Discutir
sobre Deus é difícil quando a gente vive cercado de religiosos por
todos os lados. Alguns nem tão fervorosos assim, mas com muito medo
de que algo venha lhes acontecer e quando se fala alguma coisa sobre o assunto,
a pessoa logo diz: “mas em Deus você acredita, não é?” Se a
resposta é não, o mundo literalmente desaba sobre a sua cabeça e
uma enxurrada de dogmas, afirmações e “provas” da existência
de Deus são bradadas a plenos pulmões.
Como eu sou ateu praticante saio sempre chamuscado dessas discussões, mas em verdade não travo uma discussão dessas há muito tempo. Houve uma época em que eu, impulsionado pelo meu socialismo científico, tentava que as pessoas pelo menos ouvissem os argumentos, mas nunca tive êxito.
Contudo, meu ateísmo não advem da política ou por um mundo romanticamente melhor, vem da minha infância mesmo. Criado em uma família católica-apostólica-romana, como minha mãe se definia, eu fui até a crisma, sacramento de confirmação do batismo. Eu tinha que ir à missa quase sempre, isso dos sete aos doze anos que eu me lembre.
Peguei a missa em latim, é claro, e ficava simplesmente boiando nos significados daquela cantilena, apesar dos roteiros impressos e das explicações carolas da minha mãe. O momento mais tenso para mim era a hora da comunhão em que todos se ajoelhavam e o padre levantava o cálice de vinho e a hóstia que era servida em seguida a quem tinha se confessado. Era uma vontade quase incontrolável de rir naquele momento mais sagrado.
Eu sempre imaginava que o inferno estava garantido, reservado para mim, só por aquele comportamento ímpio.
Ah, mas tinha uma coisa que eu adorava nas missas que eram as músicas, quase sempre de Bach e o órgão de tubos. Isso para mim foi definitivo e eu me dediquei à música a vida toda. Taí, música, para mim é sagrada!
No entanto, o que mais me marcou e talvez tenha sido responsável tão cedo pela minha descrença na religião e seus rituais foram as comemorações da Semana Santa. Não sei se isso é feito ainda hoje, mas quando eu era criança e ia, ora na Igreja do Outeiro da Glória, linda e ora, na Igreja de Nossa Senhora da Glória no Largo do Machado, em ambas havia a visitação ao Senhor Morto, na sexta-feira santa.
Formava-se uma fila para a contemplação do corpo de Cristo morto após a crucificação. Uma imagem de tamanho natural deitada, coberta por um fino lençol que estrategicamente deixava ver as marcas da tortura no corpo. Se aquilo era para causar algum tipo de pânico, medo, êles conseguiram. Depois que eu cresci, percebi que era apenas um espetáculo mórbido e de extremo mau gosto.
A ideia de pecado e o ato da confissão associados à culpa mais ancestral, quase sempre relativos a sexo ou mesmo pensamentos sobre sexo era recorrente. Isso como forma de castigo e culpa quando se está em plena adolescência chega a ser criminoso.
As perguntas eram muitas: Como alguém podia ressuscitar e subir aos céus? Que céus?; Como alguém se declara filho de Deus e todos acreditam? Cristo não foi gerado como todo mundo, mas surgiu assim do nada? Maria era virgem? José não era seu pai de fato? As explicações, como não existem no mundo real, vinham do dogmas, das crenças. Bom, por aí só resta mesmo crer em Deus e que tudo pode acontecer se Ele assim o desejar, não é? Repararam no "ele"? É mais fácil, não tem explicação e pronto.
Em qualquer situação essas explicações se aplicam. A pessoa sofre de um câncer e faz sessões de quimio-terapia, cirurgias e toma remédios. Aí vem alguém e diz, “foi um milagre, graças a Deus você está bem. Ora, e a quimio, os remédios, os médicos e as cirurgias? Nada disso conta? Um dia eu ouvi de um médico a seguinte frase ao ouvir da mãe do paciente dizer que "graças a Deus seu filho tinha melhorado". Ele disse: “ bom, eu acho que tive alguma responsabilidade aí, não é não? A mãe do paciente sorriu amarelo, mas continuou com a sua convicção de fé inabalável. Fazer o quê?
E se a pessoa morre, logo se diz: “Foi Deus que assim quis”. Então está certo, se está bom foi Deus, se não está, foi Deus também. É fácil não é? Poxa, você é um homem de pouca fé, um incrédulo! Não, é que não dá para discutir sem o mínimo de lógica.
Ainda tem aquela piada que diz que se Deus existisse, campeonato baiano terminava empatado.
Para piorar a história para nossas cores, todo mundo pensa que um ateu é uma pessoa empedernida, sem sensibilidade, voltada ao materialismo, sem fé portanto. Nada disso é verdade! Esse negócio de ter fé a qualquer custo não dá. Bom, aí estão os discípulos do Islã que acreditam que sejamos todos, inclusive os de outras crenças, uns infiéis. Vai dizer que não!
