A
propósito do Senador Carlinhos Cachoeira (a confusão não é desprovida de sentido), de Demóstenes Torres e sua turma, o tema
corrupção, sempre presente em nossa sociedade, me vem à cabeça como uma bomba
de retardo. A pior bomba já construída, sem precisar de nenhuma tecnologia
porque é feita de pura irresponsabilidade misturada à maldade mais básica.
A
corrupção é um mal endêmico, inoculado na sociedade. Desde o tempo do
descobrimento, dirão alguns, jogando toda a culpa nos portugueses, sempre com
uma ponta de maldade, porque os acham inferiores aos outros europeus. Não são.
Que o digam, os ingleses, os espanhóis e holandeses, de triste passado nas suas
ocupações e andanças colonizadoras na nossa América Latina, África e Ásia.
É
difícil de combater a corrupção, porque é quase um mal da alma, quando
instalada. Eu me lembro daquela senhora, falando da ética do mercado, nas gravações de vídeo de uma simulação de
licitação mostrada no Fantástico, no mês de março deste ano, justificando sua conduta ética de fraudar licitações.
Ela
diz aquilo com uma convicção de que é assim mesmo e pronto, sem um pingo de
remorso nem de escrúpulos. Já um diretor de outra empresa, nessa mesma gravação,
disse que não trabalhava com qualquer vigarista, que inclusive, ensinava aos
filhos o princípio da solidariedade: eu protejo você, que me protege e assim por
diante, se referindo aos seus “concorrentes” na licitação.
Falta
de compromisso, desapego à coisa pública, pouca responsabilidade com a nossa
própria vida!
Essa
gente não enxerga, ou pior não se importa com isso, que o centavo que é roubado
aqui, lá na frente vai deixar milhares sem emprego, sem perspectiva, sem saúde,
sem infra-estrutura básica, ou seja, sem futuro. Ou será que alguém pensa que
corrupção é uma forma de distribuição de renda?
Há
quem vá dizer, mas isso é generalização maldosa, afinal tem muita gente que não
é corrupta. É verdade, mas esses não causam mal e exatamente por isso estão
fora de esquadro, porque a regra não é essa.
Se
não vejamos: há os que marretam o imposto de renda e não se julgam corruptos.
Dizem: “o Governo não me retorna quase nada, aliás eu nem preciso do INSS
porque pago meu plano de saúde...” e vai por aí a sua justificativa marretosa.
Outros
compram muito nos camelôs e dizem: “ é um trabalhador como qualquer outro e os
preços nas lojas são abusivos e além do mais eu já sou descontado no imposto de
renda...”.
Tem
os que pagam as carteiras de motorista nas auto-escolas um sete um; os que dão
uma cervejinha para o guarda mau caráter da rua ou da estrada para não serem
multados; os que fazem um gato ou gatilho de energia, de TV, de telefone; os
que dão um agrado para funcionários públicos que passam seus processos na
frente; as empresas, em especial do comércio, que não dão nota fiscal; os
médicos e dentistas, em especial também, que não dão recibos de consultas; os
que dão uma grana para os esquemas dos aeroportos e portos, trazendo toda sorte
de artigos estrangeiros taxados pela Receita e assim por diante.
São
muitas as armações. Todas justificadas porque, ora os preços são absurdos, ora
lá fora é muito mais barato ou os impostos já são muito altos. A Receita? Ah a
Receita não serve para nada mesmo, só para encher os bolsos do Governo que
rouba e não faz. Quer dizer: parece que todos estão em outro planeta e que o
País em que vivem, não é também o seu lugar, que deveria ter melhores condições
de vida, hospitais decentes, habitação e saúde e conseqüentemente preços
melhores com maiores investimentos.
Tudo isso é passado para a responsabilidade dos Governos, como se não fosse de nossa
responsabilidade a sua eleição.
Pois
é, porque isso tudo está interligado. Não há separação entre o Governo, os
preços, os serviços, as empresas e os votos. Se você não paga os impostos, o
Governo arrecada menos, os serviços ficam mais caros, os preços idem e os
investimentos somem. Os votos? Bem há quem vote por um emprego, por um
parentesco, por uma garantia nas próximas licitações, por qualquer coisa que
seja vantajosa para si.
A corrupção, essa sim, se aproveita de toda essa confusão e graça solene. É assim mesmo, todo mundo rouba! A máxima é dita com uma ponta de orgulho!
Só que, cada marretada, cada cervejinha, cada voto errado ou mal intencionado, custa muito caro lá na frente. Quem vai viver num País pior são os seus filhos, netos e assim por diante. Porque dinheiro, mesmo roubado, um dia acaba e aí? Aí sobra o País sem nada para oferecer.
Não há outra saída que não a mobilização e pressão junto aos Congressistas por mudança dos processos e mais fiscalização.
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