quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Porque voto!



Época de eleições é sempre a mesma coisa. Todo mundo finge que não se interessa, mas tá lá - com um olho no peixe e o outro no gato. Tem gente que vota por um emprego ou porque talvez seja bom para a sua família ou a de um amigo.

Programa de partido é quase um documento de ficção, ou uma formalidade burocrática para o partido ter acesso à eleição. A torcida por partidos tem ficado muito parecida com a torcida de futebol só que sem a vibração do gol. Não tem muita elaboração é só competição e paixão, mais no caso do futebol, é claro.

Enquanto que no futebol existe a técnica, a estrela e a competência do craque, na política as torcidas se agarram muito a imagem de pessoas quase sempre carismáticas, às vezes caricatas ou os dois ao mesmo tempo. Os exemplos são muitos, mas todo mundo sabe quem são, está no inconsciente coletivo.

Na prática são os interesses oportunistas que contam decisivamente para a consolidação de carreiras brilhantes como temos visto por décadas e décadas. Tem sempre um pai dos pobres, mas que de pobre mesmo só quer os votos.

Afinal, êle ou ela, deu um duro danado para chegar até ali e não vai ficar só se ocupando com desgraça e carência. Isso, o pessoal da militância trata, quando trata.

Essa gente tem que se ocupar com coisas mais nobres, como as alianças para as novas eleições e, claro, pensar no futuro da política, colocando seus filhos e filhas, amantes e amigos no poder.

Vou ficando por aqui nessa ladainha desesperançada porque não gosto de chover no molhado e afinal sou otimista, acredito na política.

O discurso pessimista me parece uma desistência da vida, afinal vivemos nesse país e fazemos parte do mundo real e o mundo real é a política queiramos ou não.

Não me passa pela cabeça considerar o fechamento do Congresso, como muitos revoltados com a política proclamam, por exemplo. Aliás, fechar o Congresso e colocar o que exatamente no lugar?

Aí vem alguém mais reacionário e diz, "ora, chama os militares para colocarem ordem". Não entendi! Não foram êles que ocuparam o poder de sessenta e quatro a oitenta e cinco? Ao contrário, foi justo por isso que ficamos com trinta anos de atraso acumulado. E olha que para nos livrarmos disso demora mais trinta anos. Não, não queremos isso definitivamente!

Quando jovem, era simpatizante da esquerda, em especial dos trotskistas, um grupo inspirado no russo Leon Trotski, comunista e revolucionário. A proposta era espraiar a revolução socialista pelo mundo todo, enquanto que havia outra corrente na esquerda, dos partidos comunistas oficiais que era mais conservadora e se opunha a isso.

Não quero comentar dos descaminhos que sofremos pela esquerda porque não tenho mais paciência, isso é uma tarefa para os jovens, mas de qualquer forma chegamos ao poder, poder central, não é pouca coisa não. Afinal, Fernando Henrique, Lula e Dilma foram oposição, amargaram prisões e exílios e combateram o regime ditatorial militar. Só que depois de tanta história, tanto sacrifício de muitos, a gente tem a sensação que muito pouca coisa mudou.

A maneira de fazer política continua muito igual ao que foi há sessenta, oitenta anos. Mudaram os atores, os cenários econômicos, as certezas ideológicas à esquerda e à direita, mas a essência continua muito parecida.

Os candidatos mais bem intencionados e que não fazem aliança com bandidos acabam marginalizados da grande imprensa, dos debates e não chegam ao Zé da padaria, à Marta de Bentinho, ao Maicon da oficina e por aí vai. Mas é exatamente esse pessoal que elege de vereador a presidente.
 
No entanto, votar ainda é um instrumento muito bom, na minha opinião. Eu tenho a sensação que estou colaborando efetivamente com a história. Digo isso, em função dos últimos trinta anos. Viver muito é bom porque você conta com as condições objetivas que te possibilitam avaliar resultados.

Lá pelos idos dos anos oitenta, o PT despontou como a novidade que a gente chamaria de terceira via. Não era o socialismo disruptivo e já marcado por revoluções nem sempre vitoriosas como as da Russia, Leste Europeu em geral e China. Era um trabalhismo com cara nova, calcado muito no Estado ainda, mas sem os vícios do Getulismo ou do Peronismo, para situar os mais próximos de nós.

A independência dos movimentos sindicais em relação ao Estado era a grande novidade. Isso evitaria o clientelismo, o aparelhamento e principalmente o que chamamos de peleguismo, o servilismo ao poder.

A liderança de Lula foi tão avassaladora que contribuiu e muito para a derrocada da ditadura militar, o que até pouco tempo, a esquerda intelectual e organizada não tinha conseguido apesar de sua luta por anos a fio.

A sua maneira nova de fazer política sem as travas das ideologias ou das manobras partidárias dava outra feição ao cenário político e isso de uma certa forma balançou a sustentação da ditadura. Estava inaugurada uma nova forma de contestação ao regime.

O que se viu em seguida foi a adesão da igreja católica progressista e a agregação de intelectuais e antigos ideólogos de esquerda a Lula e sua nova proposta ou o que êle representava.

Daí para a formação de um novo partido foi um pulo. O nascimento do PT praticamente se fundiu à ansiedade por liberdade de expressão, reestabelecimento de eleições diretas e volta à vontade de fazer política, rompendo com muito tempo de medo de manifestação e de repressão policial.

A totalidade da juventude mais esclarecida da época aderiu integralmente às proposta revigoradas de ética e transparência, parecia que o mundo tinha mudado de vez.

Passei a votar no PT compulsivamente mesmo com as pesquisas indicando quase sempre dez por cento de preferência até que a continuidade da estabilidade democrática nos permitiu, depois do sucesso de Fernando Henrique, logo após o fracasso de Collor e a transição de Itamar, eleger Lula.

