quarta-feira, 4 de abril de 2012

Obrigado e "desculpa qualquer coisa", tá?

Antigamente, para comemorar alguma coisa, eu juntava as pessoas nos bares da vida. Muito mais tranquilo, afinal, o pessoal chega vai sentando, todo mundo que se conhece já senta perto e as coisas meio que funcionam, com você no papel de peão que vai rodando a mesa e acaba falando com todo mundo.

A saída também é tranquila, porque cada um vai levantando e carrega a sua comanda (isso já é mais moderninho), mas eu sempre preferi pagar a conta toda. Claro, evita confusão, por causa da diferença dos pratos, dos whiskies do fulano ou das caipirinhas da fulana, então pago e pronto, não me aporrinho.

De um tempo para cá resolvi mudar o esquema e chamar todo mundo para um jantar em casa. Amigos do trabalho, amigos da vida toda, amigos da música e a família, é claro!

Tudo ia bem, comida, bebida, música e a conversa. Falamos de tudo e de todos, sempre com muita maldade, imitando os trejeitos e sotaques das pessoas não presentes é lógico, mas com muitas risadas também, ou seja, o que qualquer grupo de amigos e principalmente familiares fazem.

O churrasco, é tinha churrasco, fazer o quê? Apesar do calor infernal que reinava e da fumaça que transformava todos os seres humanos presentes em picanhas mal passadas. Se não tem churrasco você parece um ET que não sabe receber.

Como eu dizia, o churrasco saia bem, todo mundo elogiando. A casa, recém-saída de uma obra, estava ótima, bom astral. Tinha ficado exatamente como eu queria, aconchegante num espaço generoso.

De repente, alguém começou a falar em política, aí o tempo esquentou. Tem sempre gente contra e gente a favor, mas havia ainda havia nível para conversa. Não chegamos nem ao puta que o pariu!

É óbvio que outra parte expressiva dos convivas falava, ou melhor berrava algo sobre times de futebol, todos presentes, Fluminense, Flamengo, Vasco e Botafogo. O campeonato que estava na fase final embalava os gritos de guerra que começaram a ser ensaiados nas torcidas já doidas por uma encrenca. Por uma sorte imensa não havia jogo decisivo naquele dia, quase um milagre!

Mas, Deus é Pai e logo veio em socorro dos mais aflitos, a música ao vivo, é isso mesmo, o velho violão e toca de “Espanhola” pra cá, “Andança” pra lá e “Tempo Perdido”. Engraçado que “Tempo Perdido”, do Renato Russo, tem o dom de igualar as idades, eu percebo isso. Não sinto isso nem no Raul Seixas. Alguns engraçadinhos pediam, “Minha avó tá maluca” e “Ái se eu te pego”, figindo ser piada, mas doidos para cantarem essas coisas. Graças a não sei o quê, ninguém deu ouvidos a isso, nos dois sentidos.

Nem a pregação de um pastor e as imprecações dos fiéis, numa igreja nem tão próxima, mas audível como um baile funk, conseguiu atrapalhar a agitação reinante, ainda bem! Temos que agradecer porque quase nunca passam da dez horas da noite.

Ao longo da feixxsta, como diz minha sobrinha predileta, houve de tudo um pouco, ou de um tudo, como dizem alguns. Tinha um grupo de três (atenção não estavam em três, isso é fundamental, mas seguindo em frente), um rapaz arquiteto, uma moça bailarina e um funcionário público, para os quais nada tinha importância, pois continuavam discutindo Bauhaus, Art Deco, Deleuze, Semiótica e o escambau!

E claro, percebia-se alguma traição conjugal no ar entre certos pares, improváveis!

Atingido o grau alcoólico maior, tinha gente bêbada declarando amor e amizade eternos e recíprocos, para no momento seguinte, desabarem em choro compulsivo, gente se esgoelando para cantar o mais alto possível, crianças (sempre elas) que só vão dormir, quando o último pai ou mãe exausto, está caído no sofá.

Os cachorros, estes, ficaram no canil, não porque sejam bravos, mas porque são amorosos demais e grandes, então para que todos não ficassem rasgados e imundos, eles têm que olhar a festa dali mesmo, não tem jeito.

Engraçado, juntar todas essas tribos num mesmo espaço é interessante e perigoso também, vai de intrigas homéricas entre outrora amigos inseparáveis, fofocas de emprego a ódios familiares inexplicáveis.

Isso tudo não teria nenhum problema, se não fosse, já lá pelas três da madrugada, quando todos começam a debandar ao mesmo tempo, você com vontade de morrer ali mesmo em pé e com a casa transfigurada, ouvir a seguinte pérola: olha estava tudo muito bom, muito obrigado e “desculpa qualquer coisa” tá? Fica com Deus! Dá vontade de fazer um haraquiri e sumir!

Tá bom, por mais um aniversário, desculpa qualquer coisa. Deus, você vai ficar mesmo? Então vem me ajudar, tchau!

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