quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Caetano Veloso sobre Lurdinha

Há muita gente que antipatiza com Caetano Veloso. Suas posturas pessoais avançadas, suas opiniões políticas polêmicas, seus pitis públicos e até sua arrogância leonina assumida, talvez expliquem essa antipatia. Eu, ao contrário, sempre gostei dele e sempre tentei tirar das suas declarações polêmicas, algo que estivesse nas entrelinhas, como a ânsia de ver mudar as coisas, progredir, fazer bem, tão evidente no seu trabalho musical. Enfim, me identifico cada vez mais com êle.

Quando ouvi o disco Caetano Veloso 1969, álbum branco, lembro-me do grito de Gil, saudando Marighella, ao fundo de Alfômega. A menção a Marighella, uma das personalidades mais perseguidas pelos militares, era para mim e para meus amigos de engajamento na esquerda, quase a revolução em pessoa.

Já a esquerda, por seu lado, menosprezava os baianos, quase os hostilizava, mas eu sabia que êles, para mim, garoto de vinte e poucos anos, traduziam com paixão a revolução dentro da revolução.

Gil e Caetano principalmente, por terem uma postura avant garde, com a aproximação e entendimento com o Rock, que vivia seu auge, junto com o declarado amor incondicional por João Gilberto e ainda com o resgate de canções brasileiras antigas com nova roupagem, conquistavam definitivamente a juventude para o lado deles. Uma juventude libertária se formaria a partir de então.

Durante muitos anos, Caetano meio que omitia a sua convivência e simpatia pela esquerda dos tempos estudantis da Universidade Federal da Bahia, onde cursava filosofia. Por vezes, com motivação de sobra para tanto, disse que não se interessava por política. Nada como o tempo para amenizar o que a gente achou definitivo um dia.  Enfim, após Verdade Tropical, seu livro de depoimentos reveladores e muito verdadeiros, Caetano começa a liberar suas histórias de um período ainda longe dos holofotes da mídia, nos contando histórias de pura emoção.

O recente depoimento de Caetano sobre Lurdinha, publicado na sua coluna dominical de O Globo, é tão bonito, devotado, profundo, que imagino que ela tenha ficado muito feliz. O seu texto, como sempre bem escrito, com detalhes bem escolhidos como só a boa prosa pode produzir, está anexado abaixo para a conferência e apreciação dos leitores.

Não conheço Lurdinha, é claro, mas como tantos outros, tive amigos ligados aos movimentos de resistência à ditadura militar de 1964, que desapareceram, foram torturados ou foram presos. Recentemente, perdi a minha grande paixão da vida toda que participou de um desses movimentos "armados" que eu diria "amados" posto que se tratava de verdadeira doação da sua juventude a um projeto de solidariedade com um futuro pleno de esperança, de igualdades de oportunidades para todos. Logo um turbilhão de imagens e pensamentos tomou conta da minha cabeça e uma saudade boa me aqueceu o coração. Obrigado Caetano.


CAETANO VELOSO - Lurdinha – publicado pelo O Globo - 11/09/11

Paulinha Lavigne, que foi minha mulher e é minha empresária (portanto tem de me conhecer um bocado), riu muito ao me ler aqui contando que quase colaborei com a luta armada. Mesmo Dedé, que era minha mulher no tempo em que essas coisas se deram (e que é minha amiga queridíssima), poderá ter se surpreendido: não me lembro de ter dito a ela sobre o esboço de combinação que fiz com Lurdinha de dar apoio logístico à guerrilha. Ambas devem estranhar que um banana de pijama como eu, que, como disse o brilhante Lobão numa pocket-palestra, toca violão como quem está tomando um cafezinho (embora eu não tome cafezinho), pudesse estar ligado, ainda que remotamente, a atos de violenta bravura.

Lurdinha era minha colega de sala na faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia. A turma era muito pequena. Os professores não despertavam entusiasmo. O interesse em ir à faculdade se centrava nos encontros com Wladimir Carvalho e Fernando Kraichete e nas conversas com Rose Foly no Diretório Acadêmico. Lurdinha, no entanto, com sua genuína vocação para a disciplina, assistia às aulas e executava as tarefas curriculares com pontualidade. Várias vezes ela foi me buscar em casa, fazendo arrancarem-me da cama às pressas, para que eu não perdesse uma prova. Ela era comunista e olhava com benevolência meu jeito boêmio.