Mas tudo bem, cada um acredita no que quiser e eu não acredito em nada, fica melhor assim e ninguém briga.
Como eu sou ateu praticante saio sempre chamuscado dessas discussões, mas em verdade não travo uma discussão dessas há muito tempo. Houve uma época em que eu, impulsionado pelo meu socialismo científico, tentava que as pessoas pelo menos ouvissem os argumentos, mas nunca tive êxito.
Contudo, meu ateísmo não advem da política ou por um mundo romanticamente melhor, vem da minha infância mesmo. Criado em uma família católica-apostólica-romana, como minha mãe se definia, eu fui até a crisma, sacramento de confirmação do batismo. Eu tinha que ir à missa quase sempre, isso dos sete aos doze anos que eu me lembre.
Peguei a missa em latim, é claro, e ficava simplesmente boiando nos significados daquela cantilena, apesar dos roteiros impressos e das explicações carolas da minha mãe. O momento mais tenso para mim era a hora da comunhão em que todos se ajoelhavam e o padre levantava o cálice de vinho e a hóstia que era servida em seguida a quem tinha se confessado. Era uma vontade quase incontrolável de rir naquele momento mais sagrado.
Eu sempre imaginava que o inferno estava garantido, reservado para mim, só por aquele comportamento ímpio.
Ah, mas tinha uma coisa que eu adorava nas missas que eram as músicas, quase sempre de Bach e o órgão de tubos. Isso para mim foi definitivo e eu me dediquei à música a vida toda. Taí, música, para mim é sagrada!
No entanto, o que mais me marcou e talvez tenha sido responsável tão cedo pela minha descrença na religião e seus rituais foram as comemorações da Semana Santa. Não sei se isso é feito ainda hoje, mas quando eu era criança e ia, ora na Igreja do Outeiro da Glória, linda e ora, na Igreja de Nossa Senhora da Glória no Largo do Machado, em ambas havia a visitação ao Senhor Morto, na sexta-feira santa.
Formava-se uma fila para a contemplação do corpo de Cristo morto após a crucificação. Uma imagem de tamanho natural deitada, coberta por um fino lençol que estrategicamente deixava ver as marcas da tortura no corpo. Se aquilo era para causar algum tipo de pânico, medo, êles conseguiram. Depois que eu cresci, percebi que era apenas um espetáculo mórbido e de extremo mau gosto.
A ideia de pecado e o ato da confissão associados à culpa mais ancestral, quase sempre relativos a sexo ou mesmo pensamentos sobre sexo era recorrente. Isso como forma de castigo e culpa quando se está em plena adolescência chega a ser criminoso.
As perguntas eram muitas: Como alguém podia ressuscitar e subir aos céus? Que céus?; Como alguém se declara filho de Deus e todos acreditam? Cristo não foi gerado como todo mundo, mas surgiu assim do nada? Maria era virgem? José não era seu pai de fato? As explicações, como não existem no mundo real, vinham do dogmas, das crenças. Bom, por aí só resta mesmo crer em Deus e que tudo pode acontecer se Ele assim o desejar, não é? Repararam no "ele"? É mais fácil, não tem explicação e pronto.
Em qualquer situação essas explicações se aplicam. A pessoa sofre de um câncer e faz sessões de quimio-terapia, cirurgias e toma remédios. Aí vem alguém e diz, “foi um milagre, graças a Deus você está bem. Ora, e a quimio, os remédios, os médicos e as cirurgias? Nada disso conta? Um dia eu ouvi de um médico a seguinte frase ao ouvir da mãe do paciente dizer que "graças a Deus seu filho tinha melhorado". Ele disse: “ bom, eu acho que tive alguma responsabilidade aí, não é não? A mãe do paciente sorriu amarelo, mas continuou com a sua convicção de fé inabalável. Fazer o quê?
E se a pessoa morre, logo se diz: “Foi Deus que assim quis”. Então está certo, se está bom foi Deus, se não está, foi Deus também. É fácil não é? Poxa, você é um homem de pouca fé, um incrédulo! Não, é que não dá para discutir sem o mínimo de lógica.
Ainda tem aquela piada que diz que se Deus existisse, campeonato baiano terminava empatado.
Para piorar a história para nossas cores, todo mundo pensa que um ateu é uma pessoa empedernida, sem sensibilidade, voltada ao materialismo, sem fé portanto. Nada disso é verdade! Esse negócio de ter fé a qualquer custo não dá. Bom, aí estão os discípulos do Islã que acreditam que sejamos todos, inclusive os de outras crenças, uns infiéis. Vai dizer que não!
Mas tudo bem, cada um acredita no que quiser e eu não acredito em nada, fica melhor assim e ninguém briga.
Nenhum comentário:
Postar um comentário