terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Bateu Um Desânimo

Não tenho publicado nada sobre os acontecimentos recentes de manifestações, porque me desanimei com os resultados daquelas de junho de 2013.

As reivindicações que não tinham eixo central, nem eram organizadas, ficaram pelo caminho. Alguma coisa foi adiante, como o fim do voto secreto no Congresso, mas ainda assim é quase nada perto daquilo pelo que se protestou. Mais uma vez o sistema deu a volta na voz das ruas, como se diz.

Contudo, esse último episódio ocorrido no aumento (novamente) de passagens de ônibus, onde houve confronto (novamente) entre manifestantes e polícia se encerrou de modo trágico com a morte do cinegrafista da BAND, Santiago Andrade.

Fiquei meio paralisado com essa notícia e com medo de emitir opinião sem antes saber muito bem do que estávamos tratando e lidando.

No meio da confusão, nas imediações da Central do Brasil, alguém detonou um rojão que atingiu a cabeça do cinegrafista sem chance de defesa. Ele morreria no quatro dias depois no hospital, causando grande consternação em todo o País.

Os manifestantes que manipulavam o rojão foram identificados (Caio e Fabio) e presos, num processo confuso de denúncias de aliciamento de manifestantes por políticos e movimentos independentes e com o advogado de defesa dos réus, Jonas Tadeu, um ex-defensor de milicianos da zona oeste do Rio de Janeiro.

Tudo parece sem rumo e estamos em pleno ano eleitoral com uma Copa do Mundo no meio. Os interesses que sempre são grandes, neste contexto são maiores ainda.

Assim chegamos a uma situação muito confusa, quando lá pela metade de junho de 2013, pipocaram as manifestações populares pelas principais cidades do Brasil: Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador e Porto Alegre. 

Dizia-se que os movimentos eclodiram pelo aumento de passagens dos ônibus urbanos. De fato o que inicialmente puxou a ida da população para as ruas foi isso.

Contudo, a insatisfação com os serviços públicos básicos de saúde, educação e transporte urbano , há tempos vinha ocupando nossas cabeças e entra ano e sai ano, entra governo e sai governo nada é resolvido. Junte-se a isso a revolta com os escândalos de corrupção que só fazerm crescer em número e valores envolvidos.

O contingente que foi à rua era visivelmente de classe média e não tinha partidos ou sindicatos puxando as manifestações, apenas gente, muita gente gritando os mais diferentes slogans. O que chamava a atenção era a ausência de lideranças, o que sempre puxou esse tipo de coisas.

Um grupo até então desconhecido da maioria chamado Movimento Passe Livre ou MPL apareceu como cabeça da reivindicação contra os aumentos abusivos, mas se absteve de responder pela organização das manifestações como um todo.

Lá pelo terceiro dia de manifestações em São Paulo, a polícia militar resolveu que iria acabar com os protestos na marra e desceu o cacete nos manifestantes, utilizando de violência que lembrava o pior dos anos de chumbo.

Aquilo que tinha sido inicialmente uma corrente meio desordenada de pessoas com muitas facetas tomou uma forma mais definida em face da violência policial. Os políticos até então calados, começaram a sair da toca e a defender os manifestantes. As pessoas até então sem saber do que se tratava direito também começaram a apoiar os protestos, seguidos pela imprensa, televisões e jornais. A repercussão é imediata e em pouquíssimo tempo atinge o noticiário internacional.

No meio disso tudo apareceram outros tipos de grupos, um chamado de Midia Ninja, uma espécie de jornalismo em tempo real e participativo, cobrindo as manifestações no momento exato da sua ocorrência transmitida pela internet.

Outro grupo que apareceu protagonizando enfrentamento direto com a polícia foi o Black Bloc, descendente direto de manifestantes europeus com tintas de anarquismo. Esse grupo usa máscaras para dificultar a ação de identificação da polícia e dar uma não-cara aos seus manifestantes.

