezes ficava na porta do meu prédio, conversando com meus amigos das sete horas da noite até meia-noite, sem parar e a cada dia repetia a mesma rotina. Meus pais ficavam desesperados e não entendiam. Mas não era nada, era só papo furado. Aprendi muita coisa com papo furado.

A maioria não lê, mas vê muita série americana que são ótimas, eu também vejo, mas não são tudo. O mundo não se resume a elas.

Também, tem tudo no google! É verdade, mas ninguém quer pesquisar no google coisa nenhuma, sai repetindo qualquer bobagem como se fosse verdade absoluta só porque alguém repassou. Não se preocupam em verificar a informação por mais absurda que seja.

Eu estou comentando isso aqui, mas sou fã da internet, dos seus recursos. Entendo que estamos apenas no começo de uma grande revolução mundial de comunicação da qual estamos participando da história.

Fico maravilhado como em poucos segundos a gente consegue ir da vida das abelhas da Tanzânia até a política externa americana com todos os detalhes, todas as fontes e comentários prós e contras.

Daqui vinte anos o fluxo de informações vai ser gigantescamente maior do que agora e a fluidez disso será além dos terabytes e daí para cima, não tenho a menor dúvida, só não vou estar aí para ver.

É isso. Papo furado bobo, nada a ver!

Bandido Acorrentado a Postes e Intelectuais

Em decorrência dos últimos acontecimentos cada vez mais violentos, como assaltos, crimes e muitos deles envolvendo policiais como autores, muito se tem falado nas redes sociais e na internet em geral, em intelectuais a favor de bandidos, em esquerda caviar e outros adjetivos, querendo fazer crer que a intelectualidade apenas se preocupa e se ocupa de questões que alimentam seus egos e suas vaidades menores, omitindo ou subestimando a realidade das coisas.

O que me chama atenção é que grande parte desses comentários são de jovens (para mim jovem é todo aquele que está abaixo ou com 40 anos) informados e esclarecidos portanto.

Assisti recentemente ao filme “A menina que roubava livros”, um filme delicado e singelo. A cena mais chocante que o filme mostra é a convocação do partido nazista à população para uma cerimônia de queima de livros numa enorme fogueira ao comando do prefeito, na praça central da pequena cidade alemã.

As pessoas entoam hinos, enaltecendo o nazismo e são incitadas e obrigadas a jogarem seus livros sobre a fogueira. O ódio e o desprezo do regime nazista por tudo o que era cultura se chocava diretamente com origem do povo alemão diga-se de passagem. 

Cabe lembrar que a Alemanha é o berço dos filósofos modernos e pensadores ilustres, como Nietzsche, Marx, Engels, Schopenhauer, Freud e muitos outros. Caetano Veloso brincou acerca disso na sua música Lingua, dizendo "está provado que só se pode filosofar em alemão".

O que eu quero frisar é que somos o que somos porque existiram e existem os intelectuais que tornaram a convivência social melhor e mais humanizada. 

Então, ainda bem que existiram Sócrates, Platão, Sartre, Virginia Woolf, Foulcault, Garcia Lorca, Giordano Bruno, Picasso, Charles Chaplin, Pablo Neruda, Rosa de Luxemburgo, Hannah Arendt, Ruy Barbosa, Darcy Ribeiro, Simone de Beauvoir, Caio Abreu, a lista é imensa e extremamente conhecida. Caso contrário, estaríamos ainda nos alimentando de carne crua muito possivelmente das nossas tribos inimigas.

Diminuir, achincalhar o pensamento intelectual é ignorar a nossa própria história e retroceder sim à barbárie.

Acorrentar a postes e espancar pessoas de qualquer cor, estrato social, sexo ou religião, para evidenciarem o seu ódio ao sistema, mesmo que sejam bandidos tem que ser motivo de vergonha à civilização e não de “justiça” ou orgulho.

Se não, estaremos repetindo o mesmo modelo dos criminosos que tanto recriminamos.

Sou contra a pena de morte, os linchamentos de qualquer espécie, a tortura de qualquer um ou a justiça pelas próprias mãos.

Se assim não for e num futuro obscuro, nós, nossos filhos ou amigos, serão as próximas vítimas com ou sem culpa formal.