Engraçado, o primeiro texto deste blog, em 2010, diz que sou louco por cinema. Hoje revendo algumas publicações vi que o assunto cinema ficou em segundo plano. E como tenho assistido a vários filmes recentes e interessantes, fiquei com vontade de escrever sobre um deles que me impressionou bastante que foi Nebraska.
Poucas vezes vi uma história tão densa sobre as relações pais e filhos como em Nebraska, filme de Alexander Payne, indicado ao Oscar de 2014, em seis categorias, sem ser premiado em nenhuma delas.
Poucas vezes vi uma história tão densa sobre as relações pais e filhos como em Nebraska, filme de Alexander Payne, indicado ao Oscar de 2014, em seis categorias, sem ser premiado em nenhuma delas.
O preto e
branco do filme chama a atenção, nesse nosso mundo onde 3D já é
coisa do passado, porque imprime um clima de vazio das pessoas, dos
lugares, do tema, além de ser uma opção estética bonita quando se
sabe lidar com ela e que é o caso. Aliás, a fotografia preto e
branco dá esse toque de magia que leva a gente para o passado, mesmo
que a história seja passada no presente.
A velhice
de Woody (Bruce Dern), em atuação magnífica, não podia ser mais
melancólica, sem perspectiva e só, apesar da mulher estar viva e
ter dois filhos adultos. Ele é idoso e não se preocupa com a
aparência, mas resiste ao envelhecimento inexorável, levando uma
vida própria e absolutamente só.
A partir
de uma carta propaganda, como uma espécie de fuga da realidade dura,
ele se apega a um prêmio de loteria que bem no fundo sabe não ser
verdadeiro, mas que faz questão de acreditar. Se sentir milionário
por alguns momentos o torna feliz como nunca o fora antes.
Com o seu
filho mais novo, David (Will Forte), empreende uma viagem obstinada à
Lincoln, capital de Nebraska, onde fica a sede da tal loteria que
promete o prêmio de um milhão de dólares ao número sorteado.
Sabemos que essa história de número sorteado é a enganação mais
primária no mundo das falsas propagandas, mas Woody insiste em ver
para crer.
David,
nem tão jovem assim poque já é um adulto “looser” (perdedor)
como eles adoram definir quem tem uma vida comum, é vendedor de loja
de som , está recém-separado e se apega à ideia de levar o pai ao
destino do suposto premio.
O outro
filho, mais velho, Ross (Bob Odenkirk) é casado com duas filhas, bem
sucedido e trabalha como âncora de jornal televisivo na cidade onde
moram. É muito distante e não gosta do pai porque o acha
excessivamente egoísta.
Woody é
uma pessoa que não fala, todos dizem isso dele, não tem gosto pela
vida e nem dos filhos ele quis saber. Bebe muito e é taxado de
alcoólatra pelos conservadores protestantes.
Sua
mulher, Kate (June Squibb), em atuação esplêndida, é católica e
faz disso uma guerra particular com a família protestante do marido.
A todos ela difama e em especial as mulheres que são descritas como
vadias e piranhas por ela. Ela também deprecia o marido que apesar
de ter aprendido mecânica de aviões na guerra, passou a vida
inteira enfiado numa oficina de carros, vagabunda.
O filho,
David, luta contra a contrariedade que o pai lhe dá desde pequeno
pela bebida excessiva e pelo desapego com a família. Ele tenta se
aproximar, entender, mas também com poucas palavras e atitudes
contidas. Ele se rende a simplesmente segui-lo e deixar que ele
fizesse o que bem entendesse. Deixem ele fazer o que quiser, dizia
para a mãe e o irmão mais velho, enquanto ele está entre nós.
É
interessante notar como os filhos em geral se sentem melhores e mais
espertos do que seus pais. Isso é frequente, em qualquer classe
social, qualquer país. Não poucos são os casos em que filhos
sentem vergonha de seus pais, sejam eles inteligentes, intelectuais,
bem sucedidos ou não, não importa. Talvez a exposição, a
intimidade invadida resulte numa vontade de enfrentamento. Afinal,
quase sempre não resulta em nada e sempre estão juntos mesmo a
contragosto.
O filho
de Woody, David, foi uma criança bonita e todos confirmam isso.
Ainda guarda um certa beleza nos traços de homem maduro, mas é
desprovido de motivação para a vida e de sonhos como a maioria dos
habitantes de Hawthorne, cidade onde a família de seu pai viveu
grande parte da sua juventude.
Seus
primos Cole e Bart (Devin Ratray e Tim Driscoll), parecem uma
caricatura de quadrinhos. São adultos corpulentos, desocupados,
brigões e infantilizados pelos pais.
A cena de
todos assistindo televisão na casa do irmão de Woody é antológica
e nos faz lembrar de nós mesmos e de nossas famílias. O ar sem
expressão dos rostos e a falta absoluta de assunto entre aqueles que
se julgam uma família unida é emblemática de uma convivência
forçada e insossa.
O antigo
sócio de Woody e melhor amigo, Ed Pegram (Stacy Keach) revela-se uma
pessoa de caráter duvidoso, aproveitador quando pensa que o amigo
ficou rico. Essa mesma ambição toma conta da cidade e todos tentam
por meios torpes, extorquir Woody.
Ao
perceber que tudo não passava de fantasia, as pessoas o desprezam
como sempre o fizeram a vida inteira.
Entretanto,
a obstinação de Woody em receber seu prêmio faz com que David
decida levá-lo até Lincoln de qualquer jeito.
Ao chegar
à loteria, Woody encara a realidade e vê que seu sonho milionário
era apenas propaganda enganosa, essa mesma que nos cerca cada vez
mais no dia-a-dia.
Sabedor
que o pai tinha um pequeno sonho de ter uma picape nova e recuperar
um compressor que Ed Pegram havia confiscado dele em pagamento por
dívida antiga, ele resolve satisfazer os desejos do pai. Os dois
voltam na picape nova já com uma cumplicidade que o pai finalmente
reconhece e aceita dividir.
Na volta
para casa, Woody passa propositalmente em câmara lenta pelas ruas de
Hawthorne, encarando um a um dos seus amigos e parentes para que
todos vejam a sua picape nova e pensem que ele efetivamente tinha
ganhado o prêmio da loteria.
A beleza
do filme está nos seus silêncios, na falta de respostas às poucas
perguntas que David faz ao pai na tentativa de encontrar algum
sentimento amoroso dentro dele. Por seu lado, ele desenvolve a
afeição que julgava perdida, mesmo contra toda a secura e frieza
com que seu pai encara a vida.
Payne
consegue passar a atmosfera da ausência de compaixão, das amarguras
contidas e explicitadas na fragilidade alheia quando podem e convém.
É perfeitamente humano e isso é que dá a dimensão de uma
obra-prima do cinema como Felini em Noites de Cabíria ou Rocco e
Seus Irmãos de Visconti, por exemplo.