A ação é direta de impacto, onde são escolhidos alvos representantes do capitalismo como agências bancárias, empresas de sucesso como MacDonalds e patrimônio público como pontos de ônibus e lixeiras, além de invasões a órgãos públicos.

No Rio de Janeiro as manifestações foram igualmente reprimidas e a reação do governo a pior possível porque também se utilizou da força da polícia indiscriminadamente.

A primeira entrevista do governador Sérgio Cabral acerca das manifestações foi desanimadora. Em cada frase que ele pronunciava, três ou quatro vezes usava as palavras democracia ou democrata na tentativa de arrefecer os ânimos contra o comportamento inadequado e violento da PM do Estado. E quando as perguntas se relacionavam ao sistema de segurança, era evasivo.

Ao ser questionado se o Governo pensava rever os métodos de repressão da PM e utilizar a inteligência ao invés da força ou se os próprios manifestantes teriam que coibir os depredadores. Ele não respondeu, disse que se houvesse vandalismo que a polícia iria agir da mesma forma e que não cabia a ele falar pelos manifestantes.

Perguntado ainda sobre as pouquíssimas pessoas que haviam sido detidas por atos de vandalismo e que ainda não tinham sido identificadas para se fazer a separação dos manifestantes pacíficos com clareza, ele não respondeu e disse que a polícia estava trabalhando nisso. 

Havia e ainda há fortes suspeitas que agentes das próprias polícias se infiltravam nas manifestações para provocar os quebra-quebra. Em várias ocasiões, quando o movimento começava a ser agitado em direção às depredações, a polícia se ausentava e deixava as ruas transformarem-se em praças de guerra.

Percebe-se com clareza que o Governador está apostando no acirramento das ações e no confronto direto com o movimento de manifestações para esvaziá-lo.

O que se viu em seguida foi, Sérgio Cabral se afundar politicamente com a série de escândalos que vieram à tona, envolvendo seu governo, culminando com um “Occupy” em frente à sua casa no Leblon que durou um mês inteiro.

Este ano temos eleições presidenciais e Dilma, apesar de tudo segue em vantagem nas pesquisas de opinião. A população voltou para casa e está descrente das melhorias.

Em Julho a Copa, em outubro as eleições. Vamos ver onde isso acaba!

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Papo Furado

Eu sou velho já, então agora é que começou a cair a ficha da utilização das redes sociais.

MySpace, Orkut, Facebook, Tumblr, Twitter, Instagram, Linkedin, Google+ e tantas outras que existem e estão sendo criadas a cada minuto.

Uma constante no uso das redes é que quase ninguém se preocupa em ler o que o outro escreveu e pensa um pouco antes de rebater e ignorar os argumentos daquele outro.

Outra coisa interessante, é que isso não é privilégio dos jovens, pessoas de todas as idades e perfis aderiram rapidamente ao novo comportamento e quando se trata de algum tema polêmico então, sai de baixo!

Desse modo, o Facebook começa a não satisfazer mais, aí sim, aos mais jovens e o problema se agrava porque no Twitter, são resumos-resumidos, highlights de notícias, de blogs, com apenas opiniões. A tal da hashtag (#) basta, diz tudo.

Argumentar pra quê? Não precisa, todo mundo entendeu.

Não, não entendeu, porque nada é simplista assim.

Não vou falar da escrita resumida e cifrada porque aí vão me botar nas cavernas.

- u q q esse velho tá rclmando?naum intdeu nd krlho!sifude!

O Instagram também não tem argumento (não foi feito para), claro as imagens já dizem tudo, então tá!

A urgência, a ânsia de dar a última palavra em tudo, não permitem raciocínio.

- Ah, mas agora a comunicação é assim, instantânea, papo furado já era!

Pois eu sou do tempo do papo furado. As vezes ficava na porta do meu prédio, conversando com meus amigos das sete horas da noite até meia-noite, sem parar e a cada dia repetia a mesma rotina. Meus pais ficavam desesperados e não entendiam. Mas não era nada, era só papo furado. Aprendi muita coisa com papo furado.