Em pouco tempo nós passamos por situações que testaram o sistema nos seus aspectos mais perigosos, inclusive o risco de termos um novo golpe militar.

Primeiro com o impeachment de Collor que resistiu à transição de Itamar sem grandes atropelos e logo depois com a ascenção de FH, antigo inimigo do poder, visto ainda com alguma desconfiança pelas elites, mas salvo pelo Plano Real que possibilitou ao país a tão desejada estabilidade econômica.

O passo seguinte e com o País já amadurecido politicamente foi a vitória de Lula com todas as preocupações subjacentes de uma possível mudança para a esquerda mais radical, mas amparada agora por uma democracia consolidada.

Continuamos com nossa trajetória democrática, agora com Dilma, vista por muitos com a desconfiança de uma continuidade subalterna a Lula, mas que vem surpreendendo positivamente a todos, inclusive a mim, refratário a ela no início.

Costumo dizer que apesar de tudo, tivemos, já no período democrático três presidentes da república, FH, Lula e Dilma, que são um verdadeiro luxo para nossa história republicana.

Se olharmos em volta, em especial para a América Latina, vamos nos deparar com um avanço sem igual, talvez só comparado ao do Chile que de Pinochet chegou a Michelle Bachelet e aos Estados Unidos da América com Obama.

É por essa e outras que eu voto, vou continuar votando até onde eu puder.




































terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Convivência, como é difícil!

Os ditados populares são a melhor tradução para tudo, já dizia o Paulo com a sabedoria de sempre. Então "no início tudo são flores" quando se trata de conhecer alguém que se ama de paixão à primeira vista. Agora, conviver são outros quinhentos, sem designação de moeda, atemporal e atual portanto.

O que nos aproxima são os interesses, não importa se comportamentais, políticos, sexuais, estéticos, de origem, de time de futebol, de classe ou tudo isso junto. O certo é que queremos estar mais próximo do nosso espelho.

Alguns dizem que o ideal é gostar de pessoas de temperamento oposto, mas até que ponto isso é verdade? Porque por mais que julguemos assim, no fundo, no fundo, nós perseguimos a nossa própria imagem.

Aquele amigo, parceiro ou parente vai guardar algum tipo de semelhança conosco queiramos ou não. Eu tenho uma amiga muito querida que quando estamos conversando sobre a vida e as coisas do dia-a-dia e eu fico me queixando disso ou daquilo em relação a um caso qualquer, ela se vira e diz: mas é isso o que temos, não é? 

É assim mesmo, o resto é idealização romântica, contos de fadas. No mundo real as pessoas têm defeitos, são grosseiras às vezes, não têm os mesmos interesses, mas gostam de você assim mesmo e vice-versa.

Uma das situações que resume muito bem isso tudo é a viagem em grupo. 

Quando a gente é novo, geralmente na adolescência, tudo é festa. Geralmente ninguém tem compromisso, os pais resolvem tudo. Então você não arruma nada, não faz comida, não limpa nada. No dia seguinte os empregados fazem tudo e você nem vê, acha normal aquilo acontecer, afinal você nunca fez nada. 

Você acha o máximo dormir embolado com os outros, não ter o mínimo de privacidade, não ter que preparar café ou comida para os outros. Não pode faltar água ou luz e se faltar todo mudo vai embora e pronto, o resto que se dane não é problema meu, foda-se!

Geralmente amigos que se dão muito bem nos bares, no trabalho, marcam viagens em conjunto nos finais de semana ou por tempo maior de férias. Aí é que mora o perigo. Bares, trabalho e restaurantes são episódicos, não são convivência real por mais tempo que gastemos nisso.

Grandes amizades acabam a partir de um simples final de semana. Presenciar as discussões de um casal quase sempre é desagradável, aturar o filho pequeno, ou adolescente deles, pior ainda. Aliás, quem pariu Matheus que o embale, não é assim? Bom, quando a gente está casado, se atura, a regra tem sido assim, mas os outros não têm que aturar, claro!

E as escolhas de passeios, programas noturnos e restaurantes? Se ninguém cede e é o que acontece na maioria das vezes, o clima vai ficando insuportável e você passa a odiar a sua melhor amiga, o seu maior amigão.

Nem o indefectível jogo de cartas serve para apaziguar os ânimos, ao contrário, pode desencadear uma onda de desaforos sem fim e acabar na pior briga do mundo. 

Ver um filme então, é bom? Não, não há consenso quase nunca e você acaba vendo o que não gosta e dorme no meio ou se irrita para o resto da noite.

Mas o bom mesmo é ficar à vontade, bebendo, comendo uns petiscos em frente à piscina ou praia, será? Se alguém não ficar bêbado e colocar tudo a perder pode ser ou se algum filho não passar mal porque comeu demais ou tomou sol demais. Falar de política ou futebol não dá certo nunca porque o álcool liberou a língua e ninguém segura mais nada.

Tem pessoas que se orgulham de proclamar em alto e bom som que são assim e pronto, que são autênticos. Ora, isso é ser intransigente e mal educado. Ninguém é obrigado a tolerar alguém "autêntico", nada pior, nada mais desagradável.

Quer dizer que o ser humano é anti-social por natureza? Quase isso, a gente não está acostumado a ceder em nada, é assim desde sempre. Na minha opinião o que funciona é a cerimônia. Nada como uma boa dose de cerimônia, já dizia minha mãe que sabia viver como ninguém.

É claro que cerimônia em excesso gera desconforto, mas deixar o outro existir sem interferir muito no ambiente geral é uma arte.