Os ditados populares são a melhor tradução para tudo, já dizia o Paulo com a sabedoria de sempre. Então "no início tudo são flores" quando se trata de conhecer alguém que se ama de paixão à primeira vista. Agora, conviver são outros quinhentos, sem designação de moeda, atemporal e atual portanto.
O que nos aproxima são os interesses, não importa se comportamentais, políticos, sexuais, estéticos, de origem, de time de futebol, de classe ou tudo isso junto. O certo é que queremos estar mais próximo do nosso espelho.
Alguns dizem que o ideal é gostar de pessoas de temperamento oposto, mas até que ponto isso é verdade? Porque por mais que julguemos assim, no fundo, no fundo, nós perseguimos a nossa própria imagem.
Aquele amigo, parceiro ou parente vai guardar algum tipo de semelhança conosco queiramos ou não. Eu tenho uma amiga muito querida que quando estamos conversando sobre a vida e as coisas do dia-a-dia e eu fico me queixando disso ou daquilo em relação a um caso qualquer, ela se vira e diz: mas é isso o que temos, não é?
É assim mesmo, o resto é idealização romântica, contos de fadas. No mundo real as pessoas têm defeitos, são grosseiras às vezes, não têm os mesmos interesses, mas gostam de você assim mesmo e vice-versa.
Uma das situações que resume muito bem isso tudo é a viagem em grupo.
Quando a gente é novo, geralmente na adolescência, tudo é festa. Geralmente ninguém tem compromisso, os pais resolvem tudo. Então você não arruma nada, não faz comida, não limpa nada. No dia seguinte os empregados fazem tudo e você nem vê, acha normal aquilo acontecer, afinal você nunca fez nada.
Você acha o máximo dormir embolado com os outros, não ter o mínimo de privacidade, não ter que preparar café ou comida para os outros. Não pode faltar água ou luz e se faltar todo mudo vai embora e pronto, o resto que se dane não é problema meu, foda-se!
Geralmente amigos que se dão muito bem nos bares, no trabalho, marcam viagens em conjunto nos finais de semana ou por tempo maior de férias. Aí é que mora o perigo. Bares, trabalho e restaurantes são episódicos, não são convivência real por mais tempo que gastemos nisso.
Grandes amizades acabam a partir de um simples final de semana. Presenciar as discussões de um casal quase sempre é desagradável, aturar o filho pequeno, ou adolescente deles, pior ainda. Aliás, quem pariu Matheus que o embale, não é assim? Bom, quando a gente está casado, se atura, a regra tem sido assim, mas os outros não têm que aturar, claro!
E as escolhas de passeios, programas noturnos e restaurantes? Se ninguém cede e é o que acontece na maioria das vezes, o clima vai ficando insuportável e você passa a odiar a sua melhor amiga, o seu maior amigão.
Nem o indefectível jogo de cartas serve para apaziguar os ânimos, ao contrário, pode desencadear uma onda de desaforos sem fim e acabar na pior briga do mundo.
Ver um filme então, é bom? Não, não há consenso quase nunca e você acaba vendo o que não gosta e dorme no meio ou se irrita para o resto da noite.
Mas o bom mesmo é ficar à vontade, bebendo, comendo uns petiscos em frente à piscina ou praia, será? Se alguém não ficar bêbado e colocar tudo a perder pode ser ou se algum filho não passar mal porque comeu demais ou tomou sol demais. Falar de política ou futebol não dá certo nunca porque o álcool liberou a língua e ninguém segura mais nada.
Tem pessoas que se orgulham de proclamar em alto e bom som que são assim e pronto, que são
autênticos. Ora, isso é ser intransigente e mal educado. Ninguém é
obrigado a tolerar alguém "autêntico", nada pior, nada mais
desagradável.
Quer dizer que o ser humano é anti-social por natureza? Quase isso, a gente não está acostumado a ceder em nada, é assim desde sempre. Na minha opinião o que funciona é a cerimônia. Nada como uma boa dose de cerimônia, já dizia minha mãe que sabia viver como ninguém.
É claro que cerimônia em excesso gera desconforto, mas deixar o outro existir sem interferir muito no ambiente geral é uma arte.
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