Há vários tipos de ideologias, como de religiões, por exemplo, mas desde sempre quando a gente fala em ideologia, nos referimos aos pólos formados lá pelo final do século dezoito (1789), a partir da revolução francesa, mãe de todas as revoluções modernas. Ou seja, o contra-ponto entre a direita reacionária, dona dos meios de produção, vinda das classes abastadas da nobreza e da esquerda revolucionária, vinda do povo oprimido e dos intelectuais idealistas. Dentro desse quadro, o absolutismo de Luiz XVI foi derrubado em um país central da Europa como a França, trazendo as mudanças sociais com os princípios universais que viraram história, “ liberdade, fraternidade e igualdade”. Os revolucionários tinham conseguido por fim a um período de grave injustiça social, prometendo uma verdadeira tomada do poder pelo povo oprimido.
No entanto, o que se viu em seguida, já com Napoleão em pouquíssimo espaço de tempo (mais ou menos 20 anos), foi a ascensão de um governo burguês, um período de ditadura militar e logo depois o retorno à monarquia. Claro que isso tudo se passou com muita luta política, muitas execuções sumárias de ambos os lados, mas deu origem ao que se chama até hoje de direita e esquerda. Dessa época ainda, se diz que essa denominação vinha da posição que os pobres e os ricos se sentavam nas igrejas durante as missas. Ricos à direita e pobres à esquerda da nave principal.
A Europa, líder mundial e dona da maioria da riqueza mundial, se digladiava entre uma guerra e outra, no debate acirrado com o que se chamaria mais tarde de capitalismo e socialismo científico, este último liderado por Karl Marx e Friedrich Engels. Marx, que além de exímio analista político, trafegava pela matemática com absoluta desenvoltura, pelas ciências sociais, pela economia e pela filosofia, era uma espécie de cinco em um.
Em 1917 acontece outra revolução que mudaria para sempre a feição da Europa que foi a revolução bolchevique Russa que vai configurar um pólo vigoroso de poder da esquerda no mundo. Essa hegemonia só seria abalada por outro gigante, a China que consolida a sua revolução comunista em 1949. A ideologia nesse sentido, perdurou por mais dois séculos, refletida ainda nos países periféricos da Ásia e na América Latina, sendo que a de Cuba e a última importante, ficou imortalizada como a mais romântica, com Che Guevara, " hay que endurecerse pero sin perder la ternura, jamas! ". Não dá para deixar de citar frase célebre.
Quando criei consciência política (se dizia assim naquela época), lá pelos meus vinte e dois anos, ainda em um período de exceção política, que vivemos a partir de 1964, imediatamente aderi às teses de um mundo melhor e mais igualitário. Nos chamavam de inocentes úteis. Por meu lado, eu não tinha nada de inocente e muito menos de útil, mas eu sabia onde eles queriam chegar com isso, era a desqualificação das nossas lutas, só isso. Eu não ligava e aprendi por mim mesmo a ler nas entrelinhas o limite do que era sincero e aquilo que era só figura de retórica.
As várias mudanças que aconteciam no mundo eram conhecidas mais por relatos de quem vivia muito perto das lutas de poder do que pela mídia em si, sempre comprometida com seus sistemas locais que sufocavam as oposições. As propagandas de um lado e de outro, encobriam o que realmente acontecia. Se de um lado o capitalismo usava e abusava do direito de mentir sobre apropriações indébitas, delações infames em nome dos regimes de esquerda, os socialistas se ufanavam de uma sociedade que não existia na realidade, porque não tinham conseguido erradicar a pobreza e a liberdade de expressão inexistia ou andava muito mal.
A juventude, com seu ímpeto natural, pegou a bandeira esquerdista para ela e defendeu a revolução com unhas e dentes. Muitos deram literalmente suas vidas, outros foram presos e torturados sem ter direito a qualquer processo de defesa. Quando faziam algum julgamento, geralmente era forjado, apenas para propaganda enganosa junto a opinião pública. Os militares e policiais envolvidos em torturas e prisões ilegais jamais foram punidos. Em muitos casos foram promovidos ou afastados para lugares seguros aqui ou no exterior.
O auge do regime autoritário brasileiro é atingido no período entre 1968, pós Ato Institucional nº 5 e o ano de 1973, do Governo do General Médici. Com a distensão proposta pelo General Golbery, no governo do General Geisel, o País começa a voltar para os eixos, para em 1979 decretar a anistia política, permitindo o retorno dos exilados. Esse processo se estendeu por mais 5 anos, já no Governo do General Figueiredo, terminando nas eleições ainda indiretas, em 1985, mas com grande participação popular pelas eleições diretas em 1984 e que para imensa frustração geral, acabaram não ocorrendo.