Wladimir também era comunista. Todos os meus amigos na faculdade — e fora dela — eram de esquerda. Nenhum iria ao Cine Roma assistir a um show de rock de Raulzito e os Panteras. Íamos ao clube de cinema, ao MAM, ao Teatro dos Novos, aos concertos da Reitoria, ouvíamos João Gilberto e Thelonious Monk. Rock era lixo e anátema. Carlos Nelson Coutinho era nosso contemporâneo na faculdade e já escrevia artigos sérios: era o lado teórico do movimento que crescia no período pós-Jânio e pré-ditadura . Quando surgia uma discussão sobre se Luís Carlos Maciel escrever um livro sobre Kafka e Beckett representava alienação, eu sempre me posicionava do lado dos malucos: embora só tivesse lido “A metamorfose” e os contos “Na colônia penal” e “O faquir” (estes, na revista “Senhor”) — e nada de Beckett — eu tendia a gostar dos artistas insubmissos a programas que deveriam servir a alguma “ditadura do proletariado”. Apesar da minha teimosia em não entrar em grupo nenhum, eu era tratado com simpatia. O Centro Popular de Cultura da UNE local me pediu que escrevesse um samba para um bloco de carnaval engajado. Fiz “Samba em paz” — que veio a ser gravado, anos depois, por Elis.

O que mais impressionava em Lurdinha era sua sobriedade. Ela não exibia retoricamente a força de suas convicções: seu despojamento pessoal, sua lealdade inabalável, sua decisão de não perder tempo com discussões decorativas é que mostravam a firmeza de sua orientação política.

Quando nos jogamos no tropicalismo, Lurdinha tinha se casado com o pintor Humberto Vellame e se mudado para São Paulo. Entre móveis de plástico transparente e manequins de fibra de vidro, tínhamos, Dedé e eu, em nossa sala, um quadro de Vellame. O casal nos visitava de vez em quando. O tropicalismo tinha uma fome estética de violência que se traduzia em imagens fortes nas letras, sons elétricos e distorcidos nas bases, aproximação com a vanguarda radical da música clássica, contraste gritante com a bossa nova. Isso correspondia a uma impaciência com a inatividade dos comunistas sob ordens de Moscou e a uma identificação com a nascente dissidência liderada por Marighella. Faz pouco Juca Ferreira me alertou para o fato de que não toda a esquerda era hostil ao tropicalismo: dentre a turma da Libelu (Liberdade e Luta) havia quem gostasse do nosso estilo. Lurdinha — que nunca fez coro às reações antipáticas ao nosso trabalho por parte da esquerda — sentia a mesma impaciência que eu. Só que ela nunca fora nem boêmia nem retórica: seu sentimento tinha de se expressar em ação. Quando ela me pediu um eventual apoio logístico, acedi de imediato.

Em "Verdade Tropical" digo que se a nossa revolução de esquerda tivesse vencido talvez daí saísse apenas mais um gigante com câimbras. Mas Marighella foi morto numa rua de São Paulo antes que isso se tornasse ao menos provável. E pela mão de Sérgio Fleury, o truculento policial que, em entrevista à revista“Realidade”
nos anos 70, disse da “Baixinha” que estivera sob tortura: “Maria de Lourdes do Rego Mello: Está aí uma das moças mais corajosas que vi na minha vida. De uma lealdade e segurança impressionantes. Nunca se deixou trair nos interrogatórios, nunca arrancamos dela uma palavra que levasse ao ‘Velho’ (Joaquim Câmara Ferreira, o ‘Toledo’). Foi seguida durante 60 dias, filmada, fotografada, até que foi presa. Essa moça recusou ir para o Chile, na troca com um embaixador. Quando soube disso, eu a chamei até minha sala. Disse: ‘Olha aqui, Baixinha, você mentiu para mim o tempo todo. De tudo quanto disse, 99% era mentira. Mas gostei de sua atitude. Aceito as suas mentiras. Agora deixo você em paz.’”

Desde que fui preso e exilado, eu não tinha notícias de Lurdinha. Temia que ela não estivesse viva. Foi o blog “Obra em progresso”, da feitura do Zii e Zie, quem a trouxe de volta. Um dos comentaristas, Julio, tinha o sobrenome Vellame. Perguntei se ele era parente de Humberto. Ele respondeu: “Sou filho de Lurdinha, Caetano.” Assim, a internet de Hermano Vianna me reaproximou da Maria Quitéria da guerrilha urbana.”













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