quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Anitta e a Homofobia Explícita


Começo pela Anitta, uma moça do subúrbio carioca que recentemente estourou nas paradas de sucesso com uma música simples, mas de apelo popular bastante grande e de uma coreografia contagiante, principalmente para as crianças e adolescentes que adoram imitá-la.

Anitta não é loura, nem fez Tablado e não é tão bonita como a Kelly Key, outra cantora de sucessos instantâneos da faixa teen, mas caiu no gosto popular.

Eu, morador da zona sul carioca, criado à base de Tom e Vinicius e Rock inglês, onde se cunhou o termo “brega”, tirado de empregada doméstica, confesso que sofri arrepios preconceituosos quando vi a moça na internet com milhões de acessos e vendendo milhões de cds.

Falando em preconceito, o termo “paraíba” para tudo o que é de mau gosto, é usado por nós cariocas com frequência, como o fazem os paulistas com “baiano” para o mesmo fim, mas vamos ficar por aqui porque caso contrário não sobrará espaço suficiente para o que interessa no momento.

Voltando à Anitta, verifiquei para meu espanto, que sua coreografia não é sexosa como tantas outras do gênero. A batida que se optou por chamar de “funk” é pulsante, vigorosa e faz qualquer um se mexer. Sabemos o que a mídia mainstream faz com tudo o que pode virar “produto” instantâneo e logo nos lembramos de vários casos que depois de algumas décadas viraram cults e aceitos no Baixo-Leblon ou na Lapa para ser mais atual.

Até aqui se repete o preconceito e a luta de classes que jamais teve fim no Rio entre a Zona Sul e o Subúrbio (tudo o que fica depois do túnel Rebouças) ou entre favela e asfalto.

Contudo, dessa vez apareceu um novo componente de preconceito muito em moda que é da homofobia explícita gerada por um vídeo caseiro da internet, onde um menino de seus cinco ou seis anos dança a música de Anitta durante uma festa.

Logo o video se espalhou pela internet com os mais terríveis insultos ao garoto e a sua família por deixarem o menino fazer espetáculo tão degradante, segundo os comentários mais suaves.

O que me chamou a atenção de início é que os comentários mais agressivos vieram das mães jovens, na faixa dos trinta anos, que se sentiram ofendidas pelo video, dizendo que o menino sairia dali esvoaçando como uma libélula deslumbrada e que obviamente se tornaria gay e seria massacrado pelos amigos na escola. Insultos como “veadinho”, “bichinha escandalosa”, “boiolinha”(aqui se nota uma ponta de ternura de mãe) foram frequentes nos comentários mais tensos. Algumas sugeriram que uma boa surra no menino colocaria as coisas no lugar. Um horror!

Outros mais “politizados” sugeriam que essa calamidade de maus costumes era originado pela mídia, em especial a Rede Globo que sempre é culpada por tudo de mal que aparece na sociedade. Mas nesse caso, o temor de que seus filhos homens (vale o pleonasmo), tornarem-se gays, por influência da música e coreografia satânicas da Anitta foi muito mais emblemático.

A homofobia delas superou em muito a dos homens que obviamente também desceram o pau(com duplo sentido, por favor) no garoto.

Eu me lembro de algo parecido quando Ney Matogrosso surgiu no Secos e Molhados e igualmente foi um sucesso retumbante, sendo imitado por muitos meninos nos seus trejeitos rebolativos para desespero dos pais. A minha geração que se dizia libertária também emitiu comentários homofóbicos muito parecidos com esse fenômeno da Anitta atual. Eu me lembro de alguns casos de filhos de amigos meus e que por sinal não se “tornaram” gays.

Bom, eu acho que o mundo se tornou mais careta sem dúvida e o moralismo voltou com toda a força a nossa volta. A ponto de algumas pessoas mais agressivas e violentas dizerem que hoje vivemos sob uma ditadura gay. Mais nonsense impossível.

Nenhuma pessoa, afirmo com convicção, “vira” gay ou lésbica. Isso não é uma opção, nunca foi. Seria o mesmo que alguém quisesse optar por ser canhoto, ter olhos azuis. É tudo ficção, não faz sentido.

Então não é uma música, uma dança, uma coreografia ou uma roupa que vai determinar a orientação sexual de ninguém. Até porque sabemos que inúmeras pessoas de aparência dita normal são gays ou lésbicas e mantém uma vida dupla perante a sociedade sem jamais serem “descobertos”.

Enfim, é de criança que se aprende a respeitar os outros, então as mamães tão zelosas com a sexualidade dos filhos tem que, ao contrário da repressão e humilhação explícitas, procurar serem verdadeiras e apoiar seus filhos caso eles efetivamente se revelem gays ou lésbicas ou qualquer outra categoria sexual, porque também sabemos que a diversidade sexual não acaba aí, são muitas formas de expressão e todas, eu disse todas, válidas, humanas.

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