Em 1979, ocorre a primeira grande greve geral, no ABC paulista. Até então as greves eram proibidas e violentamente reprimidas. Essa também o foi, mas um líder metalúrgico, Lula, surgia com grande força e carisma e a greve marcou o início do desmonte da repressão como se conhecia desde 1964. A população apoiou, os intelectuais e políticos tiraram as mordaças e se posicionaram. O País começou a mudar.
Durante a década de oitenta, o País passou pelo que se chamou de uma ressaca democrática, com o restabelecimento das eleições diretas em todos os níveis, dos partidos políticos, a participação de todos e os matizes ideológicos começaram também a aparecer e se diferenciar. Acabou aquela solidariedade contra a ditadura. De lá para cá, é cada um no seu quadrado.
Esse processo de algum modo parecido se passa no resto do mundo, enquanto nós saíamos de um período de ditadura de mais de vinte anos, a Europa experimentava o fim real do período da segunda guerra mundial, passando por mudanças de orientação política, onde se viu a alternância ente direita e esquerda em vários governos de países importantes como França, Inglaterra, Alemanha, Itália, Espanha e Portugal.
A África, com um atraso secular imposto pelos países centrais da Europa, começa um processo radical e nem sempre ideal de libertação e de governos próprios. O Japão se transforma no grande líder capitalista da Ásia e a China começa a redesenhar seu projeto de poder e liderança mundial, sem mudar o seu regime político centralizador, ajudando a derrubar ditaduras, como a do Camboja, antes aliadas.
Depois da queda do muro de Berlim, em 1989, até meados dos anos noventa, bem como o fim da toda poderosa União Soviética em 1991, todo esse universo ainda se equilibrava entre esquerda e direita. Entre capitalismo e socialismo. É claro que as condições objetivas, como se dizia nos movimentos de esquerda, continuavam e continuam dadas. As questões antes tidas como dadas eram a miséria das massas e a dominação capitalista, o que tem mudado muito nos últimos vinte anos.
O capitalismo mudou, não porque seja bonzinho, mas sim porque os movimentos sociais cresceram imensamente e êle teve que se curvar aos novos dias por pura sobrevivência. As recentes crises financeiras estão aí para provar a sua fragilidade e necessidade de maiores e mais austeros controles por parte dos Estados e da sociedade. No entanto, hoje as questões centrais, queiram ou não direita e a esquerda, são o meio ambiente e os direitos humanos. De outro lado, as questões mais básicas da ideologia tradicional não sobreviveram. Nem Chaves com seu tardio socialismo moreno, que Brizola e Darcy Ribeiro tentaram pilotar com muito mais talento, conseguiu empolgar o mundo. Nem os rompantes das ameaças direitistas a reboque das crises econômicas, conseguiram contagiar os descontentes, como na Segunda Guerra. O populismo de direita perdeu espaço, ainda bem! Algumas vezes a direita ganha eleições, mas tem que se controlar, como estamos vendo Sarkozy (sempre a França em cartaz).
Eu me lembro dos meus tempos de PT, (foram 21 anos ao todo) em que eu costumava dizer aos meus adversários políticos que a minha crítica em relação ao Lula era pela esquerda e ninguém entendia muito, mas é que esse conceito era sério para a gente. É óbvio que eu não queria que o socialismo fosse implantado de uma hora para outra e ponto. Essa forma de falar "pela esquerda" queria dizer que o compromisso com a ética, contra o fisiologismo, contra a velha política era inegociável, por exemplo.Uma coisa curiosa aconteceu de uns tempos para cá. Gente que votava na direita sempre passou a gostar do Lula e eu passei a não votar mais no Lula. Na última votação para presidente fui de Marina no primeiro turno e de Serra no segundo turno. O mundo dá voltas e como dá!
As novas gerações do mundo ocidental não estão mais preocupadas com as revoluções, ao contrário elas são refratárias a isso. O que não quer dizer que se alienaram completamente com pensam alguns, mas que enxergam o mundo de uma maneira diferente, bem diferente e não por isso menor ou pior que a nossa. O debate ideológico mudou de foco, para dizer uma palavra que eles usam e gostam muito. O individualismo e não a individualidade, talvez tenha chegado a patamares extremos, é verdade, mas isso já, já, vai se acomodar também, porque o espaço físico não mudou e esse é de todos queiram ou não. Há quem diga que a ideologia acabou. Ou será que ela apenas mudou de nome? Se tem uma coisa que eu aprendi, é que nada é imutável ou para sempre, as idéias e os ideais mudam, ainda bem!
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