A maioria não lê, mas vê muita série americana que são ótimas, eu também vejo, mas não são tudo. O mundo não se resume a elas.

Também, tem tudo no google! É verdade, mas ninguém quer pesquisar no google coisa nenhuma, sai repetindo qualquer bobagem como se fosse verdade absoluta só porque alguém repassou. Não se preocupam em verificar a informação por mais absurda que seja.

Eu estou comentando isso aqui, mas sou fã da internet, dos seus recursos. Entendo que estamos apenas no começo de uma grande revolução mundial de comunicação da qual estamos participando da história.

Fico maravilhado como em poucos segundos a gente consegue ir da vida das abelhas da Tanzânia até a política externa americana com todos os detalhes, todas as fontes e comentários prós e contras.

Daqui vinte anos o fluxo de informações vai ser gigantescamente maior do que agora e a fluidez disso será além dos terabytes e daí para cima, não tenho a menor dúvida, só não vou estar aí para ver.

É isso. Papo furado bobo, nada a ver!

Bandido Acorrentado a Postes e Intelectuais

Em decorrência dos últimos acontecimentos cada vez mais violentos, como assaltos, crimes e muitos deles envolvendo policiais como autores, muito se tem falado nas redes sociais e na internet em geral, em intelectuais a favor de bandidos, em esquerda caviar e outros adjetivos, querendo fazer crer que a intelectualidade apenas se preocupa e se ocupa de questões que alimentam seus egos e suas vaidades menores, omitindo ou subestimando a realidade das coisas.

O que me chama atenção é que grande parte desses comentários são de jovens (para mim jovem é todo aquele que está abaixo ou com 40 anos) informados e esclarecidos portanto.

Assisti recentemente ao filme “A menina que roubava livros”, um filme delicado e singelo. A cena mais chocante que o filme mostra é a convocação do partido nazista à população para uma cerimônia de queima de livros numa enorme fogueira ao comando do prefeito, na praça central da pequena cidade alemã.

As pessoas entoam hinos, enaltecendo o nazismo e são incitadas e obrigadas a jogarem seus livros sobre a fogueira. O ódio e o desprezo do regime nazista por tudo o que era cultura se chocava diretamente com origem do povo alemão diga-se de passagem. 

Cabe lembrar que a Alemanha é o berço dos filósofos modernos e pensadores ilustres, como Nietzsche, Marx, Engels, Schopenhauer, Freud e muitos outros. Caetano Veloso brincou acerca disso na sua música Lingua, dizendo "está provado que só se pode filosofar em alemão".

O que eu quero frisar é que somos o que somos porque existiram e existem os intelectuais que tornaram a convivência social melhor e mais humanizada. 

Então, ainda bem que existiram Sócrates, Platão, Sartre, Virginia Woolf, Foulcault, Garcia Lorca, Giordano Bruno, Picasso, Charles Chaplin, Pablo Neruda, Rosa de Luxemburgo, Hannah Arendt, Ruy Barbosa, Darcy Ribeiro, Simone de Beauvoir, Caio Abreu, a lista é imensa e extremamente conhecida. Caso contrário, estaríamos ainda nos alimentando de carne crua muito possivelmente das nossas tribos inimigas.

Diminuir, achincalhar o pensamento intelectual é ignorar a nossa própria história e retroceder sim à barbárie.

Acorrentar a postes e espancar pessoas de qualquer cor, estrato social, sexo ou religião, para evidenciarem o seu ódio ao sistema, mesmo que sejam bandidos tem que ser motivo de vergonha à civilização e não de “justiça” ou orgulho.

Se não, estaremos repetindo o mesmo modelo dos criminosos que tanto recriminamos.

Sou contra a pena de morte, os linchamentos de qualquer espécie, a tortura de qualquer um ou a justiça pelas próprias mãos.

Se assim não for e num futuro obscuro, nós, nossos filhos ou amigos, serão as próximas vítimas com ou sem culpa formal.